• Manuella Bezerra de Melo

O Nordeste, dialética da literatura universal e a nova geração de escritores


Manuella Bezerra de Melo


Intervenção gráfica sobre fotografia do italiano Giovanni Marrozzini que inspirou a ilustração da capa de Torto Arado, de Linoca Souza. A foto faz parte da série Nuovelle semence (2010), realizada em Camarões.





Brasil, 2021. Um romance ganha a cena editorial brasileira. Torto Arado, publicado em 2019 pela editora Todavia, primeiro romance escrito e publicado pelo baiano Itamar Vieira Júnior, vence todos os mais importantes prêmios da literatura de língua portuguesa, começando pelo Leya, passando ao Oceanos até o celebrado Jabuti. É possível para quem não atua no segmento ter pouca dimensão do significado disto. Um bom resumo seria lembrar que a realização de Torto Arado é inédita na história da literatura recente. Nenhum romance movimentou tanto o mercado, nem tomou a proporção deste. A narrativa conta a vida de duas irmãs, Bibiana e Belonísia no contexto de trabalhadores rurais de Água Negra, uma fazenda na região da Chapada Diamantina, interior da Bahia, e trata de temas cuja literatura demonstra como transversais a passagem do tempo histórico, já que nunca revelado na sua completude ao leitor.


Itamar, um jovem escritor baiano, viu sua vida mudar em muito pouco tempo. Imprensa, leitores, prêmios, prestígio, críticas também, obviamente. Entre as notícias mais acessadas pelo público, uma delas, publicada pela muito popular Revista Veja, afirma no seu título que Torto Arado dá novo fôlego ao romance regional. O Regionalismo, muito resumidamente, sabe-se que foi um movimento iniciado ainda dentro do romantismo brasileiro com os romances indianistas de José de Alencar e a poesia de Gonçalves Dias em contraponto ao romance urbano de Machado de Assis, mas é ao Romance de 30 (ou regionalismo modernista) à que se refere a jornalista da Veja, que trouxe nas temáticas menos exaltação e idealização e mais realismo às narrativas trazidas por, entre outros, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos e Jorge Amado, chamados de regionalistas por narrarem histórias que se passavam no universo rural de uma localidade fora do eixo sudestino. Itamar, baiano que é, não nega a grande admiração a estes autores enquanto leitor, principalmente a Jorge Amado, de quem conta orgulhosamente histórias do dia que, ainda menino, o conheceu em sua casa, em Salvador. Resgatar Itamar importa pra compreender quanta coerência existe classificar hoje (ou até em qualquer tempo) um romance enquanto regional, como fez a crítica da revista em questão.


A notícia, aparentemente inocente e comprometida com a divulgação do trabalho do autor, resgata no fundo um antigo debate dentro do sistema literário, o que é uma literatura regional ou uma literatura universal¿ Não há como pensar em literatura brasileira sem a percepção histórica que o Nordeste já foi o principal polo econômico do país antes do ciclo do café no Sul e Sudeste e do estabelecimento da capital no Rio de Janeiro. A mudança do eixo econômico do País ainda no século 18, os fortes ciclos migratórios de europeus nas primeiras décadas de 1900 para o Sul e Sudeste e as três grandes secas que mataram 4% da população brasileira contribuíram pra a estigmatização da Região Nordeste e, obviamente, dos seus habitantes, os nordestinos, como um povo pobre e marginalizado, de cultura menor, mística ou folclorizada, uma desumanização que resgatava valores da razão iluministas como argumento para uma visão estereotipada que justificasse uma superioridade dos brasileiros das regiões sul ou sudeste. E obviamente este rótulo acompanha também o sistema literário.


A professora doutora Regina Dalcastagné, da Universidade de Brasília, coordenou uma pesquisa no Grupo de Estudos de Literatura Contemporânea e divulgou os resultados completos em 2012 na obra Literatura Brasileira Contemporânea - Um Território Contestado (Editora Horizonte/Editora UERJ). A investigação tráz números importantes tanto sobre o perfil do escritor brasileiro quanto aos personagens das obras publicadas. Foram lidos 258 romances, publicados de 1990 a 2004, pelas editoras Companhia das Letras, Record e Rocco, consideradas as mais importantes do país. A pesquisa revelou que os autores, na maioria, são brancos (93,9%), homens (72,7%), moram no Rio de Janeiro e em São Paulo (47,3% e 21,2%, respectivamente). A pesquisa denota não somente a condição excludente a que está submetido o escritor do nordeste dentro do sistema literário, mas trata também de assuntos importantes relacionados às questões de raça e gênero, que coloca mulheres e negros nordestinos, por exemplo, numa condição ainda mais periférica.


Posto isto, voltamos, portanto, a Itamar, nosso exemplo de atual sucesso, um jovem escritor negro da Bahia, cuja literatura apresentada foi considerada pela veja como regional. A primeira vista, a ideia de uma narrativa regional não parece de todo ausente na literatura de Torto Arado. De fato, toda temática trazida através de uma história localizada tem elementos nitidamente atrelados à região Nordeste. A questão torna-se um problema quando intitular algo como regional ganha conotação pejorativa e reducionista porque automaticamente excluí a possibilidade de ser também universal, condição comumente denotada somente às literaturas produzidas no eixo sudestino do Brasil. Como poderia Torto Arado ser um romance tão somente regional e não universal quando o primeiro grande prêmio que lhe deu devido reconhecimento foi justamente o Leya, fazendo-o ser publicado primeiramente fora do Brasil do que dentro.


A investigadora Euridice Figueredo (UFF) em um pequeno ensaio publicado no site da Revista do Grupo de Estudos em Literatura Contemporânea Brasileira da UNB explica a necessidade em enxergar de forma dialética as relações entre regional e universal, de modo que seja possível ultrapassar falsos antagonismos excludentes e reducionistas que operam em nome de um puro etnocentrismo. A pesquisadora explica que:


“Ele é [Torto Arado], antes de mais nada, muito elaborado não só na linguagem como na sua estrutura, portanto, sua fatura requintada torna-o universal. Mas universal não quer dizer eliminar a dimensão regional ou nacional, porque toda literatura parte de um particular, as vezes de uma micro-região, e fala ao mundo” (FIGUEREDO, 2020).


E é este etnocentrismo que faz com que somente escritores principalmente do eixo Rio-São Paulo sejam vistos como universais, e sendo assim, ocupem a maior fatia do mercado editorial brasileiro como demonstram os dados revelados na pesquisa da professora Regina Dascastagné. Mas Itamar respondeu muito bem às tentativas de deslegitimação da sua obra. “Falo a partir do meu centro”, disse, entre outras coisas, em entrevista ao programa Roda Viva. A questão leva a pensar porque uma literatura é configurada somente regional e não universal quando àquela tida como universal também fala a partir de uma região¿ A resposta insubmissa do autor é, até certo ponto, previsível, e vai de encontro ao contexto recente de onde está inserido. Itamar faz parte de uma nova geração de escritores brasileiros que é fruto do ciclo de estabilidade democrática iniciado no País a partir da Constituição Cidadã de 1988, que possibilitou sequencialmente a chegada dos ciclos petistas no país, importantes para efetivação de agendas para a democratização da universidade pública através, entre outras, da lei de cotas e do Prouni, além do esforço político para promoção da interiorização dos campis, que ampliou o acesso e a permanência a milhares de pessoas anteriormente impedidas da obtenção de um curso superior, e contribuiu, portanto, para formação de uma nova geração de intelectuais com origem em minorias sociais historicamente excluídas.


Desde então, esta é a geração que tem atuado enquanto operadora da resistência aquilo que veio a seguir, o crescimento da lógica fascista global iniciado no Brasil por volta de 2012 consequenciando na vitória do atual presidente, Jair Bolsonaro, que se tornou o porta-voz de uma parcela conservadora e reacionária da sociedade silenciada após o final da ditadura militar, mas que mostrou-se incomodada com territórios ocupados pelas minorias sociais. Esta conjuntura geral deixou seus reflexos dentro do sistema literário. As mobilizações pelo direito a existência, posto em cheque com o avanço do fascismo, levou o debate para dentro do mercado através de novos escritores e escritoras que tem confrontado a forma e os critérios de como é constituído o cânone e a tradição literária brasileira, e forçado entrada num terreno cuja hegemonia nunca, até então, fora sequer questionada.


Além dos dados sobre as origens territoriais que formam o perfil do escritor brasileiro contemporâneo, a pesquisa de Literatura Brasileira Contemporânea - Um Território Contestado (Dalcastangné, 2012) revela também muitos outros números elucidativos para compreensão da formação deste cânone, entre eles, o de que 72,7% dos escritores são homens, 93,9% são brancos, 56,6% das obras publicadas não consta sequer um personagem não-branco, e dos que constam, estão estereotipados como pobres ou bandidos, assim como as mulheres condicionadas à dona-de-casa, doméstica ou prostituta, por exemplo. Os índices demonstram, portanto, que o mesmo perfil social que tem seu direito de existir questionado nos últimos anos é também aquele silenciado e invisibilizado na literatura, que desde o marco fundacional tem servido a um sistema literário de homens brancos sudestinos que escrevem sobre homens brancos sudestinos para homens brancos sudestinos lerem.


Essa hegemonia quase absoluta foi configurada como um campo de força e amalgamada no argumento subjetivo do rigor epistemológico, que curiosamente não atinge estatisticamente o perfil estabelecido, mas somente o dissonante. Somente muito recentemente este bloqueio tem sofrido uma pequena ferida, uma fenda aberta fruto do empreendimento desta geração de escritores contemporâneos que têm atuado em bloco para descolonização deste território, principalmente mulheres, negros, indígenas e lgbtquis, e ainda os nordestinos com toda universalidade do que significa ser um nascido em um dos estados desta região, cuja função principal diante no questionamento da tradição do cânone literário tem sido justamente questionar dentro do seio do sistema qual literatura é universal, porque somente algumas literaturas são consideradas universais, quem decide o que é universal, porque decide e a serviço de quem decide¿ Deste modo, junto ao Itamar, o jovem escritor negro da Bahia, está uma lista larga de autores que vem ganhando destaque na cena literária recente, a exemplo da pernambucana Cida Pedrosa, sertaneja de Bodocó, vencedora do último Prêmio Jabuti na categoria poesia com seu poema épico Solo pra Vialejo (CEPE), da também pernambucana Adelaide Ivánova, vencedora do Prêmio Rio de Literatura 2017 com seu O Martelo (Garupa), uma voz constante contra o etnocentrismo hegemônico sudestino dentro do sistema literário para com os autores dissonantes, do cearense Jailson Furtado, que venceu o Premio Jabuti nas categorias poesia e melhor livro do ano em 2018 com seu poema épico A Cidade, publicado de forma independente, da também cearense de Juazeiro do Norte, Jarid Arraes, que disseminou a literatura de cordel pelo Brasil adentro num investimento simbólico para desestigmatizar uma narrativa literária da tradição nordestina sempre vista como menor com o seu Heroínas Negras Brasileiras (Cia das Letras), que resgata a memória de personagens negras importantes apagadas da história oficial do País, autora recentemente convidada pela Heloísa Buarque de Holanda para fazer parte da antologia 29 poetas hoje (Cia das Letras), uma homenagem ao importante livro 26 poetas hoje, publicado nos anos 70, onde participam também algumas outras nordestinas como a própria Adelaide Ivánova, Nina Rizzi (CE), Luna Vitrolira (PE), Regina Azevedo (RN), Érica Zingano (CE), e Bell Puã (PE), finalista do Prêmio Jabuti (2020) com Lutar é Crime (Letramento) e organizadora da antologia de poetas slammers Poemas pra serem lidos em voz alta, cujo perfil representa uma ótima síntese desta nova geração de escritores brasileiros; slammer, mulher, negra, nordestina com origem na periferia, realizadora, que teve acesso ao ensino superior no ciclo de expansão universitária explicada em parágrafos acima, e que no entanto, com toda sua dissonância, vem promovendo sua literatura como quem cava um buraco como Deleuze explicava em Kafka por uma literatura menor.


A pequena fenda no campo de força do bloqueio hegemônico é pequena, mas é possível vê-la. É possível ver estes autores nordestinos ocupando este território, com a pá às mãos. Claro que o Romance de 30 é canônico e que uma ou outra vez um autor dissonante abocanha seu espaço, no entanto, na história da literatura o fluxo dessa geração empreende algo inédito: a escrevivência. A escritora Conceição Evaristo explica que se trata de escrever enquanto forma de reivindicar o direito de existir, o direito ao acesso, à contemplação e à produção da literatura como queria o professor Antônio Cândido, e quanto mais visibilidade conquista um autor dissonante, um autor nordestino, com publicações, prêmios, indicações, mais território ocupa, mais voz ganha, mais questionamentos fará em alto tom, como faz o Itamar, sobre a necessidade de alterar os paradigmas e oferecer ao leitor epistemologias outras, menos distópicas da realidade brasileira, mais representativas e entrelaçadas à diversidade, mais democráticas, e afinal, uma literatura efetivamente universal.


Referências Bibliográficas

BOSI, A. (1997). História concisa da literatura brasileira. 35.ed.São Paulo: Cultrix.

DALCASTAGNÉ, R. (2012). Literatura Contemporânea Brasileira, um território contestado. São Paulo, Brasil: Brasiliense.

CANDIDO, A. (2004). O direito à literatura. In: Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades.

DELEUZE, G e PARNET, C. (1997). Kafka: por uma literatura menor. Rio de Janeiro: Imago, Diálogos.


Outras Referências

FIGUEREDO, E. (2020). Notas sobre o romance regional retirado de http://gelbcunb.blogspot.com/2020/12/notas-sobre-o-romance-regional.html. Ultimo acesso: 27 de fevereiro de 2020.