Ana Mauê

Piauí - NE

Ana Mauê é viajante, poeta e sonhadora. Autora dos livros artesanais Peregrinando (2018) e Antes do Sol de Por (2020) . Organizadora do projeto Sarau das Minas Phb. Tem suas poesias voltadas à luta, existência e experiências.

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Poemas

Quisera eu

 

Quisera eu ser uma poesia

Que nasce eufórica nas mãos de um poeta de rua

Rasgando o guardanapo

Meros pedaços de uma noite anterior

Enfiados nos bolsos surrados

Encontrada três dias depois

 

Quisera eu ser um cajueiro

Plantado pelo mais bravo dos Tremembés

Na praia da Pedra do Sal

Talvez teria uma história bonita pra te contar

Enquanto o vento no meu rosto

Contasse segredos do mar

 

Quisera eu ser uma guariba

Nas matas de Presidente Figueiredo

Gritar as três da manhã

Viver em baixo de um arvoredo

Com meus pelos vermelhos

Correr dos humanos

Sem ambição, sem planos

Sem roupa, sem medo

 

Quisera eu ser uma varinha de um maestro

Com cara de louco

Guiar as flautas, as trombetas

Estremecer pouco a pouco

 

Quisera eu ser um canto rouco!

No disco de Angêla Rô-Ro

 

Talvez uma pena de gavião

No meio do cocar de um Apache

Na América do Norte

 

Talvez um patuá!

Com pena de sabiá

Para dar sorte

 

Quisera eu ser tempestade!

Dessas que invadem

Dessas que se formam no horizonte

Dessas que as pessoas se escondem

 

Só não quisera ser metade

Meio poeta, meio crente

Meio covarde..

Não!

Eu não morri três vezes

Pra renascer e ser metade!

 

Meu caro, me desculpe a sinceridade

Posso ser Tudo e não ser Nada

Mas, pelo amor da Deusa,

Só não quisera ser metade!

Dona Socorro

 

Quando vi no canto da esquina escrito

“respeito”

O banho de arruda desfez o nó que eu levava no peito

Aqueles olhos tão cansados estavam molhados

Eram enxugados pelas mãos amassadas

Cansadas da rede

Se esforçava para caminhar segurando na parede

As plantas no jardim morrendo de sede

Mil passos não se mede a dor que se sente

Nesse mundo incerto

Uma simples prece

Se torna um presente.

 

Além dos Mares

 

Lá vem os homens!

Atravessando os mares

Nos impondo uma cultura de consumo

E individualismo

Nos obrigando a falidos mecanismos

 

Antes mesmo de nascermos

E assim, quando crescemos

Seremos peças de uma engrenagem

Uma enorme máquina que a poucos servem

 

Sentados em um trono

Que a populaçao carrega nos ombros

Com sangue e suor

 

E nos ditam como ser

Pensar

E até nos vestir

 

Como posso eu me sentir?

Vendo a Amazônia a venda

E toda essa renda

Pros políticos ursufruir

 

E a senhora na fila do SUS sem conseguir sorrir

 

Karoline de Carvalho

Piauí - NE

Da necessidade  de bordar a vida com a escrita, nasce a artesã das palavras. Desde então, poemas, contos e crônicas formam o seu artesanato literário. Na tecitura dos dias é educadora social como uma convocação da vida.

latitude: -2,9047304 / longitude: -41,7771548

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Poemas

Poesia

Na dor que molda o ser

Trazendo maturidade para viver

No defeito que persiste

Mostrando que a imperfeição existe

Em cada detalhe a poesia da evolução humana

 

Naquele lugar em que o amor nasceu

No momento em que o inesperado aconteceu

Na música que despertou a lembrança

No filme que faz ressurgir a esperança

É a poesia da arte em toda parte

 

No sofrimento que custou passar

Na ferida que demorou para cicatrizar

No luto que doeu

Na crença que morreu

Poesia do coração que sofre

 

Na amizade que o tempo não apagou

Na família que o conflito não separou

No casal que mesmo na crise continuou

No fiel que mesmo sofrendo ficou

Laços da vida que pulsam poesia

 

No silêncio que trouxe entendimento

No diálogo que proporcionou livramento

Na palavra que ajudou

Na pessoa que amou

A cada traço da vida há poesia

 

 

Coração de adulto

Aperta, Machuca, Fere

Pobre coração de adulto

Desencanta, Perde o brilho, Endurece

Triste coração de adulto

 

Abre-se para o novo, Perdoa e Ama

Nobre coração de adulto

Sente saudade, Recorda o bom da vida, Renova-se

Alegre coração de adulto

 

Agride, Sente ódio, mágoa e rancor

Difícil coração de adulto

Abençoa, Ora, Confia, Espera e Crê

Iluminado coração de adulto

 

Um dia deixa de bater

Passageiro coração de adulto

Deixa saudades e amor nos corações dos que ficaram

Inesquecível coração de adulto

 

 

Espiritualidade

 

Em um canto da memória

No decorrer da sua história

Um impulso divino o abraçou

A palavra amiga chegou

 

Para aliviar o cansaço

Trazer aconchego como um abraço

A prece sempre alcança

A situação mais dolorida da sua lembrança

 

Para viver a espiritualidade

Não é necessário ter determinada idade

Basta um coração aberto

E a certeza de que Deus está sempre por perto

 

A oração é a busca da alma pelo divino

A melodia que toca o coração como um hino

Uma proteção contra o perigo

Armadura que vence o inimigo

 

A intuição que revela

O pensamento que ilumina como uma vela

Tudo é sinal da espiritualidade

O toque divino na humanidade

  

Se você ainda não sente

O apelo divino em sua mente

Abra o seu coração

Para descobrir o poder da oração

Silêncio

 

Quando o mundo tanto fala

E ninguém cala

Há balbúrdia de pensamento

Sem qualquer entendimento

 

É tempo de tanto barulho

Exposição de opiniões com orgulho

As pessoas quase nunca meditam

E em tão pouco acreditam

 

O celular o tempo inteiro na mão

E tão pouca habilidade para abrir o coração

A rede social repleta de fotografia

E a alma quase sempre vazia

 

Tanta crítica direcionada para o outro

Sem observar dentro de si com esforço

A imagem é tão valorizada

E a profundidade do sentimento tão depreciada

 

Calar para não machucar

Silenciar para não errar

O silêncio traz resposta

E a realidade mostra

 

Menino Pipa

O céu queima a pele do menino

A rua deserta o expõe ao perigo

Suas pernas pesam por tanto caminhar

Nenhum adulto aparece para ajudar

O grande mundo é o seu único amigo

Enfado, Cansaço, Maltrato

 

A pipa pelo céu passeava

Enquanto o menino trabalhava

Sua família encarava a labuta como algo normal

Em seu parentesco o trabalho infantil era natural

Desinformação, Repetição, Peregrinação

 

O sonho do menino era ter tempo para brincar

Olhava o céu e via a pipa passear

As feridas nas mãos custavam sarar

O cansaço nas pernas demorava passar

Sofrimento, Desalento, Tormento

  

O tempo passou e o menino pipa cresceu

Com a vida adulta o sonho de soltar pipa floresceu

Quis que com seu filho fosse diferente

E o trabalho infantil expulsou da sua mente

Pai e filho agora soltam pipa

Mudança, Esperança, Confiança 

 

Casa de vó 

Bolo quente com café

Acompanhado de uma atmosfera cheia de fé

Conversa gostosa com demora

Brincadeira a qualquer hora

 

Aconchego na hora de dormir

Dor na barriga de tanto rir

Confusão de criança

Lugar cheio de esperança

 

Teto com ar sagrado

Roupa de cama com cheiro delicado

Comida preparada com amor

Ferida tratada sem dor

 

Lembrança cheia de saudade

Tempo para os netos de tão pouca idade

Roda de conversa na noite de luar

Passeio demorado sem pressa para chegar

  

Memória boa no coração do neto

Aconchego que proporciona um coração reto

Saudade de um tempo que não volta mais

Recordação alegre que traz paz

 

Laís Romero

Piauí - NE

Laís Romero nasceu em Teresina, em 1986. Publicou poemas em periódicos e blogs, contos em coletâneas e revistas, mas nunca lançou um livro solo. Participou do coletivo Academia Onírica, entre os anos de 2010 e 2012, com publicações da revista AO e gravação do disco de poemas Veículo q.s.p. É graduada em Letras, com mestrado em Literatura pela Universidade Estadual do Piauí. É a mãe do Luís e do Júlio.

latitude: -2,9018236 / longitude: -41,4601724

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Poemas

Não procuremos a verdade

nós soterrados nas palavras

 

Ensolarados encaremos, nus,

os resultados da nossa apatia

 

Vastos pálidos campos rasos

de sentido e de sabor

 

Títulos nos assombrem fugidios

em ricos tipos e tipologias da fé

 

O ventre parideiro persiste

enterrando sua hóspede inanimada

 

é chegada, enfim, a hora marcada

para o dado fato exato

                              juízo animal

---

Minha poesia tacanha se arrisca:

vai sozinha às ruas

metafísica de garagem

feito irresponsável de mulher.

 

Uma poesia tímida e vadia

que se arrisca.

 

Há fogo e valsa nestas linhas.

---

Temos as mãos ainda entrelaçadas

no meio do apagão atrasado

uma linha de pessoas nuas

treme as estruturas antes perenes

um punhado de palavras domina o inerme:

- Venha, que o medo cede e não nos segue.

---

 

medonho bloco pesado grafite

sustentado por árvores e prédios

um outrora chamado firmamento

carregado por toda sorte de criaturas

habitado pelo princípio, construído pelo fim

grande angular coroada de passado

     medonho bloco pesado

 

--- 

 

[Poemas são fraquezas em tempos de leituras feitas com os olhos vendados]

 

Com os olhos embotados

não é possível desenhar o céu

fica como estava, borrão calado,

de uma tentativa/fracasso

 

Com as mãos amarradas

não se acena no salão vazio

a cabeça continua baixa

e o suor amarga meu perfil

 

[coro]

 

Benditos os paladinos da esperança

vestidos por discursos verdejantes

coroados nas intempéries absolutas

de uma aurora desmontada

                                             pelo vento.

 

 

Temporário

Revisito o templo vazio

E sonho comigo criança:

bacias de alumínio

laranjas

o chuveiro atroz

num quintal cinzento

assobios para chamar o vento

lembro

em tom saboroso e sombrio.

 

Sabrinna Mourão

Piauí - NE

Sabrinna Alento Mourão é editora da Micélio e escritora. Como escritora publicou dois livros de contos e um de poemas, respectivamente: In Vivo (Livrinho de papel finíssimo, 2017), O estágio mais rudimentar do fim (Castanha mecânica, 2020), e Ponto crítico da noite (Editora Micélio, 2020). Colaborou com revistas como Acrobata e Mallarmargens.

latitude: -2,8034617 / longitude: -41,7293321

@sabrinna_sm

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Poemas

Em Creta a minotaura descansa ao sol

sábado e domingo é dispensada do palácio de Cnossos

vai à praia de nudismo com sua namorada

e arreganha sua buceta sumarenta

pensa em se mudar dali

as coisas estão difíceis e essa geografia não ajuda

talvez fosse melhor parar de matar pessoas no labirinto

talvez pudesse recomeçar em uma ilha pacata

fazer uns vasos ou uns utensílios de ferro

quem sabe poemas e com certeza

com muita certeza

fazer amor ouvindo o mar quebrando na praia.

 

--- 

 

aqui nada demais acontece

vez ou outra um similar

para a briga ou para o coito

 

mas realmente nada acontece

o que cai na rede quase nunca é peixe

mas plâncton ou um cadáver sob pressão

 

permaneço em silêncio

para não acordar o fundo do mar

e para o mar não me acordar

 

e quando alguém vê a luz no fim do túnel

é o começo do túnel

que dá na minha boca.

 

---

 

antes de sofrer de ansiedade

me reconheci ateia

e num momento entremomento 

acreditei que todos os poemas metalinguísticos

já tinham se esgotado

no instante em que a primeira pessoa escreveu

a primeira letra com sangue em rochas

mas ontem sonhei que uma poeta

morria em meus braços e

se encolhia até ficar do tamanho de um gato

e eu depositava aquele pequeno corpo 

sem vida em uma caixa de sapatos

todos se juntavam e faziam um show 

com gaitas violões oboés bumbos e banjos

a caixa era incendiada no rio e as cinzas voavam

 

pensei em contar pra poeta e contei pra minha psicóloga

que disse pra eu contar pra poeta

que disse pra escrever um poema

 

metalinguístico

---

 

a cidade é aquela casa onde alguém

pisa com os pés sujos

no chão em que a gente acabou de passar o pano:

você pode ser o pedreiro que bota o cimento na calçada

ou você pode ser o gato que passa sobre a obra sem se importar:

às vezes você é os dois.

 

---

 

mesmo a menor das cidades 

possui uma periferia:

de lá os marginais olham para o centro:

a bicha pão com ovo olha para o playboy gigolô

a funcionária olha para a patroa infeliz no único relacionamento que teve na vida

o pedreiro olha para o prédio onde nem ele nem o corretor morarão

o vendedor de churros olha para um quiosque no shopping 

 

mesmo na menor das cidades

há quem sonhe em ser igual

àquele que mata seu sonho

 

---

 

toda cidade possui

um ponto tão maciço

que deforma o espaço-tempo

 

no centro desse vórtice

quatro velhos jogam dominó

 

---

 

tudo sempre seguirá seu curso natural:

as cerejas serão colhidas e se reduzirão aos grãos torrados

que descerão 1300 metros desde a fazenda até meu moinho na beira-mar

numa quarta-feira nublada na Pedra do Sal

tomo o último gole enquanto traduzo do russo

o último gole enquanto você traduz o mundo

sorrimos em silêncio e uma onda quebra distante

logo será noite e as naves iluminarão nosso caminho

 

Tarciana Ribeiro

Piauí - NE

Tarciana Ribeiro é poeta, taróloga, mulher e mãe. É idealizadora do projeto Lambe de Longe. Foi publicada na antologia POESIS 2019 (ed Vivara) e na Antologia Líquida, organizada por Allison Carvalho. Seus  projetos envolvem saraus e a confecção de seus próprios zines.

latitude: -5,090699 / longitude: -42,813643

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Poemas

Cazuzada


E tão pouco queres saber?


obrigada
pelos dias de outono e pelos
dias de inferno


obrigada
pelo soco no estômago
e pelo cuspe no peito
muito obrigada, não nego


obrigada pelas doses corrosivas
e por ecoar back to bad
às duas da manhã de uma quinta-feira
humilhada e radiante na avenida


por bater o dedo na quina
e chorar igual criança
por sentar-me na esquina e transloucada gritar
muito obrigada


pelas cartas de mentira
e pela perda de tempo
pela consideração jogada no vento
muito obrigada


pelo vício maldito
pela tristeza entalada
pela garganta em soluço, pelo corpo ferido
muito obrigada


pelos copos divididos
pelos cigarros engolidos
pela saliva espalhada
muito obrigada


por ter me largado
igual cachorro abandonado
atropelada, chumbada
meu muito obrigada


por ter me deixado versos fatais
inconformados, mas originais
pelas noites in dope
muito obrigada


pelo vazio
pela mão solta
pela tormenta do abismo
obrigada demais


por me ensinar que a felicidade cessa
que a pele humana interessa
mais que olho irmão do cuidado
obrigada por rasgar com a boca todos os laços


espalhar as gotas do meu coração nos umbigos
e peitos
e bundas
entre gemidos


pelo riso distante
hoje muito mais inconstante
tal qual a efervescência
que acompanha a ti e aos teus íntimos navegantes .


pelos fantasmas
pelas camaradas
pela parede amassada
pelo olhar trocado na avenida sulista
muito obrigada


obrigada por foder muito com tudo
por desalinhar o prumo e ficar em cima do muro
nas interrogações surgem as criações
e, por isso, muito obrigada


melhorei a escrita
aprendi a flertar
sou teu orgulho de riso alto
sirvo muito mais pra amar


obrigada
por ter se mandado
agora escuto a mim muito mais


tens razão
nunca foste sublime
excitado pelo efêmero
você é perdido demais


obrigada por escancarar os portões
me fazer enxergar
que essa trama toda deu um livro
a editora quer lançar


obrigada por ter me ensinado
a jamais oferecer a outra face
pois o cruel é o velho mundo
por que não tripudiar?


obrigada por ter me largado
sem eira nem beira
nenhum cuidado
e ter cogitado nunca mais voltar.

DEVANEIO DE OLGA: O outro lado do olho.


Aparadas as arestas e findados foram os questionamentos. Silêncio na multidão. Grito pra dentro e entre os muros deslizam as pernas. Queimo pouco, ardo muito. Bruta. Toque na cervical. Flor. O homem inquieto amansa na madrugada e fixa o olho do lado de dentro: na nuca. E some, some como os bichos. Homem bicho. Bicho homem. A estrada silenciosa e o viajante, taciturno. Nada mais? Silêncio no alçapão. Tão longe as miragens estão que o tempo carrega agora outro significado, não o de calendário, o quântico. Um átomo e outro. Quando a fricção da pele faz a fricção dos cílios. Tua arquitetura era barroca, meu corpo era barroco. Dark. Dark e inteligível. Memória é conhecer. Inteligível. Bom adjetivo. Dou-me bem com os adjetivos. Tenho tempo para o que absorver e muito mais gosto do outro lado do olho. Aberto, sempre aberto. Escuro, quase sempre escuro. Meu corpo se adapta ao espaço a ser penetrado. Tua retina é densa e morna. Teu olho é de quem morde pra tocar a alma. E toca. Me olhando assim de lado, teu olho alerta meu psicoestado. Silêncio na comunicação. Dedo fala. Falam a língua dos dedos. Silenciosos. A boca é nada quando quer ser cautelosa. A boca é subordinada. Dedo e olho, as duas verdades. ying yang nu e cru. Para onde vão as coisas não vividas? Então as coisas não ditas... todas elas, têm uma gaveta de coisas escritas? Começo a compreender que falo. E posso falar. Ou pela boca ou pelos dedos. Sei bem o som das cavalarias partindo às quatro da tarde. Falo com o olho também. Galopar liberta e cansa. Afasto-me da foice em contentamento. Confesso não querer achar a fonte de nada, não me cabe mais a vaidade dos homens, é através do delírio alheio que eu alucino. O meu silêncio inexiste do lado de dentro do olho.

 


DEVANEIO DE OLGA: O LAPSO

 

Tempo é lâmina. Sono é afago. Acordar no meio da tarde e lembrar que na ponta do teu nariz existia um cachorro e uma samambaia me traz o gosto amargo da inexistência. Não da inexistência de nunca ter existido, mas da inexistência de ter se desmanchado. Então, nos dois pontos que interligam as tuas sobrancelhas, também habitavam girassóis janelares e vapor no basculante do banheiro. As ruas estão lotadas. Transbordando. Se lembro de ti quando passo o portão tenha certeza: Um corpo inteiro sem voz me acompanha nas avenidas. Teu corpo longe é três vezes maior que o teu corpo perto. Me esmaga num grau indecodificável. Tua voz longe é ensurdecedora. A bolsa dos teus olhos é quente. E de longe também. Teus olhos longe são inimaginavelmente maiores, e me despedaçam, porque estão fechados. Semicerrados não. Completamente fechados. Voz não some mesmo. Ecoam todos os sábados de manhã os teus passos te aproximando do portão. Memória trai. Botas. E por falar em lâmina, tomo vinte gotas a mais todo dia vinte e um de abril. De vez em quando encontro contigo na esquina, invisível e pego teu rosto no ar. Teu rosto impegável, teu rosto longe, e te pergunto: A minha ressaca de ti vai durar mesmo essa vida inteira? Quando a lua míngua, tenho a impressão de que tudo vai se quebrar, então cuido bem do esôfago. As coisas de dentro vibram de medo. Tenho menos medo da morte. Soluço. Ainda por cima, além dos móveis arranhados e a camisa no cabide, levas também as minhas referências? Sempre te tive por bicho manso, mas nunca te achei bicho ingênuo. Os meses passam enquanto eu costuro a minha própria mortalha. E isso pode soar um tanto quanto febril e denso. São assim os calabouços. A minha distração é cuidar da carne viva que todo dia sangra. Todo dia sangra. Todo dia sangra. Todo dia. Ademais, descobri: esse é um sentimento tão velho quanto o mundo e que eu não fui a primeira nem a última a cair no abismo das coisas que nunca acontecem. Gargalho muito. O plano era meu. A ideia tua. Tua curiosidade é má. Quem faz vencer a banalidade ao invés das coisas eternas e afáveis? Toca Arrepiado quando entro no carro sem imaginar que vou aprender: tempo é lâmina.

 


DEVANEIO DE OLGA: REFRAÇÃO.

 

Ouço ruídos infinitos vindo em direção à Terra. Quase apaguei este verso. Vertigens. Pigs. Meteoros cármicos encontrados debaixo dos escombros. Não ouço uma só voz. Ouço um sax, um piano e um violino. Não, não ouço uma voz sequer. A humanidade se enche de graça na sua individualidade canibal. Agora tudo é sereno e lembro que ainda tenho o céu. Eu ainda apoio o pé esquerdo na parede enquanto escrevo. Eu ainda me disponho a, energeticamente, me abrir com aqueles que permaneceram. Me sinto macia e coloquei letrinhas num cronograma na parede azul. Desejo uma onomatopeia que glorifique a dádiva de não enlouquecer no fim do dia. Compro fácil na farmácia. Sobrevivente de verdade vem com a receita na testa, como tatuagem. Não faço risquinhos nas paredes contando os dias, conto cada gota, gota a gota derramada numa orquestra sinfônica composta pelo silêncio dos invisíveis. Você sabe de quem eu falo. Vem cá, me dá a mão. Somos todos. Eu juro que busquei mil respostas, eu ainda as busco. Muitas vezes eu olho a lua e atravesso até o seu outro lado cavalgando num arco colorido. Sou espírito que habita dedos e os dedos são perigosos. Tocam. Tocam teclados e estraçalham um com palavras. Preciso fazer um combinado coletivo e estou vendo quatro paredes vazias. A sorte é que suas cores não me causam vertigem. Aceito brincar de sobreviver. Cada dia a mais é um a menos pra quem vê de cima. Eu rastejo entre os salões e as calçadas querendo areia, água, rede e varanda. Me deram a escolha de morrer pelos dedos, mas ainda não tiraram todas as vidas de dentro de mim. Nenhum absurdo sentimento de impotência me invade. Reconheço o império e a nobreza das sinfonias de dentro. Meus olhos estão direcionados aos espelhos não visitados. Sinto-me em confortável por ter um domínio linguístico que me expande. Mas o que falo é o que falo e ponto. A matéria-prima da poesia é o caos. Não sei se fico feliz em me demorar a escrever ou se ignoro tal fato e me acomodo em minha própria mobília, recebendo de vez o que se demora em mim e escorre por entre os dedos, mas continuará sempre do outro lado da lua. Um letreiro luminoso: Mente sob...

 

Thaís Fontenele

Piauí - NE

Thaís Fontenele nasceu em 2001, em Parnaíba, no Piauí. O seu primeiro poema foi publicado pelo jornal Piaguí, um veículo informativo cultural da cidade de Parnaíba.

latitude: -2,9191221 / longitude: -41,7597862

@thaisftnl

Poemas

Mês oito  

onde nasci  

quando nasci  

agosto em desdobramentos atípicos

quantos chinelos me trouxeram até aqui?  

quantas solas ainda terão que aguentar meu calor em atrito com a terra? 

 

das coisas que fui atenta  

 

nesse impasse de ser  

 

nas redes que me balançaram  

 

nessas ondas que me perpassaram

barro que moldei a vida  

finquei camadas abstratas  

rabisquei papéis  

neste pertencimento  

nasci 

poeta do mundo 

todo delírio de verbo  

vem de lugares inexploráveis 

como uma poeira que surge e não se sabe como.

 

Selva de pedras 

mostre-me como se despem as árvores 

presas na gaiola da vida, 

politize tanto minha língua 

que eu seja capaz de colocar-te  

aos lírios das pedras, 

as flores da selva.  

---

Saí do buraco da origem do mundo, 

dolorido, uterino, por isso e por muito

pouco, sou rasgo sem possibilidade de

cicatrização.

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Levar-te 

Desejo que se engasgue 

comigo 

dentro da tua boca 

Engula minha carne 

como quem bebe todo o ouro 

Na tua língua 

A política 

O vinho 

Todo o meu corpo 

A intimidade é do tamanho dos teus seios 

A filosofia da paixão cabe num escarro 

Os encontros nas distrações 

A água que mata a sede 

Parte da linguagem

 

Os dias 

A terra 

A luz da janela 

Tuas costas nuas 

Todos os ventres. 

---

 

Nossa mania boba de sempre esquecer 

Que as raízes se fixam lentamente.

 

Vanessa Trajano

Piauí - NE

Vanessa Trajano (1992) é teresinense radicada em Brasília-DF. Além de escritora, é roteirista e professora de Língua Portuguesa com mestrado em Estudos Literários pela Universidade Federal do Piauí. Publicou ao total 15 livros, entre participações em antologias e obras individuais.

latitude: -5,0912447 / longitude: -42,8133934

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Poemas

Puteiro

 

No puteiro de D. Eudóxia

 

É sempre meia-noite

 

Oportuna transição

 

Entre os que nasceram tarde

 

E morreram ontem,

 

Sobretudo anteontem

 

 

Lá reside a mulher fatal

 

Vermelho nos pés

 

Vermelho no corpo

 

Vermelho na alma

 

Alma propositalmente fatalista

 

Na mão um cigarro

 

Na outra, a bebida;

 

A boca vermelha, ferida,

 

 

Sugere o poema e o giz:

 

Se te entrego minhas forças

 

Sou louca, não trouxa

 

Melhor ser infeliz

 

Vestir verdade

 

Sem roupa

 

 

Mas os dentes,

 

Afiados na infantaria,

 

Avisam: cuidado com o sorriso

 

Que ambientou desgraças

 

Dele não se morre

 

Por ele se mata.

 

 

Mulher em partes

 

Eu não sou inteira

 

Sou feita de partes

 

Não todas juntas

 

Nem apartadas

 

Apenas somadas

 

Uma a uma.

 

 

Há partes minhas

 

Por aí soltas

 

E, quando eu as encontrar,

 

Perderei outras.

 

 

Partes, quantas partes?

 

Fazei de mim tudo

 

O que cada parte queira

 

Qualquer coisa

 

Menos inteira.

 

  

Desafeto

  

É mais doloroso ficar.

 

“não vá agora”, disse ele.

 

No entanto, meus pés

 

Já estão fora de mim

 

Longe, a 60 minutos,

 

Numa casa de praia

 

O mar beijando os ouvidos

 

A roupa esvoaçando na janela

 

Quero morte sem pressa

 

Todo amor acontecendo

 

Às três horas da tarde.

 

É mais doloroso ficar.

 

Então me estraçalhei

 

Nessa fome letal

 

Que tu já conheces

 

Mas que de maneira

 

Alguma te afeta

 

Todo amor só é vivo

 

Se recomeça.

---

 

[De todas as palavras...]

 

De todas as palavras,

 

A que mais me envergonho

 

É a palavra amor

 

Nunca aprendi a proferir: “Eu te amo”;

 

Gostaria, no entanto,

 

Que entre mim e o verbo

 

Nada existisse de oblíquo

 

Só assim poderíamos,

 

Quem sabe, amar

 

Sem aquelas tolas advertências

 

Da carne da qual somos feitos.

Procura-se um amante 

 

Procura-se um amante

 

Que compreenda a língua das paixões;

 

Que entenda a arte de amar

 

E não desaponte sua amada

 

Com subterfúgios frágeis;

 

Que não saiba a hora de partir

 

E fique quantas horas a mais

 

Pedir o corpo;

 

Que se enfureça com a despedida

 

E não respeite as normas;

 

Que seja bom contador de mentiras

 

Para fugir da vida e mergulhar no sonho;

 

Que sofra com a ausência,

 

Mas que faça do reencontro a infinitude;

 

Que sirva sua mulher sem cansar,

 

E sempre tenha tempo para uma causa impossível.

 

Procura-se um amante que dê a dor que uma amante merece

 

Quantas dores forem necessárias para um prazer sem fim.

 

Procura-se um amante que só saiba amar

 

Mas sem saber o que é amor

 

  

Paixão de bar

  

Eu vi um homem careca na outra mesa. Não se espante com o nome ‘careca’, ele não era velho e, mesmo se o fosse, não teria problema – eu o amaria do mesmo jeito. Foi a paixão mais rápida da minha vida. Ela durou cerca de alguns milésimos de segundos, no cruzeiro de um olhar, durante a ventura do encontro súbito e espontâneo das nossas almas, por meio de olhares assim meio curiosos, assim meio turvos, assim meio inquisidores. Eu bem que gostaria de conhecer a existência através e dentro do cristalino daqueles olhos, tão soturnos e paralisantes! Se alguma coisa me ficou daqueles olhos, acho que foi um certo grande Amor, daqueles devastadores, que tatuam a gente, aquém da nossa percepção. E foi exatamente isso que me atingiu bem no peito: um todo amor que chegou até a mim enquanto fatia de eternidade, fixo no gritante intervalo de um segundo.

 

Nesse meio tempo, imagino que cavalgamos pelos vales do oeste, entendemos a limitação da intimidade, caprichamos naquilo que não se faz por capricho. Nós nos amamos, breve e braviamente, mas nos amamos. Ou não? O que não seria o amor senão isso? Adorar cada oportunidade de amar, de enxergar o outro, mesmo e tão somente que seja num único e intransponível olhar?