Adélia Danielli

Rio Grande do Norte - NE

Potiguar nascida em Currais Novos, poeta, feminista, mãe e produtora cultural. Participa dos zines Entre Seios e Revoada e do livro coletivo Por Cada Uma (Editora Una, 2011). Em 2016 lançou o primeiro livro solo, Bruta (Editora Tribo, 2016). Seu livro mais recente é vertigo que foi contemplado pelo edital da Fundação José Augusto, através lei Aldir Blanc.

 

latitude: -6,2616325 / longitude: -36,5181438

@adeliadanielli

Adélia Danielli.png

Poemas

vertigo

a matéria 
da minha 
cura
está nas 
palavras
que não 
falo
mas que 
escrevo

calada 
crio um 
espaço
um eixo
centralizo
me protejo

nauseada
de girar.

 

---


me camuflo
na delicadeza
que confundida
com fraqueza
esconde
as portas 
que já derrubei
as pontes
que consertei
as matas fechadas
que abri
os relógios que parei
os silêncios que ouvi.

 

---

 

segurar 
a onda
crescer 
depois dela
e se tornar 
rainha 
do seu próprio
mar.

---


nos perdemos
de nós na vida
no tempo

aumentamos
a distância 
sobrevivemos
à lembrança

enquanto a memória
é impotente

diante do
que se sente.

---

 

não sou a mulher 
que você quer 
que eu seja

não perdi 
meu cérebro 
minha libido
meu desejo 
de dançar 
nem de fazer
revolução

não ceguei 
para a política
não calei 
minha poesia
não morri 
quando pari
nem meus 
sonhos 
morreram
por sua 
opinião

meus limites 
não fazem parte
da sua designação

não sou a mulher 
que você quer 
que eu seja

não perdi 
meu cérebro 
minha libido
meu desejo 
de dançar 
nem de fazer
revolução

não ceguei 
para a política
não calei 
minha poesia
não morri 
quando pari
nem meus 
sonhos 
morreram
por sua 
opinião

meus limites 
não fazem parte
da sua designação

tenho alma 
um corpo  
uma mente
e não adianta
tentar sentenciar 
o que vai muito além 
da sua pouca 
compreensão

minhas ideias 
alcançam lugares  
onde seus limites
jamais chegarão.

 

Ana Luiza Souza Dantas

Rio Grande do Norte - NE

Ana é poeta, potiguar e pessoa - necessariamente nessa ordem. Nasceu, cresceu e vive na Zona Norte de Natal. Atualmente, é estudante de Comunicação Social e trabalha com escrita criativa e redação. É autora do e-book Dormia de bruços para segurar o coração. Em breve lançará seu primeiro livro físico Puemas de punho e pólvora.

 

latitude: -5,9757759 / longitude: -35,7609405

@anacomluiza

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Poemas

minha cidade foi construída sobre dunas

em suas partes mais altas ou mais baixas:

uma duna ainda é uma duna

 

nascida e criada tão perto do sol

meu corpo é quente

meu sangue corre rápido

como quem foge

por isso eu sinto menos frio

 

abaixo da linha do equador

entre o previsível e o inevitável

é de onde vem tudo que sou.

 

 

Relatos de um rio pequeno do norte

 

I

 

sinto uma necessidade

de contar histórias

 

talvez porque minha cara diga

muito pouco do que quero falar

 

ela não diz sobre

os seus dias de sertão escuro

sem luz sem água

mas com muita farinha e feijão

 

você me diz que nunca passou fome

mas já quis comer bolachas que não podia

 

o sítio agora é outro

com luz energia até uma piscina

há uma magia no cloro

misturado com o barulho dos grilos 

e o sabor do caju tirado do pé

 

os espaços se transformam

e isso aconteceu diante

dos meus olhos, viagens e pastéis de tangará

 

vejo tudo como

um destino feito

pelas nossas mãos

como belchior diz

naquela música que eu

e você ouvíamos quando faltou energia

aqui em casa e você me disse

parece que estou no sertão

 

sei que a cidade te doeu lá no início

 

II

 

quando viajo pra maior metrópole

da América do Sul não deixo

[nunca, nunquinha]

de pensar o quanto

agarrei minhas chances

improváveis pra honrar

o impossível que você

conquistou com seu suor

 

em cada voo tem um muito de você

eu juro

 

compartilhamos dores parecidas

em especial uma

[aquela que mói a alma]

e teorias dizem que tem algo

a ver com genética por isso o

mundo me doeu tanto desde cedo

penso que se for verdade digo

obrigada toda vez que você

saia pra jogar bola

ou dava uma risada sincera eu

tive dentro da minha casa

um exemplo de como vencer essa merda

 

queria te explicar

como nasci pra ser quem sou

e como quem sou também é

boa parte de quem você é

 

se aceito a aventura de me ser

é porque tá no meu sangue

                  no nosso sangue sertanejo

isso de não aceitar

uma realidade que dói

como se ela fosse

a única possível.

Obra para conter o avanço do mar

 

esse poema poderia ter outro nome

se o dinheiro conhecesse a palavra recuar 

 

nós vamos pelo oeste

falando oeste como quem tem sotaque baiano

sem nem pensar em chiar como quem nasceu potiguar

sabendo que meia dúzia de tijolos não dá conta de um mar nordestino

 

por último, e não menos importante,

a gente arrudeia

e acaba no leste

falando s como quem espera fevereiros em recife.

  

--- 

 

Ir na mercearia 24h de mãos dadas

ir como se um fascista não estivesse à frente do país

e de mãos dadas como se muitos outros não estivessem à frente do mundo

 

Ir na mercearia 24h de mãos dadas

como se bichos invisíveis não estivessem matando pessoas palpáveis

ou como se não matássemos bichos para alimentar pessoas indigestas ao meu organismo

 

Ir na mercearia 24h de mãos dadas

como se as coisas fossem mais parecidas como sonhamos sem tempo pra dormir

ou apesar das coisas estarem totalmente ao contrário do que as nossas versões de 10 anos imaginaram

 

Ir na mercearia 24h de mãos dadas

ir porque precisamos comprar molho creme de leite e cebola

e de mãos dadas porque tocar 1cm do seu corpo é como estar sempre com um pé em casa

 

Ir na mercearia 24h de mãos dadas

porque é nas pequenas coisas que acontecem apesar das grandes coisas horrorosas

que percebemos que ainda há jeito que estamos vencendo ainda que perdendo um ou dois ou vários

 

Ir na mercearia 24h de mãos dadas

porque tenho sua mão na minha às 12h de um domingo levando molho creme de leite e cebola 

mesmo que tantos documentos e tratados internacionais tenham tentado proibir esse acontecimento.

 

 

Algumas felicidades me assustam.

Como um céu rosa de fim de tarde. Sua existência já é a própria anunciação da despedida. Imagino o caminho até lá. Do outro lado do fim. A vista me parece ótima. Confortável, limpa e selvagem. Os pássaros voam pelos fios de alta tensão, como eu escrevi naquele poema. Parece fácil existir. Fácil demais pra ser verdade, eu penso. Por que ainda é tão difícil não carregar pesos? Todos os dias têm um pouco de fim de domingo. Exceto o fim de domingo, que já parece o fim do mundo. Hoje é um domingo. E em dias como esse, de acordo com o meu Google Agenda, a poesia já não é luxo. É necessidade. Lembro quando o mar me atacava quando era criança. Lá na Praia da Redinha, enquanto levava caldo, pensava: é o jeito dele. Achava que as ondas eram um charme do mar pra disfarçar nossa paixão. Agora mesmo me pergunto onde está essa aceitação das coisas como elas são; das ondas do mar exatamente como ela se formam. Preciso de um pouco dessa certeza que tudo bem o mundo acabar um pouquinho todos os dias. Eu já aprendi aquele truque de boiar numa tsunami.

 

Anna Zêpa

Rio Grande do Norte - NE

Anna Zêpa é natalense e vive em São Paulo desde 2009. É artista e realizadora nas expressões de literatura, cinema e teatro. É integrante do Coletivo Estopô Balaio, as de fora e Arenga Filmes. Tem 4 livros publicados, sendo 3 de poesia: Primeiro Corte (selo do burro, 2013), aconvivênciadosnossosrastros (selo do burro, 2015), Instantes Manhãs (comma, 2019); e 1 de contos: Da perda à pedra a queda é livre (2016). A partir da poesia tem parcerias musicais com Kiko Dinucci, Alessandra Leão, Meno Del Picchia, Zé Nigro e Jonathan Silva.

 

latitude: -6,0887145 / longitude: -35,099805

@annazepa

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Poemas

o pescoço é o poço do corpo


na esquina, as nuvens andam com pressa
eu comprimida, a lua estática


estico os olhos e molho
o céu tecido de brincos


as horas casam e não cansam
de cair em coisa nenhuma


o sol nada nas veias velhas
de meu corpo covarde


me sinto rodriguiana
vamos, é hora de morrer

 

---


na terra de um beijo só
estou só
com dó
dos que respiram
puro pó


na terra de um beijo só
onde todo mundo
toma café
me sinto tão só
e vivo a dar rolé


nessa terra
de um beijo

cuidado ao beijá-la
seus lábios grudam
delícia de mangaba

 

---


meu ouvido
fincado
em teu peito

 

a batida
do teu amor
me tira o sono

 

sonho

 

---


sol deitado na pele
língua guardada na boca
apocalipse do amor

 

Gabrielle Dal Molin

Rio Grande do Norte - NE

Sou mulher cis bissexual, mãe da Gal, professora de História, Mestre em Antropologia Social, doula, poeta e vocalista da banda Valvulosa. Nasci Campinas-SP, mas moro numa praia do Rio Grande do Norte há sete anos. Vivo e escrevo sobre não monogamia. Lancei o livro de poesia Seiva em 2017. Realizei oficinas de poesia erótica para mulheres em 2018 e 2020 e organizei o zine Lambidelas, apenas com poemas escritos por mulheres lésbicas e bissexuais.

 

latitude: -6,4211409 / longitude: -35,0501914

@gabspaceoddity

Gabrielle Dal Molin.png

Poemas

Quarto fechado

 

o sol entra pela fresta

ilumina as intempéries

da minha cabeça

e transforma

tudo em silêncio temporão

 

 

Ruas da memória

 

silencio os estilhaços

das pequenas tragédias

semeando delícias

todos os dias

os homens criam apocalipses

enquanto procuro os parques da minha infância

 

Todo verde

 

encontro uma vista de mar

a vida

me deixa mínima:

 

um cajueiro

contorcido e sereno

com os olhos de deus

Cactus

 

Meu corpo estreito entre as asas

Tem a fome do ar pelas dunas

E das águas, o fastio das rochas

BR

 

os vendedores de água e de qualquer comida que se mastiga

pra não morrer de fome

antes de chegar em casa

apostam corrida na BR

e um gatinho branco malhado

de marrom e preto se esgueira

pela cerca do supermercado

procura qualquer comida

que se mastiga pra não morrer de fome antes de viver mais

ou de morrer atropelado

na próxima esquina em que terão outros vendedores de outras coisas

que se mastigam mas não deveriam

estar ali nem vendedores

nem famintos

nem gatos

 

Gessyka Santos

Rio Grande do Norte - NE

Gessyka Santos, 30 anos, poeta e produtora cultural na cidade de Natal/RN. Autora dos zine Ponto e Vírgula, Peito Aberto por M² e Cópula em parceria com o também poeta Gonzaga Neto. Em 2019 publicou o seu primeiro livro, Autópsia. Conduz o Podcast Um Poeta em Cada Esquina e a Azóis Produtora Potiguar.

 

latitude: -5,8802973 / longitude: -35,1762109

@gessykapoesia

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Poemas

um fio solto
d e s c o s t u r a

todo corpo
 

---

 

masco pólvora
como minha avó mascava fumo
o mesmo carvão de suas mãos finas
preso em meus dentes
o enxofre entre rachadura de seus pés
grudado sobre a aspereza da minha língua
juntas
aprendemos a apagar
chamas com saliva
 

---


uma baleia encalhada na praia fisga meus olhos aos seus
quatro agonias entrelaçadas apesar da distância de três montes de areia
suas barbatanas buscam água pra voltar ao lar
enquanto meus braços cavam uma cova rasa feito eu
feito ela
é possível ouvir sua canção exasperada
e apesar de todo esforço de seu dorso
de todo alvoroço nos grãos sob ela
seus olhos estão caídos aos meus
e eu
caída no meio palmo
cavado
com unhas e dedos quebrados.

---

quando meus lábios beijam
outros lábios femininos
o bico do peito quer ser
brinquedo na língua macia
quando minhas pernas
encontram outras pernas femininas
                                           [as tuas]
queremos ser beira de rio
regadas pelas águas salobras
quando me rendo a outros braços femininos
sou partícula infinda
livre na planície do teu corpo
e do meu

 

---


desabitar um corpo
é desacostumar o tato
a percorrer um caminho conhecido
é retirar de seus poros
o cheiro
impregnado do sexo do outro
do sexo da gente

é carregar o peso
morto
de um corpo inabitável
ter reações controversas
ao querer
sorrir desconcertado
quando sua boca quer
um beijo
transpirar de ansiedade
quando deveria ser
desejo

é jogar fora o mapa do
corpo do outro
e fingir que não decorou
cada relevo.

 

---

 

na palma da minha mão
não cabe o universo inteiro
mas cabe o céu dos teus cabelos
cabe o infinito da tua mente
enquanto me contas

seus medos e frustrações
não, não é amor que tenho por ti
é infinitude
é vontade de cuidar
tanto
que chego a ter medo
de sufocar
de matar
de tanto cuidado
e toda vez que seus olhos
se perdem nessa
explosão estelar que é a vida
eu só quero te mostrar
que tudo não passa
de uma poeira fina
e que se você fechar os olhos
logo, logo vai passar
vê, na palma das minhas mãos
não cabem o universo
mas cabem as gotas tímidas
que por vezes caem dos teus olhos
e todo esse mistério
que são suas palavras
sempre escondidas
por trás de cortinas
as vezes acho que você
é o próprio
universo incabível
e que nem toda astronomia
decifraria teus mistérios
mas ainda assim
ouso dizer que
o céu dos teus cabelos
cabe nas minhas mãos
   
quem sabe assim             
esteja eu me tornando
universo também

 

Letícia Torres

Rio Grande do Norte - NE

Fêmea. Posta pelas fêmeas. Nordestina, vinda de Caicó em 9 de julho de 1977. Poeta. Formada em Comunicação Social. Idealizadora do projeto @pairar__. Participou das coletâneas Por Cada Uma (Editora Una/Marize Castro) e Cartas para Zila Mamede (EDUFRN). Em 2021 lança CRAVO, seu primeiro livro solo.

 

latitude: -5,832766 / longitude: -35,216767

@leticiatorres___

Leticia Torres.png

Poemas

Começa a chover em cada cor dos sonhos que não consegui ter

 

As tintas escorrem lavando meus cabelos curtos como se fossem roupas
Sinto uma pressa que só se acalma na advertência
Nada pode ser afirmado sem que uma questão surja como toda solução


Os dias não pedem licença
O tempo vai passando com a impressão de que se indispõe aos pensamentos
A consequência mora no antes?
Percebida em seu erro, se mostra no depois de nossas vidas?


Quero a confusão de tudo o que, de tão perto, finalmente faz silêncio
Conhecer o vazio é criá-lo desabitado?


O barulho dos passos se solta dos pés
Para em nós carregarmos o relento do mundo

---

 

A vida ali
Na casa do amigo que foi morar longe
Na festa desmarcada
Na dor dormente e congelada
Na beleza cuidadosamente desfigurada

 

A vida aqui
Na brincadeira da criança mais calada
Na textura da parede aos poucos afundada
Na fala das histórias desacreditadas

 

A vida assim
Pela nudez, quase disfarçada
Pelos acertos, negligenciada
Pelas escolhas, sempre duvidada

 

A vida em mim

---

Parei o olhar até a imagem ficar desfocada
A hora presa entre os dentes
O corte de cabelo desfeito pelo tempo
E todas as canetas à espera do próximo pensamento


Meu passado vindo e indo pela memória dos desconhecidos
A ressaca dos quatro dedos que ficaram na garrafa
O esboço borrado pela certeza da mão
A mulher deixada na estremecida porta dos minutos em vão


Solidão


O dia entrando pela noite
A tinta da foto alimentando o vento
Meu medo de não ser gostada já desgostando por adiantamento
A gaveta aberta esbarrando nos olhos tortos dos questionamentos

---

 

As mesmas pessoas passam por mim
Com suas fisionomias mudando os dias
Contando o tempo

 

Uma música ruim toca a angústia
Que entra pela falha da minha janela
Na noite em que grito até ninguém me ouvir

 

À cabeceira das mortas convicções
Vem a voz do passado sussurrar as palavras
Com as quais invento essa história

 

Pressentindo é o mais perto que chego da felicidade
Quando tristeza
Encolho cuidadosamente nos gestos do abandono

---

Acordo com olhos apertados
Para não ver tanto mundo entrar
Cuido do lugar que não está ferido
E demoro os dedos, circulando o equívoco


Falo das falhas
Vou continuar escrevendo mesmo quando a tinta secar
Deixar de ser criança talvez seja aceitar o fim das coisas
Terminar, concluir, rematar
Vê-las acabar

 

Da solidão faço risco no papel amassado
Chamo de poesia o que vem dando errado
Não acreditar na vida é a maior entrega que posso experimentar

---

A palavra “desespero” fala dos que cansaram?
Ou dos que, inconformados com a falta que sentimos,
Não conseguem desistir?

 

Talvez esse começo seja resposta para uma resposta que demora
O que assumimos no instante em que a vida nos alcança?
Fundamentada em equivocados avisos

 

A proteção se mostra frágil se nos chamam pelo nome
Para o disfarce usamos como biombo as ideias dos outros
Absorvemos na ânsia do vazio que nunca para de doer
Transformados em repetição somos desmascarados pelos sentidos
Assim nenhum instinto é aceito como revelação

 

Maíra Dal'maz

Rio Grande do Norte - NE

Maíra Dal’Maz nasceu em 1991, em Monte Dourado (PA), mas vive no Rio Grande do Norte desde 1993, de onde lê, escreve e ensina. Seus poemas compõem algumas publicações coletivas e independentes, como antologias e zines. Desde 2016, colabora com a mediação do grupo de leitura Leia Mulheres Natal.

latitude: -5,7816834 / longitude: -35,1931699

@mairadalmazz

Maíra Dal_Maz.png

Poemas

trabalhador do mar

para thiago medeiros

 

um perfil talhado em vincos de acne
tua foto no substantivo plural
pronto para uma guerra que não vi

 

na tevê, o antigo franciscano brinca, 

congregando o que há para comer e beber

armado em terracota com um cacho que se perde

em preocupações seculares:

a poesia - palavra etérea para tua boca cerrada

 

enfeitando teu colo o patuá de sementes 

de árvores frutíferas e sombras

que nascem do teu quintal

 

é preciso trabalhar, diz, fazer circular mercadoria:

a poesia - tua peixeira - afiada no couro

com a qual tira as escamas e faz teus colares,

devolve às entranhas o orgulho

e permite o corpo inteiro - este teu - nadar no mar 

lagoa de extremoz

 

há, portanto, em cada canto deste mundo

a invenção 

nas porções de águas escuras e doces

tanto mais

 

aqui, por entre as ruínas da margem

dormem os olhos rutilantes

da píton-pagã

 

pobres incautos que buscam

suas bases no cálcio

porque nós, que aqui estamos,

por vós nunca esperamos 

 

ansiamos, sim, pelas jangadas,

numa vigília ao som do sermão de costas,

que, juntas, torçam os ossos as cobras

 

tracem as rotas desse comboio,

rumo ao grande hotel fechado,

e sonharemos a liberdade

 

 

"há de marcar em fogo o mais vivo da pedra"

(hilda hilst)


a origem do mundo
passa pela iniciação de uma pedra
atrito e granito escritos
no breu das cavernas

mata-borrão para quê?
a sobra é o que cria

e este espírito atravessa o excesso
encarnado de luz e calor,
retalhando, feito cortes de papel,
a língua das madalenas

por qual fenda escorre, então, a palavra?
decisão de minerva

eu: pedra e língua
marcada pelo fogo
da descoberta

baba yaga

para isabela h. coelho

entrar,
sentir as pedras ocres e o calor liso
das paredes que nos guardam

ficar,
não entre mis abuelitas que, pelo sangue,
jamais me permitiram palavra

ficar,
com o decoro de que devo conhecer
a irritadiça e sublime mestra

ir,
este rastilho cheio de sulcos e desamparos
de indomável raiva e sossego

 

 

bliss

 

filha de estradas, onde se emaranham juremas e cactos

deixo h. para ver freadas, enquanto ele,

calmo,

compõe poemas pós modernos para tentar decorar o número de celular

ou acerta despertadores para um pouco mais tarde

 

e emaranha-me,

entre colchas, apelos e músicas

 

presos aos limites da derme não alcançamos o bliss assim tão fácil

sobram tentativas de rompê-la, quando já ultrapassadas no que escuto longe em silêncio com sinatra
 

because I've got you under my skin
and I like you under my skin

 

e depois,

como acordar para a ordem moderna?

 

Maluz Maheros

Rio Grande do Norte - NE

Maluz Maheros nasceu em Natal-RN em 1992.

 

latitude: -5,8256839 / longitude: -35,1981702

@maluzmaheros

Maluz Maheros.png

Poemas

PINEAL

 

aos deuses escamados confio as chaves de teu orquidário

se te peço pão é porque busco teu discurso

[e mãos postas sobre a mesa de ferragem

hectares de além lajotam teu lar sacrossanto

expurgam as vontades numa festa cambaleante

onde desfibriladores reavivam a astênia das pernas

Dionísio se regozija dos dentes etílicos e bocas lilases

digo-o que a rua onde enrola o 44

é um grande abraço com paredes verdes

onde as conchas das mãos são bacias armadas

para o que é vindouro

eu fico na companhia de teu cão de olhos prismais

e bebo não só alimentando os meus Dionísios viajantes

que se banham em cores insólitas e desvairantes

 

DE UMA OFICINA COM JACK SPICER

 

com as gengivas desaparecidas

a fome elabora a redenção alforriando as tripas

estamos a nadar em pele esvaziada

e embora o nariz seja uma ponte

nos espiralamos para o nada

o olho fisga e os tremores fazem de nós

ventríloquos assustados e dissonantes

 

e agora o metal escorre do radiador

vermifugando o chão

bêbados e ciganas deitam sob

a mesma linha em que se que se erguem

onde redemoinhos embalam a noite das crianças

 

ainda irei ouvi-los no estreito reduto do meu sono

 

 

TENTO CAROLINA

atravessar a vida dos olhos dos meninos

ficcionando os dias

do caos lamber a ferrugem

quebrar os dentes do riso

tento carolina patrocinando o suicídio das bocas

formigas desenham caminhos de suas civilizações ocultas

sobre a mortalha de meus pés

na vida dos olhos do menino

a vida dos olhos que tive

---

 

aneurismas encapam a noite enquanto

latifundiários de entranhas domam pensamentos perdidos

desde a remoção dos pelos a pele cicatrizou

com o teu canino perdido dentro

de braços passados no estômago benzo e invoco nomes

para que subam suas proteções sobre mim

 

[endereço-me a você como uma embarcação no lodo]

 

---

 

ancestralizada por palavras de outras mulheres

me tornei pesada e avulsa

mas forte

meu útero efervescente

burila as palavras para o poema

disperso meus passos nos paralelepípedos dessa cidade perdida

com as pernas lisas

diluo os pedaços de meus malfeitores

derramando suor-amálgama

com os calcanhares friccionando o solo

esburaco

preparo o asfalto para a chegada de novas sementes

em espelhos com capas e títulos

desmancho-me

emparedada

reconstruo-me

o farfalhar de páginas brancas enfileiradas

vestem meu novo corpo

a cada velha deusa hospedada em minhas pálpebras

retiro novos significados

refaço meu idioma

 

 

BRUJERIA

 

do alto de meus olhos eriçados contemplo a reinvenção

 

o veludo resplandecente  que te veste

a carrega até a coroação dos limbos

para ascensão da padroeira do fogo

que esparge de teu ventre banhando a terra

 

sobre a expansão da tua mente sobressaltam fractais abóboras

do alto dos meus olhos empolgados percorro o altar 

 

enquanto os fósseis ancorados incensam meu corpo

o desvario das nuvens trovoando meu peito-moinho

pregoam meus pés no caminho até o talhe de deus

 

Marize Castro

Rio Grande do Norte - NE

A poeta Marize Castro (Natal/RN, 1962) é autora dos livros de poemas Marrons Crepons Marfins (1984); Rito (1993); poço. festim. mosaico (1996); Esperado ouro (2005); Lábios-espelhos (2009); Habitar teu nome (2011), A Mesma Fome (2016) e Jorro (2020). Sobre Marize Castro, afirmou Haroldo de Campos: “Em seus versos há algo de fundamental, algo entre o belo e o verum, a verdade em beleza, um cuidado especial com a síntese, um encontro com a poesia”.

 

latitude: -5,8758908 / longitude: -35,1700622

@marizecastro2812

Marize Castro.png

Poemas

QUERELA

 

Minha farsa

é sábia

   sóbria

com ela vivo

enfrentando as feras

misturo as tintas

para em seguida

abandonar a tela.

A loucura está a alguns

      passos de mim

      (não me confunde)

e me observa

      com o olhar de prata

      que só habita

                              os cúmplices.

 

(Marrons Crepons Marfins, 1984)

INTEIRA
 

Iluminada por oráculos

alimento anjos com asas quebradas.

 

Não é de vendaval que eu preciso

mas da língua do amor guardada à beira-mar.

 

Não entendo de círios

mas de verões e sargaços bailarinos.

 

Acolhida pela província,

arrisco-me  a enlaçar orquídeas em árvores.

 

Sempre sofri.

Sempre tive febre.

Sempre estive inteira em todos os infernos.

Nunca quis ser abandonada.

Mas aprendi a perder.

 

O naufrágio me ensinou a ternura dos afogados.

 

(Esperado ouro, 2005)

DE VELUDO E SANGUE

 

Porque declino do seu amor, o véu das torres me invade.

Já engoli espermas. Já voei muito alto.

Aos santuários de meninos-lodos e meninas-ostras.

 

Neste hemisfério, o tempo é vermelho.

A fé: andrógina. A inocência: anônima.

O amante: cego e corcunda.

 

O meu leite rega a flor que o inimigo trouxe.

 

Aqui não há solidão

há bosques de lágrimas

unicórnios reunidos para falar de amor

aranhas flutuando num mar

de veludo e sangue.

 

(Esperado ouro, 2005)

SUSPENSA

 

Oráculos me suspendem.

Ouço o Amor chamando.

Em cada país um diferente unguento

para suportar a viagem.

O desejo é a curva.

O grande véu com o qual me cubro

– e prossigo.

 

Se você não voltar

os bailarinos ficarão órfãos.

Se você não voltar

a vertigem será silenciosa.

E não será o fim.

Será o início do grande segredo.

 

(Esperado ouro, 2005)

 

 

AMO

 

Eu disse

que não me moveria daqui

antes de ser curada

pelo seu olhar

seu andar

seu furor

seu esmorecer

seu partir

 

e ficar

 

Eu disse que lamberia seus testículos

e beijaria sua vulva

sumiria no mundo

me transportaria para um outro

para uma esfera menos hipócrita

menos tola

e ainda assim

sedenta

 

Eu disse

 

mas os tártaros chegaram

e nos arrastaram

para um país de lestrigões e ciclopes

ao encontro dessa sombra mínima

adormecida sobre leves

e pesados bíceps

(inútil veludo

a velar

nossas minúsculas

mortes)

 

Eu disse, eu digo: amo

Lá fora, incansável, a servidão

Adormece

 

(A mesma fome, 2016)

CÁSSIA. JANIS. NINA

 

Deliciosas mortas cantam nesta casa.

O delicado espelho revela

o que se apagou por hipocrisia

acidez

babaquice

indulgência

horror.

Deveríamos vir aqui mais vezes

neste lugar onde a gentileza

é uma montanha que desmorona

e se ergue a cada festa

devolvendo aos olhos do mundo

o pequeno-grande sol

– seu primeiro filho.

Somente aqui

(não mais em nenhum outro lugar)

deliciosas mortas reinventam

a vida.

 

(A mesma fome, 2016)

 

Michelle Ferret

Rio Grande do Norte - NE

É poeta, roteirista e jornalista. Formada em Jornalismo e Artes Cênicas com doutorado em Ciências Sociais. Em 2016 junto com o filho Pedro Ferret, lançou o livro Amor substantivo abstrato (editora Burritos), e, em 2020, lançou o livro Febre (editora Selo DoBurro). Ministra a oficina Poesia e Memória e viajou pelo Brasil em 2019 através do projeto Arte da Palavra do SESC.

 

@ferretmichelle

Michelle Ferret.png

Poemas

TRAGO

 

Trago a liberdade

Amarrada nas mãos

Como finos cigarros

De festas dos anos 70

Trago

A liberdade

Enlaçada nos cabelos

Cabeça de fósforo

À espera de combustão

Trago

A liberdade

Cortada no peito

Como uma faca abrindo a manhã

De ontem

Já cinza

Trago

A liberdade esquecida

Nos pés

Descalços

Em estrada de pedrinhas

Aquelas que doem a alma

Trago

E expiro

Num alvorecer de noite

Mal dormida

E respiro uma fumaça onde se lê:

Ninguém desce desse mundo.

 

SUSPENSÃO

 

Fragilidades incompatíveis

Asas

muitas

abertas

fechadas

asas

usadas quando se precisa ir

abismada

precipício de dias

cansados

fragilidades controladas

fortalezas incompatíveis

dia

noite

arredores de água corrente

voo

suspenso

asas

fechadas

pássaros bicando o asfalto

céu azulado

lua cheia

completa

distraída

fragilidades esquecidas

voos

adiados

asas

cortadas

em recuperação

novos devaneios

para dias já cansados

ausência de vento

sopro

ar rarefeito

asas abertas

dias

noites

fragilidades suportadas.

 

 

PIETÁ

 

Antecipo a saudade

Imaginando tua chegada

Na porta

Do lado de fora

Do prédio

E olho pela janela

Ninguém

Nem o carro do bolo

Nem o milho verde

Nem tu

Antecipo a saudade

Com o braço ainda morno

Quase uma escultura

De Michelangelo

Naquele lugar

Meio barroco, exagerado

Em que nem os trôpegos da madrugada

Enxergam mais

Amanhã é outro dia

E toda revolução

Tem um passado

Toda saudade finda

E todas as esculturas

Estão sujeitas ao desmoronamento

Até os braços abertos

Desfazem-se

De cansaço. 

O QUE ESTAMOS FAZENDO AQUI?

 

Talvez o céu comece onde a gente termina

Naquele traço invisível

ignorado entre a saudade e a terra

 

Talvez o céu termine onde a gente começa

e as linhas se confundem

nos trilhos, nas cordas dos violões e nos tecidos finos

bordados por linhas grossas

 

Talvez a gente termine

ou seja céu

e as linhas das mãos lidas e revisadas

sejam o conforto absoluto da existência das ciganas

 

Talvez a gente seja

os olhos inquietos delas adivinhando a chuva

e o destino

vicejando o fim do mundo

 

 

Talvez a gente seja

o fim

que comece a cada tracejar do GPS deitado nas mãos

ou mesmo o chão

adornado de dedos e botas que não afunda nunca

mesmo a tanto peso

 

Talvez a gente seja o chão

À espera das sementinhas ou das nuvens

projetadas pelo sol

num contorno imenso de nossa miniatura

 

Talvez sejamos um braço desse desenho

saído das mãos gigantes de uma criança

ou um traço, uma traça, um troço desconfortando a ciência

e retornando velada na pergunta que ninguém nunca respondeu

o que estamos fazendo aqui?

RESTO DE VIDA

 

Entre as festas e fogueiras
Suspensas
O fim do dia
Tem nas mãos
Um cachecol de lã dourada
Entrelaça os nossos olhos
Aquece o coração
Mesmo que esfrie logo depois
Com a chegada ligeira de uma noite nublada
Esse tempo de anuviamento
É o mesmo utilizado pelo sangue
Ao percorrer
todas as veias vivas
Do corpo humano ou não
Depende do espaço que temos por dentro
Esse deslocado entre a omoplata e essa saudade sem geografia
Despedimos todos os dias
De tudo
É quando lembramos
Que nascemos de um parto
E ainda assim
Esquecemos todos os dias
Para ter um pouco de esperança.

 

 

SEMPRE É TARDE

 

Nesses dias úmidos

Guardo entre os dedos

A coragem de entardecer

Parece que sempre é tarde no inverno

Mas aqui não existe

Inverno

Nem outono

Nem estação alguma que faça adormecer

Os trens partidos

Toda ida é um arrancamento

Esforço

Linhas recortadas pelas tesouras cegas

Dos teus olhos

Nesses dias úmidos

Toda saudade é alucinação

Todo calor

Arado

Toda ventania

É um aceno de tua presença

Mesmo que por um instante

Entre meus cabelos

Molhados.

 

 

JUNHOS DE DENTRO

 

Antecipo a festa

Roendo o resto do milho

Esquecido no fogão

De ontem

Consigo sentir o frio

A fogueira

O doce da vida

Até tudo voltar

A um sofá, almofadas, tv

Desligada

E lembrar que não vai dar

Pra voar

Amanhã

Isso de ser porto e partida

Ainda nos levará a dançar

Numa terra fina e batida

Num lugar em que não chegamos

De barco

Até desafiarmos a lógica

Dos pêndulos

Da memória

Da saliva

Quando aqui

Nessa noite

Ainda é São João.

 

Olga Hawes

Rio Grande do Norte - NE

Olga Hawes (1998) é potiguar, poeta e estudante de psicologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Tem como publicações solo as fanzines vidraçaria (2014, ed. Tribo), dente canino (2017), e o livro de poemas um minuto de barulho (2020, ed. Patuá). Integra também alguns trabalhos coletivos, entre eles a antologia potiguar blackout (munganga edições, 2018). 


latitude: -5,687081 / longitude: -35,209189

@olgahawes

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Poemas

Coisas para se fazer quando não se sabe mais o que fazer:


Usar um bigode falso para adentrar o coração de um gigante.
Se arrastar pela cidade de joelhos procurando um ex namorado.
Surfar uma onda alta demais ao lado de um tubarão.
Dormir de conchinha com o padrasto da sua melhor amiga.
Montar um cavalo com pescoço de fogo e assassinar um padre.
Descobrir uma dúzia de constelações escondidas dentro do cinturão de alguma-coisa.
Falar sobre objetos marinhos não identificados no triângulo das Bermudas.
Decorar célebres últimas palavras sem motivo aparente.
Escrever textos sem sentido.
Planejar uma viagem que não vai acontecer.
Ligar para todos os seus amigos às quatro da manhã e nenhum deles atender.
Beber a ponto de cortar os dedos dos pés para encaixar na sapatilha de gesso.
Fumar maconha de procedência duvidosa deixando de lado a moral e os bons costumes.
Ler um livro adolescente sobre suicídio com uma garrafa de tequila na mão.
Cuspir no prato que comeu e depois lambê-lo.
Almejar um futuro inalcançável.
Usar o vaso sanitário público sentada.
Descobrir métodos anticoncepcionais alternativos de eficácia mínima.
Se tornar sommelier de vodka barata.
Pesquisar sobre doenças venéreas.
Cavalgar até o último episódio de cavaleiros do zodíaco.
Não concluir este poema.
Ainda assim, sentir que ele disse tudo que deveria ter dito.

 

no livro “um minuto de barulho” (ed. patuá, 2020)


Contra-tempo (setembro 2018)


Dos dias que passaram
sentimos falta é do suor.
E nisso descobri o simples:
que é sempre preciso estar disponível para as mãos alheias
nessa luta cotidiana contra o desespero,
porque tudo que o inimigo mais odeia é o toque.
É assim ou as manhãs escurecem,
já que as palavras em nossas cabeças
já descansam exaustas faz tempo.
O único que nos sobrou foi a pálpebra e o
pouco direito que vem de mãos dadas
que é esse de fechar os olhos e com as duas mãos carregar
o peso desastroso dos escuros.
As memórias se tornaram histórias.
Cada palavra perdeu seu frio na barriga.
Pagamos o futuro como as parcelas de um consórcio.
O peso do medo sentimos no pulso:
O relógio.

no livro “um minuto de barulho” (ed. patuá, 2020)

acerca dos platonismos


I. o primeiro menino
Estou escrevendo
sobre o seu peito nu de
incontáveis pelos que
lambi um por um


Mas que diabos pensar em poemas artefatos
tragédias gramáticas o dicionário aurélio
quando você tão perto.


Pele áspera, suor de inverno:


Fazer de você tarefa passada
sinal do universo ignorado em letreiro


Desejo do corpo alheio bem
atrás da orelha essa pontada
que eu não sinto a anos
exceto quando releio
os poemas que escrevi de madrugada
sobre o seu peito nu de incontáveis pelos.


II. a primeira menina
tenho a lembrança de você
como os cavalos lembram das colinas
os cachorros das praias
os cantores da volta
do exílio


você sabe a anatomia dos cadeados,
incorpora o busto dos deuses,
caminha sob a terra tornando arranha-céus maleáveis.

 

há um traço tragicômico em tudo isso
(uma lembrança do país em que vivemos)

 

há ainda a anatomia climática
preservada pelos seus dedos
semiáridos sob meus pelos

 

eu te adoro e a lembrança de você
é migalha
para o quanto de desejo
eu ponho na mortalha
dos teus cabelos

 

eu te adoro e eu vou dizer isso de novo.
eu te adoro e o presidente é nada ou
muito pouco.

 

adorar você
sob silêncio
sob espada
sob sufoco.

gastura


já faz 44 horas que
eu não durmo, ele diz e
nenhum pingo de sono qual
música que você escuta pra
ver o sol nascer, aquela lá que dá
vontade de chorar,
sim eu sei também gosto
dessa.


aqui a gente não tem
muito o que fazer é sempre
a mesma coisa eu sou fã de
música de sopro carnaval
janis joplin mas não
de rotina.


é difícil porque passei os últimos dois anos
usando droga e esqueci que
era poeta como eu vou
escrever sobre tudo que perdi
nos últimos dois anos você
come esquisito - ele disse faz
dois anos - morde o garfo dá
gastura vou comer
na sala
descobri que poema pode ser
vingança
desde então eu
esqueci o nome dele
e sempre trituro o metal
de qualquer talher
usando os dentes.
 

 

Regina Azevedo

Rio Grande do Norte - NE

Regina Azevedo é poeta. Nasceu em Natal em 2000. Publicou os livros de poemas Das vezes que morri em você (2013, Jovens Escribas), Por isso eu amo em azul intenso (2015, Jovens Escribas), Pirueta (2017, selo doburro), Vermelho fogo (2021, OffSet Editora) e Carcaça (2021, Munganga Edições), além de alguns fanzines.

latitude: -5,7987235 / longitude: -35,2078691

@_reginazvdo

Maria Regina Azevedo.png

Poemas

PITANGAS

 

olha

cansei de chorar

as pitangas

da tua ausência

o cão que abanava o rabo

virou gata no cio

que saudade tenho

do teu corpo

sobre o meu

coladosuado

cruzaria o continente

só pra ter o gostinho

de sentar de novo na tua cara

 

 

MARIA

 

meu nome é maria

terra vermelha
banho, prece
vela sempre acesa

 

o coração pesa
na hora de voltar
pra casa

mas ela me disse
pra pisar firme
 

ela sabe
que tudo passa
no balanço da maraca

 

e eu sou mesmo
muitas mulheres,
um país

 

cavernas curadas
com água e palavra

 

na veia
é mãe luiza, ceará mirim,
riacho da palha e potengi

 

sei o caminho
porque elas mostram a mim

 

 

RESISTE

 

gostava de se olhar
como se carregasse uma bomba
debaixo do braço gostava de se olhar
e imaginar a palavra sovaco sendo lida
na academia gostava de se olhar
como se seus olhos revelassem
o paradeiro de deus gostava
de se olhar como se pudesse falar
e ser ouvida além de ser olhada
gostava de se olhar e pensar
em uma coisa dentro de outra coisa
uma música dentro de um vidro ou
ele dentro dela vidrado
gostava de se olhar
como se fosse a linha de frente
gostava de se olhar

e imaginar que a palavra
era um superpoder gostava de se olhar
como se seu cabelo fosse
uma lamparina gostava de se olhar
e imaginar a terra
tomada de volta de assalto
gostava de se olhar
e se imaginar rocha,
pele, pólvora
piolho é um bicho que existe
mesmo que ninguém se importe
mesmo que ninguém acredite
gostava de se olhar e se imaginar
vulcão
melhor: mulher
bicho que aprende a andar
e a derrubar

COM LICENÇA, VANDAL

 

eu te amo e eu não vou falar
de novo eu te amo
e amo desde o caos, os pulos
desde os teus poros, teus polos
teus beijos-polga
as explosões
as coisas químicas
os mil minerais
que tu acha no meu rosto
a reencarnação de basquiat
e as dúvidas sobre deus
o calção preto, as camisas sujas
os pelos
as descobertas
as cobertas
do escuro
as coisas escondidas
em plena luz do dia
teus medos,
tua coragem de ser
teus jeitos de dizer
de novo
o teu barulho
teus gritos no pé douvido
as pinturas e as músicas
ainda na cabeça
os cochichos, os sustos
tua mão molhada
e o meu peito pronto
tua cabeça e o meu ombro
teu cabelo e meu cabelo
crescendo juntos
teu jeito de chegar
como quem finalmente chega
teu jeito de ir
como quem precisa voltar
eu te amo e eu não vou falar
de novo

 

---

minha mãe veio do interior

da minha vó

vovó veio do interior

do interior de Caicó

 

eu vim do interior

do interior

da minha vó

 

Stéphanie Moreira

Rio Grande do Norte - NE

Mulher preta e mãe, macumbeira, militante do movimento negro, capoeirista angoleira. Brotei do chão no agreste potiguar. Poeta, tenho insistido em não perder novamente  minha voz. Escura demais, arredia, digo verdades desafinadas, minha música não sei por onde anda, mesmo assim eu danço. Performer, meu corpo fala nas ruas, no mato,  nas encruzilhadas, sobre as proibições que pesam sobre os corpos de mulheres negras. Também antropóloga, trabalho sobre a criação de memórias por populações subalternizadas no Brasil.

latitude: -5,870161 / longitude: -35,215108

@acobraveia

Stéphanie Moreira.png

Poemas

Carta de alforria


eu tenho direito a chorar alto
em público
sem ser julgada por isso
sem ser olhada como um ser estranho
eu tenho direito a me emocionar
ao falar sobre o extermínio do meu povo
eu tenho direito a ser acolhida
por outra mulher
que entendeu
que chorar assim
é mais constrangedor para mim
do que para todos vocês
polidos
políticos
educados
ou rudes
eu tenho direito a me deitar no chão da senzala
depois de sair de um arquivo
que aprisiona minhas avós e meus avôs
em inventários
junto a cavalos, éguas e bois
e também a me levantar dali
quando estiver pronta para liberar minha dor
que chegou tardia
mesmo tendo sempre estado sentada em minha calçada
eu tenho direito a mandar rezar a missa
de sétimo dia
de 1 mês
de 1 ano
de 1500 até hoje
e sepultar o apartheid qe partiu meu pai
eu tenho direito a me alforriar
e posso chorar alto e em público
sem ser julgada por isso

 


Meu tronco grosso, meu tronco velho


Eu moro no meio da caatinga onde as vistas avistam de longe uma sombra encorpada
Sou uma árvore boleada com um buraco no meio
espalhada
panóptica de três cabeças feito um dragão
[ou feito um Tejo esquisito]
que viram seis pela quentura que sobe e anuvia o próprio mistério encravado no chão
debaixo das minhas saias
não crescem daninhas
minhas raízes são tão fortes que nem a terra as comporta
se retorcem como quem não cabe no subterrâneo passado dos meus
e dali bebem e comem e suportam
giram sobre si dançando na velocidade dos tempos
e quem no mundo quer pressa pensa até que elas estagnaram
o peso rombudo de meu corpo
requebra lascivo com as carícias do vento
dos bichos que me habitam e dos pássaros com quem vôo
comedora de terra e sol tenho mil bocas
uma na ponta de cada folha verde-crespa
que cantam e gritam e enlouquecem e invocam a água doce
e botam pra dormir
quem não olha bem só vê mesmo a loucura
não passo fome
eu pari o alimento e levo duas cobras dentro do meu peito
no buraco de meu meio
com quem danço quando aquelas pretas falam com os tambores
empresto sombra para o tempo ter paciência de passar
enquanto meu filho se deita no meu galho mais grosso
e repousa o tempo de sua brincadeira sagrada

fique viva


sim, a dor pegou na minha mão e me alfabetizou
a mulher pariu o homem
que partiu a mulher e pariu o silêncio
jogou no chão o melhor prato dela cheio de desejos
em um silêncio catedrático e profundo e tão cotidiano
que até parecia que não falava por gosto
no peito o desgosto abria a ferida que a matou
e enquanto ela morria me dizia
fique viva mulher
fique viva
essa dor pequena que te enforca
e fura teu ventre até fazê-lo vazar sem estar cheio
realmente te matará se não sair de dentro de você
levantou a camisa e mostrou o peito nu e irremediavelmente inflamado
e me disse
para tirar essa dor do meu peito
e viver

 


Viver ainda é perigoso

1 Mapa ao tesouro [para meu filho não perder sua criança]

Por detrás da casa que nasceu sua avó
Debaixo do cajazeiro de seu avô
Por baixo do seu galho preferido
Vai encontrar um pé de umbigo
Que brotou de você


2 Reverência

Exu joga a pedra ontem
Para acertar amanhã
Hoje estou sentada numa encruzilhada
Olhando para cima
Vendo a pedra passar


3 Útero


Depois que me perdi
Fui andar nas matas de minha mãe
Achei xananas jogadas feito bolas de ouro pelo chão
A casa onde ela nasceu ainda estava de pé
Porque então eu haveria de cair?


4 Abraço

Nos tempos de hoje
Sou lagarta de fogo
Ardo exuberante
Em retorcidos galhos
Mas é proibido abraçar

 

5 Sobreviventes

os frutos do norte estão nas árvores
pendurados pelo pescoço
colhemos rezas fogo e pedras
os frutos do sul
racham o chão que escorre vermelho
não dormimos com esse sangue coagulado em nós

 


A BOCA A PALAVRA E A LÍNGUA


estou livre pela minha boca
pela minha boa boca
e pela língua
morro pela palavra
e sua dor póstuma
pela vergonha de ser ouvida
e vista
como se tivesse pendurado minha pele num cabide ao lado
para poder dizer o que sinto
e depois não soubesse como vesti-la outra vez
ainda assim
sagrando vergonha e insegurança
a boca a palavra e a língua me libertam