Adelaide Ivánova

Pernambuco - NE

Adelaide Ivánova é poeta e organizadora comunitária pernambucana. Edita o zine de poesia MAIS NORDESTE, POR FAVOR!. Em 2018 ganhou o Prêmio Rio de Literatura por seu quinto livro, o martelo, publicado no Brasil, Portugal, EUA, Reino Unido, Alemanha, Argentina e Grécia. É militante do movimento por moradia e direito à cidade DW. Enteignen, em Berlim, onde mora desde 2011 e onde tentava ganhar seu pão trabalhando como babá, garçonete, segurança, vendedora, atendente de salão de beleza etc.

@adelaide_ivanova

Adelaide Ivánova_foto por Lukas Lademann

Poemas

a visita

 

“and every bed has been condemned,

not by morality or law,

but by time”
Anne Sexton
 

 

quais as traças
aranhas piolhos
e outras bestas
infestam habitam
o colchão de visitas
que Humboldt não foi buscar
fingindo esquecimento
depois foi tarde demais
e estávamos apaixonados
demais para buscar
o colchão de visitas
na água-furtada
então ficou por isso mesmo

quais as traças
aranhas piolhos
e outras bestas
em outro colchão
maldito testemunharam
outro colchão
outra visita
o arranque
o violento
o sangue
bom sangue não houve
houve a chegada
e depois silêncio

por areia teia pó
musgo mofo aranha
eu pulei para outra
cama outras bestas
antes já haviam me
habitado formigas
ácaros piscianos
percevejos só as
traças e Humboldt
não me comeram

anos antes a desdita
embora areia teia pó
musgo mofo aranha
não pude nunca mais
sair daquela cama
há bestas menos confiáveis
que traças há hienas
potós peixes serpentes
se há dois no colchão
de uma visita sempre
haverá 1 que não é
inocente.

a banana

 

no porão tinha
uma mala dentro dela
josefine
que aí se escondia com
a ajuda da mãe para
que não fosse estuprada
afinal só se estupra alguém
que se acha o destino da
mãe não se sabe mas
josefine
está bem obrigada aos 11 anos
comeu banana pela
primeira vez oferecimento do
oficial francês que também
dava abortos às alemãs
que não tinham martelos

ou malas.

 

para laura
 

em 1998 quando encontraram

o corpo gay de matthew shepard

sua cara tinha sangue por todo lado

menos duas listras

perpendiculares
que era por onde suas lágrimas

haviam escorrido

naquele dia o ciclista

que o encontrou não

ligou logo que o viu pra polícia

porque o corpo de matthew

estava tão deformado

que o ciclista achou ter visto
um espantalho

 

sábado passado em são paulo
um grupo de homens

e dois PMs mataram laura

não sem antes
torturá-la laura

foi vista ainda viva

por outro sujeito
que gravou

e postou no youtube o vídeo
de uma laura desorientada

e quem não estaria

com sangue jorrando da boca e da parte

de trás do vestido?

 

laura tem um corpo

e um nome que lhe pertencem

laura de vermont (presente!)

foi assassinada
por homens
pelo estado

e pela nossa indiferença

aos 18 anos

num sábado.

 

Ágnes Souza

Pernambuco - NE

Ágnes Souza é poeta, pesquisadora e professora. Tem dois livros de poemas publicados: re-cordis (2016) e Pouso (2020), pela Editora Moinhos; e poemas publicados em diversas coletâneas no Brasil. Também publicou no zine Como gozar antes do pôr do sol (2021); e em Portugal, A Bacana, Poemas reunidos I (2018); além de poemas soltos na Ruído Manifesto (2018), na Aboio Revista (2020) e na felisberta zine (2020).
 

latitude: -8,0641606 / longitude: -34,8798635

@agsouzza

Agnes Souza_Foto por Beatriz Aguiar.png

Poemas

Cadela de três patas

uma cadela de três patas e um ímã
me acertam num mesmo ponto
pois assim como uma cadela de três patas
não é apenas uma cadela de três patas
um ímã nunca é somente um ímã
sobretudo porque uma cadela de três patas
habita há semanas minha memória recente
penso em associações práticas com a morte
em analogias com o desequilíbrio
com qualquer diálogo com ausência
mas uma cadela de três patas
me diz mais sobre equilíbrio e presença
do que qualquer outra coisa

 

durmo acordo tomo meu leite fermentado
pensando em seu pelo clássico cor de caramelo
seu sorriso disponível de vira-lata
seu rabo a cortar o vento
e que um ímã pode ser apenas um ímã
mas uma cadela de três patas
de modo algum é
somente uma cadela de três patas.

 

 

Cama é uma fortuna, compre um abajur

 

a primeira coisa que fazia quando chegava em casa
depois de tirar os sapatos e checar
se a casa não havia se incendiado na sua ausência
era depositar sua cabeça na prateleira do meio
de uma cristaleira que havia ganho da mãe
esse era o movimento que mais ansiava durante o dia
e pensava: - que luxo viver sem cabeça
no banho se sentia uma grande atriz
ensaiando o discurso inspirador que daria
ao receber um prêmio pela vida&obra
tomava longos banhos de cuia do pescoço para baixo
como se estivesse numa cachoeira com água morna
vestia seu pijama
(uma blusa larga que alguém esqueceu no sofá
e ela não se preocupou em saber a quem pertencia
se estava na sua sala era da sua sala)
sentava-se torta na rede para checar a caixa de entrada
do seu e-mail lotada de propagandas
então abria aleatoriamente promoções de máquinas depiladoras
e camas box de casal
manuseava o teclado como se tivesse tocando uma
peça dificílima para piano
pensava em adotar um cachorro
para ter o prazer de se imaginar numa passarela
curvando-se com elegância para apanhar cocô
esquecia-se de jantar de lavar os pratos do café da manhã
de retirar e jogar o lixo de ligar para pedir água
de comprar frutas de encher as cumbucas de gelo
de estender as roupas de ferver o coletor menstrual


dirigia-se até à cristaleira para recuperar sua cabeça
e enquanto ajustava seu encaixe
cambaleava no escuro em direção à cama
para poder enfim
pensar na morte e inaugurar seu abajur.
 

você e eu dançando ciranda sem nenhum ensaio prévio


de mãos dadas com estranhos sorrindo entre si
eles erram os pés acertam os pés
para não saírem do ritmo
você sorri inclinando a cabeça para trás
errando os pés como todos os outros
todos nós erramos os pés
eu penso
mas só você esfrega os olhos depois de sorrir
a música parece interminável
é a mesma que toca em todas as festas de rua
eu tocaria ela numa festa para você
é bonito um monte de estranhos brincando
juntos em círculos
você aperta a minha mão quando perco o ritmo
na tentativa de me recuperar
eu sorrio inclinando a cabeça para frente
te olho de banda
e você está apertando a mão de um estranho
estamos todos tentando nos recuperar
a música acaba
você me beija e antes de ir pegar água me conta um segredo
que não gosta de ciranda
mas que é impossível negar algo em que todos dançam sor-
indo
o que me põe em dúvida se retiro ou não a ciranda
da festa que um dia eu darei para você.

segunda de carnaval

beijar você no meio da rua
no meio da troça amarela e roxa
o zíper da sua pochete
enganchando na minha meia arrastão
meus amigos gritando “andou, andou,
andou”
sinto gosto de batom cerveja e sucesso
enquanto a orquestra toca que
a gente acende
aperta
acocha
beija a nega a noite inteira.

 

 

I

deveríamos aprender mais
com o comportamento do lodo
observar de perto
como ele busca
pacientemente
a umidade
não há precipitação
todas as etapas são respeitadas
uma a uma
pois ele sabe - mais do que nós -
que tudo depois do sim
depende
unicamente
da umidade.

 

Anaíra Mahin

Pernambuco - NE

Anaíra Mahin se atreve na literatura, música, artes cênicas e visuais. Pernambucana nascida em Recife mas com raízes no Sertão do Pajeú, viveu parte importante da infância e adolescência em uma antiga usina de beneficiamento de algodão na cidade de São José do Egito. Hoje reside em Vitória de Santo Antão, na mata Sul Pernambucana.

 

latitude: -7,4773976 / longitude: -37,2738108

@anairamahin

Anaíra Mahin.png

Poemas

Toda asma

 

Sim, que tenha leveza.

Que amor ao contrário do que dizem

não precisa ter sofrimento

Que o vento encaminhe

Que amor que é amor, não fecha a janela.

Sim que deixe em paz

Que amor, pra que viva, não sufoca

Há de respirar mais e mais...

Sim, também, que compreenda

Que amor que é amor compreende

Todos os pesares

Todos os sofreres
todos os clichês

Todas as clausuras

Todas as agonias

As inquietações

Todos os suicídios

Toda a asma

Que amor, pra que viva, não sufoca

Há de respirar mais e mais...

 

 

Só sei que existe

 

Passarinho, morcego,

Peixe voador...

Avião, bola-de-gude, peão, pinhão...

 

Vento batendo na porta

Menino brincando na rede

Passarinho batendo asa

Morcego dentro de casa

Pendurado

Num canto

Da parede.

 

Nunca vi peixe voador

Só sei que existe

Por conta daquele livro

Que o meu avô me deu

- O meu avô.

 

Gente batendo a porta

Minino dormindo na rede

Passarinho se calava

Menino se balançava

Pendurado...

Ande Nua

 

Sabe de uma coisa

Ande nua

Queime suas coisas

Pela rua

Se a moeda é flor

Prostitua

 

Caminho cantante

Escambo diamante

Trombar de elefante

Trompete

 

Crista e cacarejo

Quebrado o solfejo

Em Quebec

 

Carinho calmante

Vogal consoante

Um verso clemente e feliz

 

Cristo e cacarejo

A paz que’u almejo

Eu vejo em Francisco de Assis

 

 
Gosto de cheia

 

Ontem... Eu chorei choro aberto e saudade

E entendi que era grande a cidade

De pessoas que amor me tem

 

Grande... Agradeço com minhas mãos juntas

Pelo colo o cuidado o carinho

Permitindo esse choro todinho

 

Imenso... Algo penso e voando no vento

Companheiro da chuva do dia

Desse frio que me vem cobrir

 

Amo... Desse jeito me sinto mais forte

E as estrelas que indicam me o norte

São vocês que estão por aqui.

 

Ciclo... Não careço conter tanta água

E esse dique que é meu diafragma

Borboleta girando em moinho.

 

Plano... Pronto o pouso o planeta a passagem

Importante que é a viagem

Toda ela provém do caminho.

 

Uno... Um chuvisco um riacho um açude

Vai rodando a bola de gude

Que é mundo e é olho também.

 

(16 de agosto de 2008, depois da primeira noite em lua cheia...)

Veias

 

Quase nos tiram nós
de nós mesmas.
Quase...
 
Investigo-nas,
nós mesmas.
Minhas velhas,
nas minhas veias.

No tempo das ancestrais

 

No tempo das ancestrais
Esteios, raízes, sonhos
Flores, folhagens, banhos
Contos, cantos divinais

 

No tempo das ancestrais
Mosquiteiros e descansos
Patos galinhas e gansos
Terreiros, sítios,  quintais

 

No tempo das ancestrais
Rezas, enfeites, anáguas
Rosas, ervas, bentas águas
Sincréticos rituais

 

Explanações cambiais
Sapiencias e saberes
Profecias e dizeres
Considerações, portais

 

No tempo das ancestrais
Curandeiras, benzedeiros
Boticários viajeiros
Frascos, perfumes astrais

 

No tempo das ancestrais
Goteiras em caçarolas
Recados e camisolas
Pecados originais

 

No tempo das ancestrais
Segredos, arcas, baús
Casas grandes, urubus
Amor de primos carnais

 

No tempo das ancestrais
Coisas de couro, couraças
Jabutis e carapaças
Jugos, preceitos morais

No tempo das ancestrais
Abanos de palha, esteiras
Gentes vendidas nas feiras
Poderes podres demais

 

No tempo das ancestrais
Tostões, cruzeiros, reais
Ouro, prata, vis metais
Castas, classes sociais

 

No tempo das ancestrais
Cruzadas e castidades
Hipocrisia,  maldade
Fogueiras eclesiais

No tempo das ancestrais
 

Caminhos longos, assombros
Desconstruções e escombros
Peregrinações gerais

 

No tempo das ancestrais
Alma, espírito,  lamento
Um despertar lamacento
Em regiões abissais

 

No tempo das ancestrais
Corpos, danças condoídas
Relatos de morte vida
Estórias de animais

 

No tempo das ancestrais
Algodão, linho e chita
Fazenda, linha e fita
Costura que se refaz

 

No tempo das ancestrais
Luas, sóis, ciclos, janeiros
Ventos fortes e maneiros
Renascimentos, finais

 

 

Paz da Senhora

 

Linda senhora a ema, 

linda senhora a siriema...
Treze araras estressadas

e um tucano solitário
Parque treze de maio

Linda senhora a ema

linda senhora a seriema
Trancadas num viveiro

Macaco prego e gente

O guarda está sentado
"Não alimente os animais"

 - Está escrito ao lado.

O pombo e a pipoca

A menininha chora
Argumentando ao pai

que não quer ir embora

O sol é frio chuvisca

É tardezinha e o céu cora
E a palmeira dança

Lindas senhoras as crianças,
Lindas crianças as senhoras...
Linda senhora a ema
Linda senhora a ema

Um homem negro e crente
Veste terno e gravata
Palestra sorridente
Gostei dele de graça

Linda senhora a ema,
E o pavão também...
A tarde entoa um canto
Paz da senhora, amém.

 

Bione

Pernambuco - NE

Aos 18 anos, os versos da cantora, compositora e poetisa Bione sintetizam a percepção do olhar de uma jovem atenta ao mundo em que vive. Após conhecer o Slam das Minas PE, em 2017, ganhou notoriedade, além de  ganhar projeção nacional quando representou o estado No Slam BR, sendo uma das  finalistas em 2018. Em 2019, lançou a mixtape Sai da Frente e também o seu primeiro livro, Furtiva (Ed. Castanha Mecânica).

latitude: 0000 / longitude: 0000

@b.i.o.n.e

Bione_Foto por Hannah Carvalho - Aqualtu

Poemas

Pernambucana

Poucos acreditavam no Nordeste
Até Bell trazer pra PE o troféu do Slam BR
Aí sim entenderam a parte do "não teste"
E é a essa galera mesmo que Baco Exu se refere
Eu não tô nem aí pra qual região tu prefere
Ou qual poeta do Brasil tu admire
E a única coisa que nos difere
É que enquanto tu planta ódio
Eu faço com que o jogo vire


Dane-se do que tu duvida
Só não pode duvidar
Da empatia na nossa essência
Porque se dependesse do Nordeste
O Brasil não teria fascista na presidência
Mas agora vocês vêm fingir demência
É que quando a gente ascende
Essa galera fica tensa
O único argumento que eles têm é a ofensa
Mas pra se referir ao meu povo
Dessa vez tu vai ter que pedir licença

O Nordeste tá presente

 

E dessa vez não é na cozinha do sulista
É poeta passando na timeline
E fazendo com que o xenofóbico assista
Não vim aqui pra limpar chão
Limpa o chão pra eu passar
Que eu sou turista
Esperavam que eu viesse serviçal?
Vocês vão ter que me aturar
Porque eu vim
Foi como AR – TIS - TA

 

Tu fazendo graça no circo
Eu recolhendo a lona
Tô arrotando vivência
E tu vomitando diploma
Usando as sandálias de couro
Que achava cafona

 

Antes não curtia brega
E hoje escuta Mc Loma
"envolvimento diferente
eu ensino a você... a você"
Pernambuco tá na casa
e é pra você entender


Então por favor, fica esperto
De qualquer forma, é progresso
Não é só sentando e quicando
Que o Nordeste faz sucesso.

 

Cida Pedrosa

Pernambuco - NE

Cida Pedrosa nasceu em Bodocó, Sertão do Araripe pernambucano, em 1963. Foi uma das militantes do Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco na década de 80 e daí vem seu gosto e experiência com a récita. Publicou dez livros de poemas, sendo o mais recente Solo para Vialejo (2019), Prêmio Jabuti 2020 - Livro do Ano e Livro de Poesia.

 

latitude: -7,4329867 / longitude: -39,9944188

@cidapredosa65

Cida Pedrosa.png

Poemas

Bicicletas voam

Na cidade que não vê.

Dor no app.

 

Haicai do livro Estesia (Edições Claranan, 2020)

 

 

rainha dos degredados

 

salve-me rainha

pois a vida não é doce

nem misericordiosa

 

hoje só tem panela

e um pouco de maçunim

 

o marido se foi para as bandas

do beberibe e vende caranguejo

na feira de peixinhos

 

salve-me rainha

antes que os de eva morram

sem direito a maçãs ou coisa assim

 

o gás acabou

os jambeiros do cemitério de santo amaro

desde ontem não safrejam

e minha filha menstruada

não pode frequentar o ponto hoje à noite

 

salve-me rainha

e desterre

esta vontade de incendiar a vida

e a dor que assola as mãos

 

Do livro Gris (CEPE Editora, 2018)

tereza

 

mãos enormes

as de geraldo

 

tào grandes que náo cabem

no corpo magro de tereza

 

quando se casaram

tinham planos de comprar uma casa

de varanda

e passar uma semana em bariloche

 

neste tempo

os peitos de tereza

cabiam inteiros nas mãos de geraldo

 

mãos enormes

as de geraldo

 

tão grandes que se espremem nas algemas

e não podem mais acenar para tereza

que nesta hora é conduzida

no carro do iml

para exame de corpo de delito

sob suspeita de estrangulamento

 

Do livro As Filhas de Lilith (Edições Claranan, 2017)

tradução

 

a vida

que de mim decifra-se

é pálida

como barro de parede do sertão

 

duro é o meu nome

prefixo da morte

 

a vida

que de mim decifra-se

é pedra

como gesso das jazidas do sertão

 

duro é o sobrenome

que me acompanha

desde o nascimento

 

a vida

que de mim decifra-se

é árida

para disfarçar a ausência do nada

que teima em dourar meus olhos

 

a vida

que de mim decifra-se

é volátil

como a palavra posta na tarde

como a letra escrita no fogo

como a voz dita ao vento

 

a vida

que em mim decifra-se

é viés de lua cheia vista entre nuvens

é corte de relâmpago em tarde posta

é trovão atrás da porta em tempestade

 

a vida que em mim decifra-se é sertão

em romaria

 

Do livro Gris (CEPE Editora, 2018)

 

 

mapas

 

quando o tempo do branco chegar

não terei gaiolas

gatos siameses

ou cachorro poodle

com coleira de marfim

 

com certeza

direi poemas indecentes

falarei de revoluções inacabadas

e de lugares que mapeei com minha alma

 

Do livro Gris (CEPE Editora, 2018)

 

Clarissa Xavier

Pernambuco - NE

Mestra em Teoria Literária e Literatura Comparada, doutoranda no Pós-Lit (UFMG), editora da revista Em Tese e assistente editorial das Edições Chão da Feira. Estudo poemas visuais, sobretudo suas relações com a memória e o silêncio.

 

latitude: -8,0486861 / longitude: -34,953273

@clrsas

Clarissa Xavier.png

Poemas

Não lembro que idade tinha quando fiquei sabendo o que era antes

Mas antes se tornou para mim a extensão do mundo tateável

Com as mãos alcançava meus pais, a poeira na escada

podia remexer as raízes da terra e esmagar

nelas frutas que não dariam descendência

O mundo era algo em torno dos vasos da varanda

Ouvia o latido na rua o canto e outro segredo

Com o sol já não podia me queimar

Não por não poder tocá-lo, mas porque me era proibido

pular da sombra nas infinitas horas de pico

Então remoía as ondas dentro do castelo de areia

Esbravejava o mar por minha conta

cada balde um arrecife plástico

Piscinas naturais em poliméricos sintéticos

 

Cantava na praia ou na varanda

Até que o mar me trouxe antes

E antes era mais que eu em tudo

 

Antes estava lá quando meus pais se conheceram

Quando os bichos da terra se tornaram

outros bichos e as plantas se cravaram em certas pedras

ao imprimir, com seus contornos na terra, xilogravuras do tempo

 

Eu não podia ter nascido até então

Era preciso esperar tudo acabar

A juventude das avós o nascimento dos primos mais velhos

Os casamentos os divórcios os namoros escondidos

os dias coletados por todas as fotografias

a nova onda do cinema os títulos

do campeonato pernambucano

 

a construção de um prédio

entre o mar e a janela

 

Mas o mar era ainda antes

nele o corpo diacrônico afundava

dava lugar à imersão das horas

 

Eu poderia cantar o mar, mas o mar era mais alto

Não havia nele a linha que me separasse

de antes

Evidentemente, a mesma que separaria antes

de mim

O mar era a vertigem

A navegação que alcançava todo o tempo

A ressaca renovada a cada instante

 

Quando enfim antes soltasse a minha mão

acordava pelo grito deveria

retornar à sombra

na hora exata

 

--- 

 

Pense no homem como a flecha

Considere que o arco é anterior ao centauro

mas o cavalo é concomitante ao homem

que produz com suas mãos flechas,

arcos, escudos e a morte de outros mais

e com seus olhos mira

o que ainda não vê

e com suas patas carimba pedras barro

folhas estilhaços de um mundo

dividido

 

Pense como deve ser o homem

hábil, irrompendo como fulcro inverso

sobre a superfície selvagem

que é também ele, que é cavalo

que é homem

 

Pense no ângulo de quarenta e cinco graus

do braço anterior à flecha,

perpendicular ao fio

do arco elástico

 

Lembre-se que primeiro se ouve a pata

pesada na pedra, mas que a pedra,

sem ela, permanece em seu silêncio

sem leite

 

Imagine que aponta para você

a bissetriz do arco

e para o alto a ligação do elástico

e de um lado o centauro

que não sabe se é homem, se é cavalo

e do outro você

que é homem que pensa

que é flecha

Neste rio

 

Há tanto o que ver na Terra

mas eu penso no invisível:

os rios que correm pelo céu da Amazônia

em direção ao sul da América

em São Paulo esse ano não virão

 

será que se víssemos voar

os peixes entre os prédios de vidro

pensaríamos mais no fogo

que lambe as folhas da floresta

ou no ar molhado contínuo

corroendo os metais da cidade?

se um dia visse a terra de lá

saberia daqui os seus segredos?

 

as partículas de ar

se embaralham em minha pele

mergulhada estou também

neste rio indivisível

 

---

 

Às vezes se afia

a faca do tempo

como se a um só corte pudesse

tudo tomar

tino

 

É preciso reestabelecer o sono

ainda que a coluna não suporte

o peso horizontal de um corpo

cansado há dias que perfazem

poucas horas arranjadas

para lhe dedicar

 

Como um cão que caminha

na contramão do tráfego

e sente pelo calor do escape

que as buzinas significam

qualquer coisa (embora não tenha lido

na autoescola as leis que enredam

os homens)

 

A quem aflige perder

a hora e a quem supõe

na vida em si o fim

um cuidado uníssono

desviará do choque

 

Dedico o corpo ao escape

O suporte ao sono

A faca ao tráfego

O horizonte às horas

O calor ao cão

E o choque aos homens

com cuidado

 

As pessoas e o desejo

 

1.

 

as pessoas são desejo

e desejo é uma planície alocada

sob a tampa da terra.

debaixo dela há vertigem,

e o verde que recobre florestas

que flutuam sem luz ou oxigênio,

(uma vez que se alimentam

das pessoas do desejo).

 

2.

 

as pessoas que não cumprem

os desígnios de seu desejo

desenvolvem, por sua vez,

o insaciável desejo do não-feito.

a irrealização toma suas faces,

fazendo pela pele que se irrompam

gargalos como fontes distendidas

de prazer –

incalculável como um lago

a olho nu, as pessoas,

ao contrário do que comumente

sobre elas se trama,

não perecem. A ficção das pessoas

do desejo é sua resoluta perseguição.

Às demais, o anteparo da demora

fielmente cumpre a narrativa:

não se espera um acontecimento.

 

3.

 

é comum ouvir do desejo

a figuração do fruto –

como um figo que após

ser liquidado pela boca

habituada é, sem fim,

reeditado

pelo fio do coração.

ao contrário do figo,

o desejo em si possui

finitude e finalidade.

deve o desejo ser medido?

 

assim como o poeta divide

a tristeza, também pelos dias

deve-se o desejo partilhar?

 

Danuza Lima

Pernambuco - NE

Mulher negra, pernambucana, graduada em letras, especialista em literatura brasileira e Mestra em Teoria da Literatura, faz-se professora da rede pública de ensino. Andou pelos caminhos da curadoria e edição de zines junto ao coletivo NAUvoadora. Em 2020, lançou Mantra e Sob a proteção da espada de Iansã, finalistas do Prêmio Mix Literário e editados pela Macabéa Edições. 

 

@krshnalima

Danuza Lima.png

Poemas

mas cuidaria de ter trepadeiras 

I.

​ 

em meio a sombra, te rego

 

assombrações e delírio

 

gestos de prazer soam estranhos 

quando não surgem de você

 

Jiboia verde e

para cada gota, adubo e cálcio

folhas ao redor, no corte

me recebem abaixo dos pés

 

tem uma areia grossa e

enquanto te enxergo, tenho sede

 

            gestos de prazer soam estranhos

            quando não surgem de você

 

​II.

 

talvez seja isto:

a dança aérea da tua língua

que faz estaquia do entre as pernas

umbigo 

- fundo abismo - 

à boca 

            - cacimba tão somente de

                                                  arcos alvéolo-dentais  - 

 

III.

 

esta terra cheia de tudo

calcário 

memória de ossos

carvão cascalhos

e não me chega até você

 

            porque afeto sem olhar

            não germina 


 

IV.

 

e sendo caminho o meu corpo

à distância 

amo esta mulher, planta

que trepa entre os meus dedos 

 

e o amar esta mulher 

me habita sem estar

faz crescer

nas paredes do quarto

esta fome de tudo. 

 

            que gestos de prazer soam estranhos

            quando não surgem de você.

 

---

 

A mulher é um animal que chora

e sua glória é ver o sol entrar pela janela

como se fosse o último

ela pega linha agulha areia e palavra 

constrói uma concha e se aninha embaixo 

nácares e um cheiro terroso vêm do quintal

no sangue que a visita 

na comida preparada com intento

no sal dos olhos

a mulher é um animal que chora 

do carbonato de cálcio que a envolve

às lembranças histórias e um sono de costume

urge uma mulher

uma flor um sol

as frutas no chão

na foto pela tela do celular

a mulher é um animal que chora.

---

 

minha oração é o teu corpo  

a palavra e o verbo, a verdade enfim.  

imagem da minha memória:  

esta redenção,  

descanso.  

meu pedido e rogativa 

salmos escritos no teu riso  

quando se mostram os dentes  

no instante da tua mão estendida  

e o convite  

a deitar contigo. 

 

---

sei do cio das tuas gatas  

o tempo da água que ferve para o café  

a duração da brasa, este cigarro  

o tempo que leva um fiapo de pelo a percorrer o ar  enquanto teus olhos dançam numa risada.  

tudo isto na ausência do relógio.  

vejo:  

afeto e vontade  

fito: 

teu olhar  

faca e sol  

luz e lâmina.

tampouco a voz das horas  

destas que desenham uma linha sobre a cama e  

deitam teu corpo a fazer caminho  

trabalho o olhar sobre esta claridade.  

logo se vê presença em luz  

e faísca.  

a língua é uma fúria. 

 

---

 

Para Mika Andrade      

 

:

muito antes da palavra

é um olhar de fera

à espreita

 

fruta madura

manga-espada inchada

ligada à resina

poderosíssima cor

do olho fel

gasta tempo a pesar

do pé

e sobre as formas de se fazer

cheiro e verbo

neste intervalo

 

devora

tempo

lógica

o acetato que envolve

dos nomes das armaduras

aos óculos que escondem

as palavras

a memória

das estrelas

as cadentes todas

e anda

na ardência

e nasce

e vive

quase de vez

poeta.

 

Jussara Salazar

Pernambuco - NE

Jussara Salazar é escritora e artista visual. Tem diversos livros publicados e já foi traduzida para o inglês, o francês, o espanhol e o alemão. É doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/São Paulo e Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná.

 

@jussara_salazar

jussara-salazar.png

Poemas

        COM MÃOS SUAVES
a concha antiga
era o gesto
com que escavei a terra escura
e tudo, todas as raízes
eram fios ao vento
tramas aéreas
para bordar um manto
para cobrir a cidade que dorme
        Com mãos suaves
era terra bruta
o trigo negro
com que amassei o pão
cozido em vapor cinza
e carregado em fardos rudes
na sombra da terra úmida
para alimentar a flor que ainda não
para derramar sementes
para destecer vãos
e um brilho de sol
acordar a cidade

 

---

AS NOITES
Longas para tecer
Os dias longos para
Destecer as noites
Debruçada sobre a janela
O mar lhe envia sons
O mar lhe abriga
Água
Grande mãe ancestral
Ela abre as mãos
Segura a concha
Leva a concha ao ouvido
O mar _ antigo e velho sussurra
Ela fecha as mãos
Como conchas
Para segurar o fogo
Para mantê-lo
Aceso
Pois as noites serão escuras
As noites e suas mãos
Seu mar
Como mãe
Tecendo um futuro
Como onda
Que se faz
E se desfaz

---

NÃO SABEREI

se o tempo é vapor

   chuva

   caindo

no chão seco

jorro de água feroz.

   descendo

enxurrada abaixo

de qualquer beco

se o tempo é minuto

que se sabe

antes mesmo
que aconteça

ou se é poema

uma teima

   pedra

   cascalho

   esmiuçada

onda

   desfeita

---

 

DOIS PÁSSAROS COMO CRUZES em
Revoada na velha fotografia
Um branco
Um negro
Dois pássaros
Uma orquídea derrama seus
Bulbos
Serpentes
Sinuosas raízes ancestrais de
Um mar imaginário
Algas
Atrás das velhas paredes
E apenas um peixe translúcido
Dois pássaros são
Uma mulher e
Um homem
A rezar com
Seus pés mergulhados
Sobrevoando
Esse mar imaginário
Seus pés sustentando
Nossa casa
Suspensa por um
Tempo que há
De vir para
voar

---

        TENS UMA CORÇA

        TATUADA SOB O PEITO?

Aquela corça

Que viste no campo

Extraviada

Como uma letra solta

Na página como palavra

Que se desfaz contigo

A corça

Que risca o campo

A corça que corre

Livre

E seu pelo se levanta

Ondula

Dança

Como o vento

Balança ao tempo

E se recompõe

A cada planície

A cada nome que escreve

Quando risca o campo

Leve

A corça anseia

Por águas correntes

Palavras que passam

Como rio que se reescreve

E foge

Como ovelha

Que ninguém recolhe

E habita minha casa

A tua casa

E respira
Solfeja

Um canto torto

Quando corre

Com meus pés

Pelo campo

Com todos os pés

E respira mais uma vez

Com seu fôlego de corça

        Tens uma corça

        Com teu nome escrito?

Sobre todos os nomes

Há uma corça bíblica

Que passou por mim

E correu pelo campo

             Extraviada

E me habitou

E habitou em ti

 

Laís Araruna de Aquino

Pernambuco - NE

Laís Araruna de Aquino nasceu em 1988, no Recife. É autora de Juventude (Ed. Reformatório, 2018), ganhador do Prêmio Maraã de Poesia de 2017, e Nós só compreendemos muito depois (Ed. Corsário Satã, 2021).

@lais_ararunaaquino

Laís Araruna de Aquino.png

Poemas

Yes i said yes

 

amendoeiras, fruta-pão, ipês-rosa e hibiscos,

sombreiros e gramíneas, salsas e coqueiros

como amo as siestas, água e dipirona,

esses substantivos tão concretos como uma cachaça

 

na foz do rio formoso e do ariquindá

avistamos ao longe o inalcançado bar do mangue,

onde guarda-sóis cintilavam como laranjas suculentas

ou jujubas em uma cama de rúcula

 

– a ilha de guadalupe foi meu pasto interior

então rafa conversou a vida cabe em uma bolsa

a vida, não, uma casa; e eu disse volte em maio e julho

mal sabíamos que adiaria o voo e a alegria

 

rosinha, tudo dói tanto, foi o que escutamos depois

e entramos nos expedientes de quartos, notícias e portas

a vida sim é uma longa despedida

 

 

Sobre o mundo como vontade de poder

 

Para Cela

 

quando saltou sobre o muro e nadou na piscina

do prédio ainda em construção, tinha oito anos

e um desprezo por regras de propriedade. era

uma pequena Raskólnikov e desdenhava

normas estúpidas que reproduzissem a cruel dominação

que crianças pampers exerciam sobre crianças frágeis

e submissas. por isto, não era tributável das qualidades

morais em voga –  dispensável dizer sobre a estética

menos que kitsch e middle class do rebanho de

infantes que frequentava. apesar disto, estava entre

eles porque quase confinavam com os limites físicos

do seu mundo. mas, então, primeiro negaram-lhe os dois

reais que haviam apostado. e ela subiu com as roupas

molhadas e os bolsos vazios para o seu quarto.

depois, compreendeu que, para eles, era um tipo

selvagem e andrógino – para eles, que só cultivavam

o que entendiam e eram tanto mais fortes quando em

comum professavam desdém em clubes de desestima

alheia. outros se revezaram no mesmo papel, trocados

apenas os nomes: os ferozes padeiros do mal;

os ferozes leiteiros do mal – os arautos das

congregações dos integrados, os que vão à missa

e comungam, ou não comungam, pagam o dízimo

e se pensam mais cristãos que o cristo, os que não

vão e têm piedade de si, os cordeiros e lobos que

se alimentam do mesmo pasto. and so it goes

então, aos poucos, ela desceu ao fundo da ilha do seu

coração, onde preferia histórias como a de Crusoé

e era, em todo seu afeto, ignorada pela civilização.

agora, lê freuds, jungs, deleuzes – e explica alguma

coisa, ora outra e não pisa o território hostil da infância.

vezenquando, se lhe perguntamos se deseja sair

em férias conosco a uma praia, diz que não gosta

de se banhar e não mostra o corpo com facilidade.

prefere, diz, alguma quinta, menos frequentada,

onde beberá bastante vinho, falará sobre literatura

e sonhará viver como nos filmes de Rohmer.

Reiterações sobre um tema

 

o vento no canavial

as bandeirinhas de Volpi

os leões que Hokusai desenhou todos os dias

por 219 dias até morrer

 

a forma não se atinge nunca

na reiteração das coisas no tempo

as coisas – elas mesmas

são outras e tu

outro és

 

e o café as camisas brancas o assoalho da casa,

o qual pisaste e tornarás a pisar,

numa configuração nunca idêntica,

porque a madeira desbota e teus cabelos vão a cinza

 

viver – eis a fissura

é estar inacabado até o fim

Pais e filhos

 

meu pai quando conheceu o cemitério dos veteranos

em washington e viu as lápides brancas geometricamente arranjadas

disse é tão bonito, dá até vontade de morrer

ele não sabia o poema de emily dickinson em que

beleza e verdade conversam longamente de sepultura a sepultura

mas o enterro das grandes questões nunca é definitivo

embora a minha geração seja a do asfalto e da estufa

ando pelos campos santos da literatura e entre um copo

e outro, digo, entre um capítulo e outro,

volto aos tópicos sobre que não se pode falar,

mas não me calo, me exponho cruamente –

não nas livrarias: eu não vendo

se me perguntarem então você vai até o fim

responderei não, eu tenho a minha vidinha

e os meus fúteis e banais prazeres

meu pai começou a trabalhar aos doze, está na luta desde cedo

saltava de um ônibus a outro e entregava cartões de visita na cidade

vezenquando ele me diz o tempo de pegar pesado é agora

mas meus olhos seguem alheios pelos livros e os campos

de que ele está certo não duvido

o cortejo das árvores existe a despeito de mim e uma rosa é

sem o olho que a vê

este poema não oferece nenhuma redenção

não é pela graça do ser –

talvez seja pela graça de apanhar pitangas em dias de sol

e fazer versos no meio da tarde sobre o tempo

e como a autora sente por estar fora de casa

estamos no outono e chove a intervalos na califórnia

de certa forma, poemas sempre dizem sobre o tempo, o humor e endereços

outro dia, porém, escrevi algo sobre a caverna do início

e cela disse fale sobre a grande noite

quero dizer saímos da cavidade

como de uma grande noite – a do esquecimento

e cá estamos, à luz do meio-dia, e mais à frente está a fronteira

eu sempre estarei a meio caminho, tentando deixar vir à luz

uma certa luz que não ofusque, como as gotas de água na folhagem

após uma chuva de verão

eu recuso entrar docemente na grande noite

quero a memória de tudo e a do esquecimento

quero meu pai andando no bairro do recife na década de sessenta

meu pai nas ruas do rio na década de oitenta

meu pai todas as manhãs na porta de casa falando

feliz natal e um próspero ano novo

porque de um modo ou de outro todos os dias

guardam a possibilidade do dia

e eu quero estar lá, digo, aqui

e abrir a manhã como se parte perpendicularmente uma fruta

cravar os dentes fundos na polpa da fruta

e deixar que o caldo inunde a vida inteira

 

 

 

Legado

Para minha avó

 

Vovó, já bem tarde na vida, costumava contar

a qualquer que estivesse a seu lado

que a granja fora um presente do meu avô.

Ela dizia, numa voz feliz,

ignorava o que haveria de ganhar, mas fora ter com ele,

neste campo de silêncio e vento.

Minutos depois repetia, repetia, a mesma voz, feliz,

até de repente surgir súbito algo que remontava a seus quatro anos

e se interrompia por um momento

como Sísifo –

 

A granja fora o presente de meu avô a minha avó.

Aqui onde eu preciso nada que os pés descalços

na grama verde e o balanço das palmeiras imperiais,

coroas d’outro tempo.

Essa história é o legado do antepassado que não conheci

e o fio do presente se entrelaça ao tempo de antes

como uma voz ao eco de outra voz dentro da língua.

Na minha voz sopra a fala atávica do sangue no tempo.

(e o meu jeito de ir ao meio do mato, entocada,

é o doce legado do sangue)

Bem mais tarde, minha avó, que já perdera muito,

não conhecia mais este lugar de refúgio fora da cidade.

Aqui era como lá e ao quando se misturou

o presente de eternidades.

No entanto aqui é o lugar onde o deitar do sol

traz um brilho dourado às árvores que recortam o horizonte.

Não se pode roubar este presente

mas chegará o momento em que tudo será apagado

pela sombra do nada, restando um monumento de ruínas

fora do tempo, sepultado.

 

O exílio da memória é como um farol num oceano

profundo e escuro de águas impenetráveis.

Resplandece em meio ao nada, quando se perdem

 

– as pontas do tempo

 

Luna Vitrolira

Pernambuco - NE

Pernambucana, 28 anos, é escritora, poeta, atriz, performer, Mestra em Teoria da Literatura e pesquisadora da poética das vozes e da poesia de improviso do Sertão do Pajeú/PE. Ao completar 10 anos de carreira publicou seu primeiro livro de poemas, Aquenda - O amor às vezes é isso, finalista do Prêmio Jabuti 2019. 

@luna_vitrolira

luna-vitrolira.png

Poemas

eu amo sem conta

sem medida

           clandestinamente

amo sozinha

desacompanhada

 

sem exaustão

amo breve e densamente

 

amo nos meus tropeços

nos desalinhos

nas horas vagas

nas noites vazias de uma dose de cachaça e perco a linha

porque amo sem direção

 

o meu amor me acontece

e me escapa

uma hora chama

na outra

           fumaça

é quando meu juízo mole me denuncia

 

não é real luna

o amor não é real

é tudo lisergia

 

meus pés doem de pisar o chão

é como se o mundo me quisesse folha esquecida que de tão amarela não se sabe adormece e voa pelos ares de outras vidas

 

não é real luna

o amor não é real

é tudo lisergia

 

se bate na porta

corre

 

se nada

se afoga e morre

           um suicídio matinal

 

o amor me rasga e me oscila

me toma me refrata

me inunda quando me diluvia

depois me larga em qualquer calçada

 

me cega se reverbera

me implode se dilata

depois me assalta e se extravia

o tempo grita

           acorda

 

eu amo de amor e de raiva

um amor impreciso

 

eu amo de fogo e adoração

um desejo implícito

 

amo o que é ínfimo

como quem se curva a indiferença

 

amo de sonho áspero

sou mais acaso do que razão

e vivo impaciente

 

sou um corpo que se deixa esquecido

arde de horas na cama

se entreva da espera

como quem morre

como quem morre impaciente

 

deus o amor me gasta

 

quando irreversível

me evapora

me estende

me sublima

 

sou eu essa mulher que definha

e que teme se tornar invisível

---

 

o amor é feito bala perdida

que acerta um desavisado

 

ao cruzar a rua

ao dobrar a esquina

 

às vezes vem num soco

às vezes vem num grito

 

o amor às vezes é isso

 

uma panela de água fervendo

no rosto de alguém querido

 

às vezes esmola

às vezes migalha

 

que se devolve com um tiro

ou acaba em facada

 

o amor tem medo da vida

 

uma hora eleva

na outra arrasta

 

desconfia da sorte

tem medo da falta

 

o amor corresponde à entrega

com uma rasteira e às vezes mata

 

de tirania

de asfixia

de ciúme

de raiva

 

como alguém que se alimenta

e de repente engasga

---

 

o amor está morto e enterrado

soube esses dias

que foi arrastado pelas pernas

pra um terreno baldio

 

parece que não teve direito a velório

por motivos de

 

estado avançado de decomposição

 

o amor apodreceu

ficou só osso

 

não recebeu flores 

não recebeu velas 

nem mensagens

da multidão desconhecida

 

estava desaparecido

 

disseram que foi estrangulado por ciúme

que pediu socorro

mas ninguém ouviu

 

a vizinhança dormia

e dorme

 

o amor está morto e enterrado

---

em nome de deus
quantas mulheres foram agredidas
ameaçadas de morte
e mantidas em cárcere privado


em nome de deus
quantas morreram apedrejadas
quantas foram esfaqueadas
degolados os sonhos em sacrifício


em nome de deus
quantas perderam seus filhos
quantas dessas mulheres sumiram
quais tiveram a chance de volta pra casa


em nome de deus
quantas morreram espancadas
quantas foram asfixiadas
esquartejadas pelos próprios maridos


em nome de deus
do espírito santo
ou do amor divino


quantas viraram estatística por feminicídio

 

Manuella Bezerra de Melo

Pernambuco - NE

Manuella Bezerra de Melo é recifense, autora de Pés Pequenos pra Tanto Corpo (Urutau, 2019), Pra que roam os cães nessa hecatombe (Macabéa, 2020), ambos de poesia, e de A fenda, seu primeiro livro de ensaio no prelo da editora Zouk. É jornalista mestre em Teoria da Literatura e, atualmente, bolsista no Programa Doutoral em Modernidades Comparadas: Literaturas, Artes e Culturas na Universidade do Minho, em Portugal, onde vive desde 2017. 

 

@manuellabmm

Manuella Bezerra de Melo.png

Poemas

andei

gastei as canelas

só pra te ver encostado

                                        na esquina

                             mudo

bem debaixo daquela árvore bonita graúda

                                                de tronco largo

parei do outro lado apoiada no muro branco

tangente à grade esverdeada sentei no sofá

                                                                            vinho

que puseram no meio da rua e

entre um e outro gole

fi tei por longos minutos atravessada

feixes de luz teus pelos úmidos

                                              caleidoscópio dourado

 

---

 

revigorar o dorso

liquidar a tristeza

revertê-la em água e sal

sobrar pro mundo

salivar pelas beiradas

suar como porca em cruz

meter o dedo na goela

na ferida no cravo na unha

encravada do anelar esquerdo

pra restar o de sempre:

a boca elástica

um mundo de dentes

---

 

Uma bandeira tremulou uma mulher

que andou o oásis inteiro no seu rastro

 

Uma mulher atravessou um deserto

a cuspir na boca do seu filho com sede

lá encontrou outras mulheres cuja

sede é o motivo das travessias

 

Uma criança com sede carregou uma

mulher no seu lombo até que

pudesse ela chegar ao outro lado 

do deserto em segurança desta vez

 

Uma mulher arrasta nas pernas

uma bandeira, uma criança, um deserto

 

Micheliny Verunschk

Pernambuco - NE

Micheliny Verunschk é autora de livros de poesia e prosa. Seu primeiro romance, Nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida (editora Patuá, 2014) foi agraciado com o Programa Petrobras Cultural e com Prêmio São Paulo de melhor livro de 2015. É mestre em Literatura e Crítica Literária e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC São Paulo. Foi membro de vários corpos de jurados de concursos literários brasileiros, entre eles o Prêmio Jabuti e o Prêmio Sesc de Literatura.

 

latitude: -8,4195151 / longitude: -37,0589394

@oncaverunschk

Micheliny Verunschk.png

Poemas

Olhe para mim

Fang Yin

olhe para mim

a lua é uma flor

que explode 

em pétala

e um jasmim 

gravita

em torno 

de um diminuto

planeta Terra 

olhe para mim

toda luz

reside à flor da alma

na paciência  que tece  n

um campo inteiro

um único botão de malva

olhe para mim

há um jardim

para além da tua casa.

 

 

Yosefa

olhe para mim

há um jardim

para além dos territórios

do esquecimento

uma promessa

pousada

sem fim nem tempo

olhe para mim

entre nós 

uma única palavra

e olhos que se espelham

numa gota d'água

dois corações

abertos

como um par de asas

olhe para mim

há um jardim

para além da tua casa.

 

 

uma mulher que escreve

 

você já observou uma mulher que escreve

durante o ato da escrita?

já viu como emana dela luz e poder

que não são de outra estrela

senão dela mesma e do que conseguiu

angariar como alimento,

asteroides seiva outros corpos em expansão?

os pontos luminosos dos seus olhos

se abrindo e fechando em fractais

de energia puríssima?

você já se surpreendeu 

com uma mulher que escreve

durante o ato mesmo da escrita?

já viu a simplicidade da mão

marcando o papel sob a força 

da tecla ou da caneta

como se fosse um exercício fácil

esse de dar materialidade aos espíritos

que pairam nas ideias?

foram tantas e tantas eras para chegar até aqui!

foram tantas pedras a carregar nas costas!

tantas cinzas a sufocar gargantas 

a entupir os poros.

você já observou uma mulher que escreve?

algo nela se torna iridescente

da tempestade dos neurônios 

às pontas dos dedos, 

bem ali no limite lunar entre a carne e suas unhas.

nada mais simples que uma mulher que escreve.

nada mais insurgente e capaz de gerar beleza

esse lugar para o qual todos fomos destinados.

---

 

mar aberto: meu coração agitado

rebate contra as pedras

o sol espelha na água

seus cacos de vidro

e me cega.

mar aberto: meus pés tocam o fundo

e a areia reverbera

música de dentes

garras guerras guelras.

mar aberto: onda que vem

onda que vai

me devolve

e me leva.

 

todos são inocentes

 

todos são inocentes

quando vítimas inocentes

da tragédia

a tragédia

não o drama grego

de deuses semideuses e heróis

o trágico acontecimento

do caminhão que explode 

e faz estremecer a cidade 

o mundo

da torre que desaba  

não pelo dedo de deus

mas pela bomba

dos tiros disparados

onde o alvo são todos

todos os inocentes

as vítimas inocentes

que outro dia respiravam 

aliviados

ante o noticiário

oh! ainda bem que não fui eu.

todos são inocentes

quando vítimas inocentes

transeuntes desavisados

em direção à morte

todos somos inocentes

quando vítimas inocentes

desse teatro sem coro

sem catarse

sem lógica

todos inocentes

quando vítimas inocentes

carne para moer

dada aos poderosos

aos donos das armas

aos cheios da grana

aos incendiários dos empréstimos

a juros amortizados

todos inocentes

quando vítimas inocentes.

 

 

Ophelia

 

um par de seios

boiando sobre as águas

e a ilha submersa

um emaranhado de raízes

bulbos filamentos.

 

cinco palavras giram

ao redor da lâmpada:

todas tem calcanhares

e arestas.

 

 

ah,

na margem da vizinha ribeira cresce um salgueiro.

 

Renata Pimentel

Pernambuco - NE

Renata Pimentel é graduada em Letras, com Mestrado e Doutorado em Teoria Literária pela UFPE. Desde 2010 é professora de literatura na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Publicou Uma lavoura de insuspeitos frutos (ed. Annablumme, São Paulo, 2002); Copi: transgressão e escrita transformista (ed. Confraria do Vento, 2011); Da arte de untar besouros (poesia, ed. Confraria do Vento, 2012) e Denso e leve como o voo das árvores (poesia, ed. Confraria do Vento, 2015)

 

@pimentelrenata72

Renata-Pimentel.png

Poemas

cartilha primitiva

 

só sabe como nascem

os girassóis

quem ousa plantá-los

e mais ousa:

cuidá-los durante

todo o longo e exigente

percurso até a florada

 

só sabe o vero

canto dos pássaros

quem ousa recebê-los

no lar sem grades

sem gaiolas

e deles receber

o livre canto

 

só sabe do amor

quem faz laços

com felinos

plantas

flores

águas

e outras formas de pasto

 

(do livro Da arte de untar besouros, Ed. Confraria do Vento, 2012)

 

 

a criança que sou abraça o tempo

 

eu não quero veredito

eu não quero enfeite nem fita

nem embrulho de presente

quero tudo desnudo

quero teu lábio carnudo

quero tua mão na minha

 

não quero mais desacreditar

não quero mais pelejar

sozinha

quero ser mulher e menina pequenina

 

não quero receita

não quero estereótipo

quero vaso de louça

batom somente na tua boca

e salto somente em teu pé

usei sapatilha de ponta

dancei até quebrar o joelho

bebi um oceano de sal inteiro

até doerem as entranhas

 

cansei e descansei

de traições desenganos e partidas

 

agora quero acolhida

quero viagem de partilha

(do livro Denso e leve como o voo das árvores, Ed. Confraria do Vento, 2015)

 

 

post-it

 

às vezes é preciso

arrancar as raízes

para seguir íntegro

(do livro Denso e leve como o voo das árvores, Ed. Confraria do Vento, 2015)

das vulvas de que nascem as poetas

 

os figos são flores que crescem para dentro

; comê-los é contaminar-se da modéstia do que não se exibe

, mas também não se exime.

os figos não se curvam aos elogios de casaca

, não se rendem às facilidades de toalete plástica

, são orações mudas e implosões de sentidos

 

as vulvas de que nascem as poetas

não são um conjunto genital de partes externas

são figos

e híbridas searas

podem abrigar um corpo além

é gente que gera

é mulher que não espera

pode ter qualquer genitália

                        pênis vagina teta cotovelo língua dedo umbigo orelha dedo perna

as poetas inventam seus corpos e suas primaveras

 

(do livro inédito/em preparação A harmonia secreta do caos)

e a insanidade reina ruidosa

 

começou como o primeiro avesso de todos os sustos

- sem voz:

um sino estranho aos hábitos senis de existir

do que se supunha

badalava tensa nota sustenida de advertência

 

[foram caindo corpos, um a um multiplicando-se e não eram pares, eram hordas.

/ todas as pretensões orgulhosas de sangue vendo o esfalfar-se em pedra]

 

quando o ar se faz raro

: efeito infecto

[seja em fato seja em saldo seja em álcool]

: líquidos e salivas e toques adensados

 

sirene e assimetrias

: morrer a cada minuto se faz mais sentença

/solitária escápula sem asas/

 

depende de como se acomode

- quem? Quantas quantos e quantEs?

 

[QUANTA]

 

hasta cuándo? hasta cuándo?

 

: acomodar coisas em lugares confiáveis

, como quem pega aquela mesma estrada de chão todo dia enquanto vai ao rio tomar abraço de água doce, colhendo umas frutas pelo caminho e ouvindo canto de passarim conduzindo a trilha,

 

é ascender em levitação de raiz de árvore antiga

, que voa nos braços-galhos-folhas-cabeleira de ser transtempo

 

tudo passa, vai passar, passará

passaremos isoladEs em corprisões

escorpiões atentes ao fim do dia

quando os timbus guincham alto sua algaravia

 

o que não é passado

não é o fim

dos tempos

não é o fim da alegria

mesmo nas raivas gritadas

pelas portas lacradas

: que a dor segue carpida

quando toca as barras das vestes pessoais

 

[é que não aprendemos a ser animais]

 

e no balcão dos negócios

maisvalidam-se os itens de primeira urgência

como papel de limpar as bundas

como lisoformes e retinas límpidas

 

: não aprendemos a ser menos

nem a tomar sozinhEs os cafés

que preparamos

enquanto aspiramos o pó dos corpos

 

destronadas as coroas

[o ar mais limpo rareia

impera em peste

            feito quem sufoca

de tanto oxigênio]

 

não me abre teus lábios

/ repousa tua língua

......................................................silêncio

 

há cortes onde havia talos

e a insanidade reina ruidosa

: sanha de serumanos grunhindo

instalados em seus buracos

 

não haveremos de caminhar

estateladas estátuas de pedra

: quando abertas as cancelas

, esqueceremos a história anônima

e permaneceremos sem sermos fato

 

não, poeta, me abre teus lábios

MAS

/ repousa tua língua

teu ......................................................silêncio

ainda é mais sagrado

 

(no prelo a sair na coletânea intitulada O Poema se chama política, ação para o MTST/ PE)

 

Renata Santana

Pernambuco - NE

Renata Santana (Recife-PE) é escritora, recitadora, bibliotecária, jornalista e  pesquisadora. Publicou os livros Eu me lembro e Na terceira margem do agora (ed. Castanha Mecânica). Também integra as antologias Abrigo (ed. Vacatussa), O poema se chama política (Impressões de Minas / Titivillus), Quem dera o sangue fosse só o da menstruação (ed. Urutau), entre outras. Organiza com a escritora Flávia Gomes o Sarau Eroticuzinho, um espetáculo de literatura erótica.  

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@historiasdeumagata

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Poemas

sobre coxas, falo.
sobre conchas, abro.
sobrecu
corto fora, tempero a galinha e boto no fogo.

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antes


do amor dos primos
do professor de inglês
antes da máscara
                da tiazinha
antes mesmo do pôster
no quarto
e do axé music
        que desce até embaixo
antes, mais cedo que
os meninos de sunga
na aula de natação
antes de dezembro
beijo gaúcho no ônibus da excursão
antes da menina que tirou o biquíni
no banheiro
e disse
aqui, veste o meu
tão nua e cruel,
antes antes muito antes dela
e dos caras
derruba-parede
amasso de festa
troco revistas por filmes da band
antes, anos antes do xvideos:

 

o tesão irrepreensível
entre duas bonecas barbies.

 


zona erógena


é quando eros diz
aqui
é um bom lugar para ficar


então ele cava
e dentro
esconde um ouriço
mas nunca descreve

— aqui zona de eros —


pois é preciso procurar
no grande mapa nude.


fosse adulto
talvez escrevesse
emplacasse o mundo
ainda implantasse ponto biométrico


os ouriços
previsíveis
funcionários de repartição


não,
criança e brincalhão, eros
faz uma zona
sopra ouriços
e depois
apenas
diz
tá quente
tá frio.

fido dido

 

você degraus e digressões

eu drops and dress

você dor e discos dizendo

dez em cada dez pessoas

eu drops and drags

dançando dig dig dig ê

dizendo duvideodó.

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o jeito como você

reinventa pratos com miojo

patenteando nomes

que depois esquecemos

me convence da salvação

 

você é um deus de plantão

no final do mês

 

o homem com o cardápio nas mãos

em paris

na porta da geladeira

não é maior do que você

ao seu lado atravessaria guerras

e resistiria, grata

 

como um tamagotchi.