Ágda Santos

Roraima - N

Ágda Santos, cria de Roraima, escritora, editora e trabalhadora humanitária. Foi mediadora do #LeiaMulheres em Boa Vista e possui um livreto de contos publicado e distribuído gratuitamente chamado Pó, Poi. Também publicou em coletânea de contos.

@agdasanto

Ágda Santos.png

Poemas

Sete Na Pá Dourada

          

você não comemora comigo

o que eu construí.

somos bem legais. Nós.

saiu da escola. Nós.

nascida no extremo norte

não-branco e mulher

o que Eu vi ser exceto Eu?

 

espreita tarde. Nós

golpe em linha reta. Nós

aqui nesta ponte entre

mirante e argila,

minha mão segurando firme

minha outra mão;

cante o pecado. Nós.

 

nós nos dedos finos. Nós.

venha comemorar

comigo todos os dias

já é junho.

algo tentou me matar

e falhou.

 

Paraporisto

Isto é para os solitários,

Os mais velhos,

Passou agora

Silenciado pelo tempo em alta velocidade

Menos significativo do que uma vez antes

Assediados pelos objetivos que não alcançaram.

Consumidos pelas falhas que assombram suas horas finais,

As decepções, os erros, a malícia,

O apego ao que nunca foi ou jamais seria.

 

Isto é para pessoas comuns manipuladas por desejos

Vendido a eles desde o primeiro grito de nascimento - a inocência da juventude

Condicionados por instituições, religiões, governos,

Comércio e líderes equivocados do mesmo.

 

Isto é para o meio heróico, mantendo o melhor que pode.

Às vezes, muito longe das diferenças de ataque certas

Percebidos como ameaças ao estilo de vida

Eles passaram a vida construindo.

 

Às vezes, longe demais para a esquerda, uma tradição implacável

Propagando uma visão absoluta de uma humanidade "deveria ser",

Condenando a injustiça de poderes não alinhados com os seus.

 

Isso para o meio termo, o ponto de perspectiva

Que vê erro dos dois lados, que nota a hipocrisia

De todos os bombardeios retóricos e preconceitos.

 

Para aqueles que podem e fazem amizade com um inimigo

Para atributos encontrados amigáveis.

Para aqueles que se recusam a aceitar

Pensamento puritano esquerdo ou direito.

Para aqueles que buscam e concedem arrependimento,

Quem perdoa.

 

Por verdades científicas e observáveis

Colaborado por mentes honestas de investigação.

Por consenso além da democracia em pontos percentuais.

Para ideais que podem estar além do alcance mortal,

Para esperanças que podem não ser mais que miragem,

Por virtudes cantadas, pintadas,

Elenco, forjado, dançado, pregado, rabiscado,

Bem elaborado, berrado, sussurrado,

Passado em segredo, gravado nas paredes da prisão,

Expressado através do laço sufocante da corda de uma forca,

Orou, trabalhou, chorou,

E perseverou.

 

Pela possibilidade de que a existência

É mais do que a busca cínica da riqueza material.

Para aqueles que um dia podem desistir de seus modos avarentos

E gastam livremente seus bilhões na melhoria da terra.

Para aqueles da extrema esquerda e da extrema direita

Isso pode voltar à média de ouro

Diferenças comprometedoras para o benefício de todos.

 

Para uma revolução auto-expansível em evolução

Em um milhão de milhões de almas individuais

Iluminado à perspectiva de que toda a vida possa viver junto como Um.

 

Para aqueles em risco de serem silenciados por excesso de velocidade

De pé e pronunciando, cantando e dançando

E tirando das profundezas da história e do conhecimento

Os sonhos dos mais velhos, dos solitários, dos silenciados

Morreu por.

Metáfora

como se estivéssemos

no quintal descansando

em cadeiras de praia, olhando para cima

diga-me qual o centro da nossa galáxia

cheira a mamão e tem gosto de gin

que em algum lugar além da poeira

nuvem de Cruzeiro do Sul

                                    uma guitarra toca

segure seu bastão do dia do juízo final

a conduzir os insetos

uma ca

            co

                fo

                    nia de grilos

e instrumentos alados crescendo

com o show de luzes acima

uma exibição brilhante de explosivos

todos os b o o m s literários

e P O P

mil sóis

a maneira como os astronautas descrevem o espaço sideral

como metálico, com cheiro doce

como pólvora e carne queimada

                      crie uma metáfora

como no verão

choramos fora da existência

chiar. chamuscar. evaporar.

 

A Força de um homem

Colocado aqui 

Com sua publicidade passando pelos meus olhos

Como desenhos da vida de outras pessoas

Eu começo a pensar 

 

O que é preciso para ser um Homem?

 

Bem, eu aprendi a beber 

E eu aprendi a fumar 

E eu aprendi a contar 

Uma piada suja 

 

Se isso é tudo o que existe, então não há sentido para mim

Então pergunto por que estamos vivos

Por que tudo o que você faz parece uma perda de tempo? 

E se você ficar por muito tempo, 

você será um homem

 

Conte-me sobre isso

Seu carro pode chegar a cento e dez

Você não tem para onde ir, mas vai lá novamente 

E nada nunca faz diferença para um homem 

Então você tropeça na cidade com o estômago em reviravoltas

Mostre a eles o que você tem (embora eles tenham visto tudo) 

Sim, você é uma beleza, mas eles já viram seu tipo antes

 

Você não precisa 

Mas você ainda quer 

Ir e reservar 

Aquele restaurante 

O vinho fluirá 

E então você vai voar para longe

Então, por favor, posso perguntar por que estamos vivos?

E nada nunca faz diferença para um homem

 

Para um homem

Para um homem

é isso que eu sou.

 

rubato

Os dedos calejados não podem

tocar as cordas com muita

graça ou garantia mais,

e o tempo é sempre

rubato, parando, mas ainda

esse som - notas tremendo

e claro em sua singularidade,

criando memória pela casa -

dores com pura intenção,

melodia de alguma forma mais bonita

como remanescente do que

seja lá o que costumava ser.

 

Eli Macuxi

Roraima - N

Eu sou elimacuxi, assim, com a letra minúscula de quem tem a humildade de saber-se integrada, em nada original, paulistana tragada por uma cultura que adicionou açaí, tambaqui e paçoca ao meu prato de lasanha. É na Roraima cada vez mais venezuelana e guianense que amadureço e compreendo as relações com minha ancestralidade e com as teias históricas que me envolvem, tanto para proteger quanto para sufocar. Sou poeta, esteta, cientista da História. Entre tantas coisas, sou amazônida.

latitude: 2,8371949 / longitude: -60,6806073

@alimacuxi

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Poemas

Revolução é mulher

Você concorda, decerto

que o mundo precisa de conserto, não é?

Pois bora prum papo aberto?

 

Se quiser você pode

fazer do café seu perfume matinal

pode ou não cuidar das plantas no quintal...

mas se quiser também pode

não saber cozinhar um ovo.

Esqueça a voz do povo!

Você pode querer ter filhos

ou não

pode sonhar ser engenheira espacial

e ser! Aqui ou no Japão.

Você pode dirigir um carro de fórmula 1

lutar MMA, pesquisar fauna marinha e viver a mergulhar

ou adotar gatos, escrever poesia e decidir que

o melhor pra você é simplesmente consigo estar.

Ah, também pode decidir tudo e depois

simplesmente mudar.

A liberdade de ser é o melhor presente

que podemos nos dar.

 

Então seja, mulher

seja bela sendo a luz que a ti revela

você pode ser gorda, alta, negra, baixa, velha, branca,

nova, indígena, magricela ou malhada

ter a pele sobrando, em dobras, ou esticada

limpa como veio ao mundo

ou toda tatuada,

os cabelos lisos ou caindo em cachos

ou não ter cabelos!

você pode tudo, ouça seus apelos

o que eu penso e acho

é que é muito tonto quem tenta

não reconhecer que ser mulher, agora e aqui

independe de qualquer condição

não tem receita,

somos tantas e diversas, trans, cis e travestis

todas donas dessa energia...

 

Feminina é a força que move

a revolução que esse mundo requer.

E ela virá, da nossa força em sermos quem somos

dentre tanta coisas

a revolução que o mundo precisa

será feita pela mulher.

Reescritos

 

Palimpsesto é nossa história

Incômoda nossa antropofagia

Rótulas no chão

Embriagados de poesia

negamos os rótulos

rastreando com os poros

cada fluido

desse desejo bem resolvido

 

por segundos que duram séculos

simplesmente somos

 - sem metas nem diretrizes-

isso que tanto assusta

nesse mundo desajustado:

absolutamente felizes.

 

 

Pessoa em carne viva

 

A carne, ainda viva,

pulsa pedindo piedade

acumulam-se sob a pele

dores, quilos, raivas, medos

no enredo

pegadas de sangue

postes, putas, proezas perenes

paisagens pregadas na retina

trabalho, flores, gatos, horas, dias...

nada,

ninguém é refúgio

 

no escuro de dentro

que o sol não respeita

a carne grita crua

que o deserto

sou eu.

 

 

Louboutin

 

Um salto, claro,

para um momento raro:

deu a si o presente tão caro

e, tomada de ânsia e perdão,

pisou com os dentes e engoliu

o próprio coração.

No ventre blue de minha mãe

 

Volto a São Paulo como se voltasse ao útero

enorme e disforme útero blue.

 

Jovens descolados

ainda andam sós ou em bandos

ainda falam alto ou fecham as caras

cheios de certeza de que o mundo lhes serve.

Reconheço artistas, ambulantes, moradores...

Da rua

em cada esquina do Jardim Paulista

o cheiro de marijuana e tabaco,

marijuana e incenso,

marijuana e marijuana,

se instala e atravessa minhas narinas:

Ali um par de motoboys no almoço

Lá dois barbudos com coletes sujos e pesados de couro

Aqui um rapaz com camisa de clube e duas meninas.

 

Observo o augusto desfile

das mulheres elegantes, homens despojados

Rumo ao Centro e nos limites da Liberdade

se me escancara a realidade de cada um

disputado ou negligenciado

por igrejas, igrejas, igrejas

e sinagogas e centros e mesquitas

e partidos e lojas

e lojas

e lojas

onde curiosamente se empilham

cruzes, elefantes, olhos  gregos e figas...

sim, há ainda fé, fragmentada, diluída

como há o eterno aviso de "não toque"

nas antiguidades, nas jóias.

 

Há arte invisível em todo canto

enquanto os olhos colonizados

são atraídos para o anúncio de quinze metros

da nova série de garotos brancos

do serviço privado de TV.

 

São Paulo é essa pilha de desejos

vivos, toscos, ocos, secos,

depositados sobre objetos e objetos e objetos

mais sagrados que os corpos abjetos

que se estendem com vida

e frio

e fome

pelas calçadas

aqui

ali

e lá

sob as marquises da Paulista.

 

O semblante cansado

ainda predomina no metrô

inúmeros cristos crucificados dormitando de pé

pendurados pelas mãos

pregadas para o alto

no trem que se arrasta

vagarosamente sob a chuva

para a zona leste.

 

Crendo-se o sangue desse imenso nada

a imensidão de corpos mansos e amansados

segue feito um rio de gente pelas escadas rolantes

escorrem sendo o sumo da cidade menstruada

líquido aborto,

do suor o sal, extraído, excluído

vertido nas linhas amarela,

azul, coral...

 

Milhões de vidas contidas em  vagões e caixas de cimento

árvores maduras voltam seus galhos aos céus

descobrindo-se incapazes de retirar, da luz, seu alimento.

 

Flores de resistência rosas e amarelas

são pisoteadas nas calçadas

nas manhãs de primavera,

mas em qualquer estação

tua cor segue cinza São Paulo,

nas ruas e calçadas e muretas que resistem

enegrecidas pela tua

"anticorrupta e moderna" poluição.

 

Eu, tua filha ranzinza

retorno, vejo, fujo

pois muito te amo mas também odeio

e sigo não desejando teu doentio seio

E sigo dizendo que te quero,

minha Sampa,

mas não te quero não.

 

Elisa Coimbra

Roraima - N

Elisa publicou os livros (sem título), em 2019, um híbrido de prosa e poesia; mó, em 2020; e, em 2021, trabalha no seu terceiro livro: O parto natural dos dentes, que será publicado em formato e-book; (re)interpreta tecnologias mirando a decolonialização artesanal do status quo.

latitude: 2,8679603 / longitude: -60,6507939

@elisacoim

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Poemas

eu me aproprio dos espaços que você me dá

e você se apropria dos espaços que te dou

e estes espaços são tão diversos

mas todos convergem em algo parecido

com o lugar exato em que se constrói um castelo de areia

bem pertinho das ondas

em dia de maré cheia

 

---

 

mãe,

me recuso a dizer amo a senhora

porque não cabe na mesma frase isso de amar algozes

mas em troca digo te amo

como quem fica muito feliz por desmontar um dificílimo quebra cabeças

 

---

 

não os culpo

(culpo sim)

culpo a mim

(mentira)

pelo ocorrido

(na verdade,

foi por outra coisa)

 

digo calada

(gritando)

as verdades

que me moram

(que são

apenas mentiras)

 

digo que sinto muito

(sinto nada)

aos meus entes queridos

(nenhum).

sorrio bem externo

(choro bem profundo)

acordo todo dia

(morro a cada segundo);

 

olho para tudo

(não vejo nada)

conto os

meus sentidos,

são muitos

(contabilizam nenhum);

se assopro uma vela,

eu sorrio

(despenco em solidão,

só choro

quando sorrio)

 

quando eu vi você passar

(eram pedras),

tropecei em ti

umas mil vezes;

eu queria

(embora internamente

eu negue)

--- 

 

nós, que lavamos nossas calcinhas

que lavamos em nossos fundos

àquilo que pelo foi segredado

que dedicamos canções e gestos à memória

que esperamos acordadas pelo sol

e que sempre diminuímos o passo num passeio

é que estamos acostumadas a andar rápido

nós, que morremos simbolicamente

e acreditamos no dia seguinte

nós que lavamos nossos fundos na corrente de uma cachoeira, porque ela tem a engenharia perfeita para lavar nossos fundos

nós que tivemos a coragem do perdão

e muito mais a coragem do desprezo

que falamos de outros tipos de coragem para além de continuar existindo como pular de paraquedas e lançar um livro

nós que não fomos queimadas e tampouco seremos algo de sereia iluminada, muito menos oremos

nós que fizemos da questão filhos

mais do que fez biologia

nós que gostamos de frutas durante o banho

e que curtimos uma pele macia

nós que perdemos o medo das palavras

que arriscamos metonímias, e sentimos tara

que nos sentimos inseguras e sempre iremos, e sempre iremos tentar sentir menos

nós que não sentimos muito

e que jamais poderíamos comparar uma vontade de chorar tão forte com uma vontade tão forte de sorrir

que não nos envergonhamos por andarmos descalças

que cerramos os dentes quando com raiva

e as vezes a unha arranha a lança, quase sempre na verdade

a parte em seu completo meio

nós que afiamos nossos dentes num pedaço de palha ou na pétala de qualquer antúrio

nós que não vestimos calcinhas

lavamos nossos fundos debaixo da queda d’água de uma cachoeira porque nesta cachoeira

somos

 

--- 

 

no direito eu digo venhas

vou mastigar-lhe as dúvidas

processá-las as vanguardistas

mães de todas as coisas,

até das estrelas velhas

que brilham no céu

como um sorriso de dentes amarelos

este sorriso vai morrer,

filha minha

é que não aceitamos um sorriso morto,

as estrelas que enganam, neste caso

de se encantar tanto por algo do ido

irmã de todas as beiras e pleuras

as poeiras coçando em nosso

átrio engarrafando as lágrimas

elas escorrem porque a face

é o córrego perfeito e 

o design das cidades bem que poderia

mas não

há muitas entupidas, sem reação

reacionam um sistema inteiro

o colapsam, o universo

inteiro debaixo de nossos dedos

ainda é o passado se tornando 

nesta casa agora, neste lavrado extremista

não há conta gotas contra as doenças

perniças e muito menos contra a maior

perguntas sem respostas

você vai morrer mais breve que

o silêncio das asas de um beija flor

tua única soda cáustica a corroer

o embrulho que se forma fácil

esta é a única certeza, diamante 

mas puro, inegolível

grudado na rocha

da caverna de tua boca

 

Isabella Coutinho

Roraima - N

Isabella Coutinho nasceu em Boa Vista, no mês de abril, no início das chuvas. É professora, estuda línguas indígenas, observa mais do que fala, pensa mais do que escreve, mas segue amando as palavras e os sentimentos dentro delas.

latitude: 3,2645776 / longitude: -61,1652822 

@isabellacoutinhorr

Isabella Coutinho.png

Poemas

Podia ser
Inteiro
Podia ser mão
Podia ser chão

Podia
Ser mais um
Dia

Podia ter
Podia não ter
Tido fim

Podia olhar
E não ver
Podia ser
E não estar

Podia des-
Crer

Podia ser tão
Pouco
Podia ser
Ou não

- mas é imenso.

---

a água do rio me tornou doce
firme nas ideias
pés – raízes plantadas no chão

a água me empurra e me dissolve
assim como a água
sou toda líquida
e trago em mim cardumes
de pensamentos inacessíveis

mas um terço do que sou
tem o sabor do sal
e as profundezas
do que não vejo
nem compreendo
pertencem a uma parte de mim
assim
abissal

---

 

este objeto
que antes era extensão de minhas
mãos
agora parece do corpo um pedaço
amputado

estas palavras
que antes fugiam tão fáceis
agora me soam assim
ventríloqua

estas folhas em branco
que antes bordava ponto a
ponto
com palavras-nós
agora rotas restam e se desfazem

em pó

---

o homem é feito de barro
e hábito
o homem acostuma
falar sentir fazer olhar
e diz que ama

a necessidade preenche
o vazio do querer do homem
a costela de cerâmica
está oca mas não cabe
(ele não sabe)
o seu sentimento

o hábito faz o homem
homem que escreve
homem que lê
o homem de barro desmancha
na água
(ele não sabe)
do meu sentimento

---

trago no peito
as janelas e as portas
necessárias para fugir de mim
agulhas
linhas
necessárias pra tecer uma rede
e dormir
trago no peito
ânsia e vontade
calmaria e tempestade
trago na ponta dos dedos
pudor e paixão
escrevo friamente
o que pulsa arde vibra
a combinação certa de elementos
pode gerar vida
ou entrar em combustão
trago no peito a chave
solução de quem busca alívio
o mundo dentro de mim
meu refúgio
exílio

 

Sâmia Kapon

Roraima - N

Sâmia Kapon é fogo, segundo seu signo e sua mãe. Filha do Norte e neta do Nordeste, transita entre o som e as palavras. Poeta, pesquisadora e produtora cultural, Sâmia troca fácil todas essas palavras por um só adjetivo: arteira, aquela que faz e se identifica com a arte em todas as suas formas.

latitude: 4,1659284 / longitude: -60,9670584

@samia.kapon

Sâmia Araujo.png

Poemas

Poema à musa  

A musa pode ser puta  

Ser dela mesma a fantasia maior  

Na segunda, na terça,  

Na quarta de cinzas  

Usar chicote e salto  

Ser sade  

Ser maso  

Ser só o que quiser ser  

Tudo  

Nada  

Dona de casa  

Dos casos  

Do acaso  

Ser vida  

Ser vadia  

Mas  

Ser  

Só o que quiser ser  

                             [inclusive poeta] 

Poema órfão 

Do ódio que te tenho 

Nascem os meus filhos poemas  

Frutos órfãos de nosso amor. 

---

Quero ser tua  

Musa, puta,  

poeta Bruta flor 

Ser dos teus  

beijos Fonte de  

desejos Em horas  

de amor 

Amiga  

Namorada 

Amada 

O tudo que for 

Mas não me prive 

Das mãos que me afagam 

Dos lábios que dançam com os meus  

Da voz que recita a buceta que  

lambeu 

Quero escrever sobre pecados 

Sobre a cama 

Nosso altar no quarto 

Quando o mundo já não existe 

Apenas as borboletas resistem 

Dentro de mim 

Que braços sejam  

versos Pernas sonetos 

Eu toda poesia  

Alimento pra todo  

dia Água que sacia a  

sede Cheiro de nós 


 

Parto 

Quando pari 

Não pensei em nada 

Apenas vi nascer 

Palavra

Teoria do Romance 

No Romance cabe tudo 

Cabe a bula do remédio que cura  

Cabe a receita do prato que alimenta  

Cabe o preço do feijão. 

Só não cabe nós dois  

Pois tu não me amas

Flores 

Tenho a mente  

suja, roupas sujas 

e um coração pulsante 

que me rasga em batimentos 

Tenho medo do  

futuro de vinhos pela  

metade 

de como me chega a cor azul 

Tenho uma boca cheia de  

desejos palavras absurdas 

(escolhidas para serem censuradas por ouvidos alheios) 

Na bolsa Ana Cristina  

Cesar cigarros 

maquiagens para a vida 

(uma aquarela de rabiscos ilegíveis)

 

No peito pétalas  

caídas de um  

amor que tu me  

flores. 

 

Assassinato 

Quis te matar às 5h 

Na esquina da perimetral  

Levei na bolsa 

Minhas armas 

Batom vermelho  

Boca afiada 

E a vontade tresloucada  

De simplesmente  

Eliminar 

Aquilo que existe no peito  

Que transborda nas manhãs  

Quando a luz bate 

E a noite quando a tempestade castanha  

Inunda, invade e desmorona 

Os alicerces do que penso meu 

Como planejado 

Os membros foram esquartejados 

As pernas foram jogadas no quintal abandonado do vizinho  O tronco dei pros urubus da rua da feira 

Na lateral da biblioteca (por amor ao ofício) enterrei as mãos  O coração entreguei ao rio 

Quatro dias depois 

Por teimosia, cansaço, preguiça ou puro caso de relógio atrasado  O corpo ressuscita ainda mais ateu 

Mais sem vergonha 

Cheiroso e de unhas cortadas 

Palavras na boca  

Desafiavam leis e reis 

E dentro de um sorriso toda a concordância se desfez 

Foi se aproximando 

Até eu sentir o ar que sai de ti  

Tocar a pele 

Romper a barreira da epiderme  

E penetrar em mim

Acordei, 

Pensei em chorar um pouco  

Lágrima já não tinha mais  

Pensei em te beijar um pouco  

Vontade já não tinha mais  

Pensei em correr mas 

Pés já não tinha mais 

Ô menina, 

mas que coisa essa tua sina  

De matar e morrer de amor. 

 

Sony Ferseck

Roraima - N

Me reinventei como Sony Ferseck  só para poesia. Nasci em 1988. Me fiz gente (e poeta) em Roraima. Ando me fazendo indígena no meu lugar, coisa difícil e caminho duro que anos de colonização e preconceito ainda hoje querem me negar a ser. Sou formada em Letras pela Universidade Federal de Roraima (UFRR) onde também participei do Programa de Pós-Graduação em Letras na linha de pesquisa de Literatura, artes e cultura regional.

latitude: -1,4672754 / longitude: -48,461258

@sony.ferseck

Sony Ferseck.png

Poemas

nós mulheres invisíveis

aprendemos pela casa

a linguagem dos cômodos

apertando entre os dentes

nosso silêncio de sangue

empurrado pelos quartos

como os filhos que teremos

& que nos odiarão pelo espelho

(mas ainda assim o espelho virá)

nós mulheres domésticas

desaprendemos do nosso antigo nome

que antes dizia bicho rio sol beija-flor

pra virar água de batismo-catequese-castigo

rima qualquer entre o som & o desprezo

que não grita mais a palavra deus

(mas ainda assim dito)

nós mulheres silenciosas

muito menos parecidas com as outras

vivas ou mortas

guardamos entre as pedras os ossos

dos homens que jamais nos predisseram

assim como a eles

só nos restam cantigas rupestres

incrustadas nos ermos de não ir

(mas que ainda assim iremos)

que não se enganem

toda aquela que faz silêncio

guarda o intocável

assim permanecemos

tecendo a vida como a

fibra de um ornamento

uma língua de fumaça

que só diz palavras de cura

afiando a lâmina pela terra

em luta

nós mulheres infinitas.

 

* Para as mulheres indígenas.

---

do barro arde

-dura

minha existência

que do dourado

espalha sementes

de Wei*

toca minha irmã

teu chocalho kewei*

canta minha irmã eren*

nossa peneira

nosso ralador

mastiga minha irmã

nosso lavrado

de fumaça & palha

nós o reacendemos

pinta minha irmã

de tawa* a água

tinge minha irmã

de preto as palmas

nossas asas

também são deus

nossos lábios

também são deus

& Wei nossa mãe

nossa filha.

 

*Sol em Macuxi.

*Chocalho feito de semente de aguaí usado nas danças Parixara e Tukui do mesmo povo.

*Canto.

*Tabatinga.

---

 

abandonada

minha anatomia se encurta

deixei-a aos pedaços por toda cidade

enquanto crianças-copo tilintam fomes

tão antigas como suas etnias

para vidros aborrecidos de fumê

mas olhos-semáforos disfarçam: - abriu! desvia!

homens-papelão classificados de rua

anunciam desempregos mas bocas-gramática

apontam: -olha o erro! tá escrito em outra língua!

mulheres-número mais corpos & mais culpa

se empurram desiludidas para carros camas e rua

mas cabeça-sentença grita: - deve se vender por

gosto! desde lá deve ser puta

índias-descalçadas ardidas & desbotadas de meiosdias

vendem enfeites de palha mas bolsos-tempo

marcam:- agora não! que coisa cara!

abandonada

minha anatomia se encurta

deixei-a aos pedaços por toda cidade

fujo de nações inventadas & pergunto:

em que parte de mim se localiza a fronteira?

que cores tem a bandeira de minha face?

estrangeira de mim

peço hospedagem.

 

*aos hermanos venezuelanos.

cantigas infanticidas

 

no dia em que morri

era 25 de maio às cinco horas da madrugada

contaminada pelo amor que tu me tinhas

que era pouco & me matou

no dia em que morri

toda olhos vísceras útero & ovários

velava meu próprio corpo

à sombra de uma sacada

o sonho saiu ferido & a moça despedaçada

no dia em que morri...

mas não fui nada

não sei nada

não há de ser nada

enterrada em corpo vivo.

 

 

Vinda

Em tempo,

Se a tempo Ela vier,

Me alcançará em foices

De domingo e óculos de grau.

Não farei choramingos,

Nem últimos pedidos.

Dar-lhe-ei meus melhores dentes

E as despes do destino,

Então a contento a direi:

- Já vem Lá, parente?

E prosearemos pelo resto

Do tempo como duas penitentes.

 

--- 

 

arrastando minha grinalda de ferro

fundida de vivos & mortos

que nunca enterro

forjada na mais incandescente memória

cravada impiedosa na testa tal

qual viessem do mesmo material

escavo funduras na terra na face na cintura

me firo contra minha própria cabeça

contra meu próprio peito

com a lâmina que rebrilha da lembrança

no coração mais espesso

de levar todos golpes

& rexisto.

 

Vanessa Brandão

Roraima - N

Vanessa Brandão é jornalista roraimense, doutoranda em Estudos Literários pela Unesp, mestra em Letras pela Universidade Federal de Roraima (UFRR). Pesquisa sobre arte e literatura indígena. Escreve desde a adolescência e mantém o blog literário www.minhajanela.com.br  Atualmente mora na Polônia, na cidade de Lódz e vive com saudades do Brasil. 

@vanessabrandao

Poemas

Deixo sim! 

Deixa-me bagunçar tua paz organizada 

Deixa-me! Caos em suas mãos de pintor 

Deixa-me desmanchar tua ordem e tua moral 

De bons costumes o inferno está cheio 

E o mal não prevalece na casa dos bons 


 

Encontro 

Que tua alma encoste sem querer na minha

Passeando completas e cheias de ânimo 

Sob luares sem precedentes 

 

Muito perto  

Dê-me de presente a sua presença 

Sentindo com todos os cinco sentidos e meio ou seis  

Ouvindo meu murmúrio de mulher doida

Vendo meus cílios cerrados  

Podemos acender um incenso para garantir que estamos sentindo o mesmo cheiro  

Mantenha suas mãos fixas em toda extensão da minha pele  

Lamba meus dedos devagar  

E me deixa sentir a energia emanada de todo esse  enrosco

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Renovação  

Não tenha medo  

Ossos humanos  

São feitos de pó de estrela 


 

Para Krenak e Esbell 

Soube de uma América Latina inventada, um produto colonial  

Imersos até os olhos na colonialidade das instituições  

Soube dos povos indígenas da américa latina, vivos  

Pujantes, resistindo há 500 anos de violências perversas  

Soube da terra com febre, do mundo sem governança  

E da necessidade ativa de agir localmente, pensando globalmente  

Soube da cena trépida da canoa  

Todos nós dentro dela, afundando 

Soube, porém, não queria aceitar o lamento  

Construiu uma rede de afetos, saiu exaltando mulheres 

Abriu frestas de onde brotou luz em demasia, perdendo o controle  

Fez-se clarão na noite e os olhos marejaram 

Com soluços baixinhos, contagiados de um amor delicado, nunca antes sentido.