Amanara Brandão Lube

Rondônia - N

É natural de Porto Velho - Rondônia, nascida em 24/11/97. Atua na cena teatral nacional, é contadora de histórias, artista-pesquisadora na linguagem de Performance Art e poeta-performer.

 

latitude: -8,7376517 / longitude: -63,8726076

@passarovadio

Amanara Brandão.png

Poemas

Poema VIII 

Feito terra, atentar para as sementes  

que lhe são lançadas,  

escolhendo o que nutrir em si  

e florescer para o mundo. 

Almejar a sublimidade  

das árvores centenárias  

O êxtase da flor  

coberta de orvalho  

O frio na barriga do passarinho, na beira do galho, 

prestes a dar o primeiro voo.


 

Preta Ponta de Facão

 

Tava escrito, 

Repetido, 

Nas vozes que ecoam 

Por todos os cantos 

Por todos os contos 

Que essa coisa de ser, 

Ser mulher; doía, 

Doía... dói 

Tava dito, 

Me ditaram, 

E eu... 

não entendi 

até que vivi, 

vi, senti. 

E doeu, doeu; 

Doeu... dói... dói 

Pra cortar as amarras 

Que me cortam a pele preta, a carne

preta Doeu... dói 

Minha alforria 

Sou eu quem me concedo 

Todo dia 

Minha alforria 

Sou eu quem me concedo 

Todo dia

É construção, 

Desconstrução, 

Vou cortando cada amarra feito ponta de facão.


 

Corpo revolta 

Corpo revolta 

Fora do padrão 

Não tem patrão – e, ainda assim,

não passa fome.

Quero costurar na pele dos dias 

Quero costurar na pele dos dias,  

com a agulha do tempo,  

uma história que seja mais  

que sobrevivência.  

Uma outra história sobre  

conquista de territórios. 

Uma história ao contrário,  

que comece pela conquista  

do próprio corpo. 

Que seja sobre a libertação  

de cada vértebra, músculo, nervos,  

das correntes de toda e qualquer crença ou teoria 

que ouse condenar nossas livres existências.  

Libertar meus desejos de toda culpa e medo, 

desaprender tudo o que me foi ensinado 

sobre ser mulher, sobre ser gente,  

e, quem sabe, me tornar de vez  

o sensível indócil que sou.


Presente antepassado 

 

A minha pele escura 

reflete o passado obscuro 

dos meus antepassados. 

Subjugados, maltratados,

desconsiderados, jogados naqueles baús

marinhos, 

faltando o ar, o alimento, a vida. 

Trazidos ao Novo Mundo 

pra aqui serem O Nada. 

O passado, que foi presente dos meus

antepassados hoje é estatística de desigualdade, 

de mais uma morte à flor da mocidade. 

O passado, que foi o presente aos meus

antepassados hoje grita nas favelas, 

becos, terreiros, vielas. 

O passado, que foi e é presente 

não só dos meus antepassados, 

hoje grita em cada canto e recanto do meu

corpo, da minha alma e do meu coração.

 

Erlândia Ribeiro

Rondônia - N

Escritora. Publicou o livro de contos Superfícies irregulares (Kotter, 2019). É graduada em Letras Espanhol e Mestra no Programa de Pós- Graduação em Estudos Literários – PPG/MEL pela UFRO e, atualmente, doutoranda em Estudos Literários no Programa de Pós-Graduação do PPGL-UFES. Trabalha com os diários da escritora argentina Alejandra Pizarnik (1936-1972), seu objeto de vida e de pesquisa. É uma das fundadoras e organizadoras do Clube das Escritoras de Rondônia.

 

@diarioconfessional

Erlândia-Ribeiro_foto.png

Poemas

vermelho ruína

 

dou uma volta ou duas

atiro nos meus próprios pés

deslizo contra a parede pensando

no pouco

tão pouco

nada

o que me sustenta?

a lágrima escorre brilhante

no teu e no meu rosto

sabes que te quero?

mais do que nunca y amarga

crítica

áspera

y leva minha vontade

mas não quero a fuga

quero ficar diante da ruína

vermelho ruindo

e enxergar

os destroços

as cinzas se perdendo

olhar bem de perto

a minha natureza

turva

toda

 

pedras dispersas nos escombros de dentro.

 

tristes trópicos

eu que me lanço em atos

quase sempre impossíveis

levanto uma bandeira

vermelho sangue

e recordo:

estou no ano vermelho

com o coração em pedra bruta.

entendo agora:

tudo que move para frente

alcança

mesmo que a luta dure

toda a vida.

racho o mármore

desviando

transgredindo.

 

força-corpo-coragem.

 

a palavra salva

a escrita também.

eva

 

repete a dose
infame
morre em mim
mais uma vez
eu não nasço
e nem morro
mediando o processo
encontro
traumas perdidos
orgulho ferido
e mexo
numa parte profunda
que ainda desconheço

malícia e desejo
dois significados
dois pesos involuntários
nas minhas costas
de Eva
descobrindo
o paraíso.

 

 

cadernos

mancho os cadernos de silêncio
todo vermelho vivo
dentro
 

grave, absolutamente.

 

nado raso nos teus sonhos

 

quantas coisas te digo?

quantas você me diz?

as cartas aqui nunca chegam

sobra espaço no quintal

para os teus pés percorrerem

mesmo sem respostas

o que você disse que queria daquela última vez?

com os olhos baixos experimentava do ar puro

enquanto podia

no momento agora existem agonias atravessadas

um corte nos lábios

e dentes branquíssimos

na minha memória mais recente

nado raso nos teus sonhos

mas não me atrevo a atirar a primeira pedra

acolho todos os sinais e tento reconectar:

você e eu.

para no fim

te dizer:

não há mais máscaras.

 

Julie Dorrico

Rondônia - N

Julie Dorrico pertence ao povo Macuxi (RR). É doutora em Teoria da Literatura (PUCRS). Autora de Eu sou macuxi e outras histórias (Caos e Letras, 2019). Ganhou o 1º lugar no concurso Tamoios/FNLIJ/UKA de Novos Escritores Indígenas (2019). Administradora coletiva da página no Instagram @leiamulheresindigenas e do canal no Youtube Literatura Indígena Contemporânea.

@dorricojulie

Julie-Dorrico.png

Poemas

Retomada

 

Como você se atreve a nos chamar de pobres hoje

Se foi você que tirou nossa terra?

 

Como você se atreve a nos chamar de feios

Depois de ter violado nossas mulheres?

 

Como você se atreve a nos chamar de preguiçosos

Se foi você que nos matou de trabalhar?

 

Não somos pobres

Fomos empobrecidos

 

Não somos feios

Fomos embranquecidos

 

Não somos preguiçosos

Fomos escravizados, tutelados

 

Então, como você se atreve?

 

Há luas e luas

Nossos ancestrais teceram nossa história de glória

Por isso lutamos para reaver:

A terra que nos foi roubada,

A voz silenciada

O corpo ocultado

 

Nossas belezas

Nossos encantados

Nossos povos

Nossas vidas

 

Então

Nunca mais se atreva a nos diminuir no seu espelho.

 

Marcela Bonfim

Rondônia - N

Era outra até os 27 anos. Em SP, acreditava no discurso da meritocracia. Já em Rondônia, adquiriu uma câmera fotográfica e no lugar das ideias deu espaço a imagens de uma Amazônia afastada das mentes sudestinas, mas latentes ao lugar e às inúmeras potências antes desconhecidas a seu próprio corpo recém-enegrecido.

 

latitude: -8,7502636 / longitude: -63,8987949

@bonfim_marcela

Marcela Bonfim.png

Poemas

Calar 

 

Calar é sentir o nada; 

O nada tem muito a dizer; O corpo sente; 

A boca fala; 

Se não tem nada; 

Melhor não dizer; 

É como o silêncio; 

Da noite; 

Fala pra Lua; 

E a Lua ao luar; 

Enquanto a beleza; 

Do céu 

Acende 

Fazendo da gente; 

Uma gota 

De Mar; 

Deixa o dia raiar; 

Ouve o fogo queimar; 

Enquanto a beleza 

Do Céu inflama; 

O nada levanta; 

Se põe a cantar; 

La la ia la 

La la ia la la ia la la ia 

Deixa o Dia inflamar

Ouve o fogo queimar; 

O nada é a única 

Posse humana; 

O resto é chama; 

Poeira; 

E Ar;


 

Ao Negro? 

 

Ao Negro? 

Uma poesia; 

Escravidão, 

Capitalismo, 

Pandemias. 

Ao Negro, 

Outra poesia; 

Navio, escuridão, 

Sem direito 

A despedida 

Mar adentro 

Se foi. 

Ao Negro, 

Uma outra poesia; 

Muitos que continuaram

Sequer enxergaram 

A luz do dia. 

Ao negro, 

Mais essa poesia; 

Será o fim 

Dos tempos? 

Ou outro meio 

De morte 

A cada dia? 

Ao negro, 

Uma última poesia;

Quando tudo 

Passar, 

O que será 

Da pele escura; 

Já que achava 

Que era dia?


 

Ao Negro! 

 

Ao Negro, 

O Pulsar 

De um Corpo Negro 

Ao Negro, 

O colorir 

Do Mar-Azul; 

Azul: 

Da Cor 

Do Mar; 

O Mar é 

Negro-Azul 

Orum! 

A pele do Mar: 

É Negro-Azul...

Madona Negra

Do cinza, 

Viu o verde brotar Aiaiai… 

Não sabia nada 

Sobre o Medo e o Mar 

Feito fogo afoito 

Foi terra buscar 

Bebeu tanta Água

Que virou Luar… 

Metade Negra; 

Metade Dor 

Às vezes Sereia;

Às vezes Cor

Metade Negra; 

Metade Cor 

Às vezes Serena 

Às vezes Dor.. 

 

O Tempo 

O tempo que mata 

É o tempo que morre 

A dor que não passa ... 

Vira lixo 

Vira lata 

Depois morre! 

Passa Amor... 

Passa a Dor ... 

Passa tempo... 

Vai passar! 

E nele a gente; 

A gente nele; 

E nele a gente ... 

Contando as horas passar ... 

O tempo passa no infinito

Num instante! 

Um pedaço de tempo 

Que eu possa degustar ...

 

Sem medo

Porque o medo 

Antes do Tempo 

Era estrada 

Era esteio 

De quem morre 

Morre-vive 

Vive-morre 

Contando as horas passar ... 

Não há medo 

Que não passe 

Com o tempo... 

Também é o caso 

Do desejo 

Enfim, dei por mim... 

Vai passar!

 

Pâmela Filipini

Rondônia - N

1994. Apenas uma mulher que escreve livros e passa a maior parte do tempo sozinha dentro de si mesma.

latitude: -8,765081 / longitude: -63,907026

@pffilipini

Poemas

SER ADMIRADA, JAMAIS AMADA

 

Ser admirada, jamais tocada

― como um vaso de flores vazio

ilustrando a pouca pertença.

Ser lida, jamais beijada

― como uma Ártemis:

interessante e, no entanto, perigosa.

Ser amiga, jamais pensada

― como matéria além-amizade.

Raiz nula, o fruto devorado em silêncio.

Ser invariavelmente a Mulher

Solitária que mora somente no aceno,

no conselho, na sabedoria fundada

no coração do exílio interior.

Ser ainda mais admirada, como se não

existisse um corpo, como se não

existisse braços e afeto, como se não

existisse uma Mulher Real com costas

sofridas e mãos prontas para amar,

como se a Poesia fizesse dela

uma igreja em chamas na qual todas

as pessoas já estão condenadas.

Ela, o espécime feminino que não pode

ser amado nem queimado.

Ela, fadada à morte sem ao menos

poder morrer.

 

Ser admirada, jamais amada.

 

Esta é toda Maldição

de ser Mulher-mulher,

de ser Mulher-lésbica,

de ser Mulher-poeta.

 

---

 

Cada coisa está inclinada a seu fim.

A cada coisa é permitido amar anunciando

o fim sem vivê-lo.

A cada coisa é permitido viver seu fim

amando para estar certa do próprio fim.

A cada coisa é permitido terminar-se

para fazer uma pequena fogueira

na Escura Paisagem Interior

fugindo nas sombras daqueles

que ali se aquecem.

 

---

 

Há em cada espírito solitário

um ilhado

 

que no primeiro afeto

se torna múltiplo e encolhe

 

e ainda que encolher-se

o apequene

 

sabe que - por ser sua própria

intimidade, fica vasto.

Pâmela Filipini.png

---

Estou rapidamente envelhecendo

e a palavra tem se tornado

cada vez mais jovem em mim

 

[...]

 

Temo e a felicito, pois algum dia

de tão jovem se tornará semente

e somente os pássaros carregam

sementes.

 

--- 

 

Às vezes me pego querendo

ser árvore

 

árvores não machucam

ninguém

 

seus galhos são seu silêncio

 

[...]

 

quem dera ter pássaros

na minha mudez.

 

---

 

Deixe-me plantar uma flor

no teu quintal

 

para que sempre

eu tenha que perguntar:

         [como ela vai?

 

Quando na verdade

quero saber de ti.

 

Walquíria Raizer

Rondônia - N

Walquíria Raizer é poeta e mestranda em Memória e Acervos. Publicou O segundo ponto de reticências (2007). Participou das coletâneas Amar, verbo atemporal: 100 poemas de amor (2010) e As mulheres poetas na literatura brasileira (2021). Integra o Coletivo Macabéas ao lado de Patrícia Nogueira e Clarice Campos.

latitude: -13,1840177 / longitude: -61,3123468

@walquiriaraizer

Poemas

Veneza

A parede malhada feito um gato 

(Ou vaca) 

O espelho que mostra uma velha carcomida 

Pelo tempo, pelas palavras não ditas 

Trancadas na garganta de um mundo whatsapp 

Manda figurinha 

Escolhe 

Essa não 

Como no tempo das cavernas 

Desenha 

Nem desenha. Escolhe um desenho pra dizer 

O lambari pula no coqueiro 

- Pula? Lambari não é peixe? 

- É. Acho que é. 

Não importa. Nada importa no tempo das máscaras. 

 

---

 

Escolha as flores que nascem na calçada quando ninguém está olhando. E  brotam alegres 

Escolha o vestido rosa e o sapato azul 

(não te importes se não combina) 

Escolha sempre o amor 

E as palavras bonitas 

Escolha a risada da mãe 

E um encontro com a amiga 

Escolha o fim de tarde na Urca, 

um brinde em Santa Teresa, 

as folhas no chão e uma criança pulando pra não pisar em folha nenhuma 

Escolha. 

As coisas e as palavras bonitas devem ser escolhidas 

todos os dias 

---

Casa de madeira 

As tábuas com o tempo vão secando. A madeira fica seca e as tábuas diminuem de tamanho. 

Daí você tem que pregar nelas as matajuntas. 

Você sabe o que são matajuntas? São aquelas ripinhas mais estreitas que as  tábuas. 

Você tem que pregar as matajuntas para juntar uma tábua na outra e não  entrar água quando chove. Ou venta. 

O bom é não fazer casa com madeira verde, nem madeira recém cortada. É bom deixar um tempo. 

Deixar as tábuas e as matajuntas secarem e só depois pregar. 

Às vezes me lembro dessas coisas que eu sei, 

mas que não servem de nada.

Walquíria Raizer.png
Os meus olhos 

Não eram os olhos dos meus amigos da escola 

Meus olhos diferem do meu rosto 

Meus olhos não parecem com os olhos que deviam parecer

Eu não pareço com o que devia parecer 

- Você não parece do Acre. 

- Você não parece uma mulher de Rondônia. 

- Você não parece com seus olhos. Seus olhos não parecem seus. E talvez meus olhos não sejam deste corpo. Branco. Magro. Aceitável. 

Talvez os meus olhos sejam o meu não aceite. Meu desconforto. Minha  solidão. Pois eu não pareço. 

Não. 

 

---

 

O sol lá fora parece frio

Sem gente 

Sem riso 

 

Limpa o chão 

Recebe as compras 

Lava, esfrega, enxuga 

 

Arranca a rua das coisas 

A rua gruda 

Entra pelas ideias 

Há riso esperando lá fora

[Amanhã. Há de ter

amanhã]