Aline Cardoso

Paraíba - NE

Aline Cardoso (João Pessoa, 1991). Mulher negra, produtora de conteúdo digital, multiartista e mãe solo. É fundadora da Editora Triluna, licenciada em Letras e Mestra em Linguística pela UFPB. Organiza o Sarau Selváticas, a Sagaz Zine, e participou da fundação do Slam Parahyba. Autora de A proporção áurea do caos (Escaleras, 2019) & Harpia (Triluna,2020).

@linhanegra

Aline Cardoso.png

Poemas

anatomia poética


poeta é ave de rapina,
caça a alma
das palavras
faz de si viveiro,
poleiro, ninho.
apesar de o coração
habitar a gaiola
das costelas,
o verbo é um pacto sanguíneo
libertário & libertino,
almas livres rompem grilhões
ansiando leitores famintos
apetecidos pela opulência
orgiográfica de sua poética.

leitura


sorver as palavras
direto da fonte,
decifrar
língua à língua
o relevo braile
das papilas.

vítreo


estilhaça teus silêncios
com poesia,
junta teus cacos
em mosaicos,
canaliza a verve
no resvalar da língua
em versos vítreos:
escreve.

rapinas, peçonhas, escamas e fogo


toda mulher é selvagem
ainda que tentem silenciá-la,
toda gente nasceu de um ventre
não somos submissas,
não somos reservatórios,
apoios, muletas ou colunas
nós somos a revolução,
criamos o mundo e
todo o poder de escolha é nosso
ainda que os homens
escrevam leis e contratos
que nos digam não à liberdade
somos o próprio fogo,
posto que purificamos,
criamos, aquecemos
com a mesma voracidade
também destruiremos
suas estruturas sórdidas
este poema é uma prece,
afiem as garras,
inoculem suas peçonhas
assumam suas rapinas,
lustrem suas escamas e
incendeiem tudo.

Nêmesis


o deus dormiu
quando você nasceu
apenas eu recolhi
o teu corpo de dentro de mim
sussurro
para que te lembres:
o amor é arraia,
todo desejo cego é arpão.

 

Amanda K.

Paraíba - NE

Amanda K. nasceu em fevereiro de 1985 na cidade de Cajazeiras. É advogada e foi vencedora do Concurso Nacional de Contos e Poesia que marcou os 60 anos do Correio das Artes, na categoria contos, com a obra Cogumelos nascem no telhado. Vinis descascando pelas bordas, lançado em 2018, foi seu livro de estreia na poesia. Atualmente é colunista do jornal A União.

 

latitude: -6,9810938 / longitude: -38,582695

@amandacomk

Amanda K.png

Poemas

estico-me

nesse cabo de guerra

entre o êxtase

e a inércia

 

---

 

atravessamos a ponte

pra trás os relógios

as pressas pelo nada

talvez nem Oz arriscasse

um truque

onde tudo simplesmente é

 

---

 

nos dedos o incontrolável desejo

de percorrer teus vales

testa, sulcos

adentrar o lado oposto

invadir o campo magnético

traçar linhas, semicírculos

sem pressa

como o viajante de Kavafis

até que Ítaca se apresente

e fim.

---

 

medo

de um dia

de tanto apagar

a vida

ela se rasgue

---

 

enfim...

o rio desviou seu curso

o mar que arrebenta já não é o mesmo

mas as ondas...

continuam a bater forte

... e mais forte

arremessando

sem saber

do verde que resiste

nesse nascer e entardecer

de sóis

 

---

 

na radiola do meu avô

vejo a vida passar

em vinis

descascando

pelas bordas

 

---

 

insisto em cultivar

PACIÊNCIA

essa plantinha rasteira

que os bichos comem

quando estão empachados

 

---

 

dos passarinhos

que rondam a cabeça

botar na gaiola

do esquecimento.

 

Débora Gil Pantaleão

Paraíba - NE

Débora Gil Pantaleão (1989, João Pessoa/PB) é vegana, escritora, possui oito livros publicados, sendo quatro de poesia, um de contos, um romance e duas novelas. É editora na Escaleras, atuando também na área de Escrita Criativa através de oficinas e cursos de criação de histórias para a literatura e outras áreas. Além disso, é graduada, mestre e doutoranda em Letras, com foco em estudos literários.

 

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@deboragilpantaleao

Débora Gil Pantaleão_Foto por Bruna Dias

Poemas

vida de puta

 

minha vida está uma bagunça

há três pedaços de sabonete na saboneteira

me pergunto como isso é possível

na pia tem uma górda preta bem no ralo

há pó de incenso caído no chão perto da lixeira

é uma vida merda

há uma calcinha suja em cima da descarga

meus livros e apostilas estão empilhados

como se esperassem caixa

há dias não lavo os óculos

como ensinou minha falecida avó

alguns seres humanos querem trepar comigo

mas estou cansada

sou péssima em fazer sala

se paro de trabalhar quero a morte

a solidão dos motores que passam

na pista ao lado do meu prédio é insuportável

me pergunto como isso é possível

desejo morte para todos por pena

desejo vida para todos por pena

uma amiga me fala sobre compaixão

digo que sentimentos assim

destroem um eu lírico

na frente do palco todos me aplaudem de pé

uso salto 11,5

ninguém conhece meus segredos

 

 

Presságio

 

Presságio de que o mundo não vai acabar

De que o leite não vai derramar

E que ficaremos todos sãos e salvos

Dentro deste poema.

pontiaguda

 

sobre

não

achar

canto

na

vida

viver

sem

tecido

pássaro

 

 

lesbianidades

 

acolhidos

os

seios

enrijecem

em

línguas

farpas

mea

vulva

tua

vulva

echarpe

 

 

desmame

 

eu já não vivo mais em morte

embora ainda me doa o experimento

nestas novas formas que meu corpo cria

sobreviver de repente virou um tanto fácil

um preâmbulo que antecipa a vida

inalcançável

agora já um tanto fluida

já um tanto flácidas as rugas

dentro da efemeridade

que amo e que detesto

eu respiro o outro

eu respiro os outros

e suas cavernas

na escuridão tateio seios

já não há cidade

que sustente minhas pressas

 

Eliza Araújo

Paraíba - NE

Eliza Araújo é professora e escritora. Seu primeiro livro de poemas foi Segredo de Estado de Espírito (Editora LiteraCidade, 2014), o segundo, Lusco-fusco (Editora Escaleras, 2018) e o terceiro, não-foto de momento humano (Editora Escaleras, 2021). É doutora em Letras com foco em literatura afro-brasileira e afro-americana pela Universidade Federal da Paraíba.

 

@essaraujo

Eliza-Araújo.png

Poemas

[lembra: o mar]

 

não nos achamos nos idos dos anos 90

vimos os anos longe, mas debaixo do mesmo sol

as músicas marcaram momentos

            como cravos escavam madeiras

            mudar as formas foi te ter nos círculos

            e na memória afetivo-olfativa 

            da infância que agora chamo afã

 

os locutores de rádio

matavam nossas cuidadosas listas de música nas K7

com palavras descartáveis interrompendo o fade out das músicas –

eu vejo teu olhos nas fotos 

e  te amo porque me encontro

na tua desmedida maneira de amar os seus 

            voltar às origens

            e chorar com canções

 

você me viu navegar com amores que foram minha pele

não os compreendo agora, mas foram-se como os anos

e restou um corpo mudado

menos cabelos na cabeça

            e um torso que segura na boca do estômago as emoções

 

te encontrar te reencontrar te encontrar

é tipo ir de barco a Picãozinho

meter a cabeça entre os peixes e saber como respirar

            é estranho e divino

            que nossas saudades deságuem no mesmo lugar. 

 

 

naftalina doce

 

na terceira infância minha brincança era silêncio, não dança

os livros livravam dos gritos dissonantes da casa

goiabas vermelhas verdes duras eram razão de subir o pé

entre infância e afã caminho árido

pegar pegar    regra do pega pega

pular pular      regra do pula corda

o primeiro amor varanda

sempre teve dedos     dedos grossos pequenas unhas roídas

cutículas finas sobrancelhas unas

pegar pegar era um lúdico encostar nas suas costas

dormir entre lençóis compartilhados segredada maneira

de sentir o cheiro dos seus cabelos

nossas bocas se conheceram até que não – 

 

os estilhaços do meu coração recolho ainda

e olho o arranjo:

espelho turvo que é viver e reinventar os pedaços.

berço das avós 

 

te dei aquela canção de Nanã pra quando precisasse recorrer a ela

as mãos cálidas que desenham o sol na terra

podem desenhar linhas no asfalto arabescos no ar

 

viajar é criar rotas sobre rodas ou pés

e

nos pontos que embalam

segredos podem ser abertos ponta por ponta

como quem desencobre pacote quem

desentuca lençol ou rodopia e dança

 

Nanã velha e criança

dança ao som de naná

e as memórias que mateus revira

ecoam com as pessoas em mim que comungam

 

quando vieram

os navios mais que cortaram o mar errantes:

costuraram na espuma histórias que de tempos

em tempos nos levantaram

altos como os povos antes –

 

nas memórias desde a lama

nanã é mistério em gente

que mais que sabe, sente.

pureza

 

pelo menos duas vezes flagrei um sorriso de vovó

desses bobos, que se dá na ausência dos outros 

nesse dia descascava batatas pro purê do almoço

(isso foi antes de eu saber que descascar batatas fazia as mulheres escritoras terem que parar de escrever no século dezenove)

isto é, as mulheres escritoras brancas de que sei

isso e os filhos

 

morrison escrevia com os filhos e suas urgências de infância na sala

angelou num quarto de hotel sem quadros, triste como distinta cantora de blues

carolina não sei, mas imagino que entre panelas sem tampa machucadas pelo socador

lucinda sonhei, que entre os primeiros feixes de luz da manhã e os variados cheiros do amor

 

mas o fato é que vovó sorriu em silêncio

talvez uma memória lhe ocorreu e eu soube ali que éramos de breve parecença

o sorriso durou tempo o suficiente de eu fotografá-lo com meus grandes olhos infantis e saber

que guardaria a polaroid numa gaveta da memória a sete chaves 

para abri-la em sobressalto

agora

agora que nove anos que faz que ela se foi

 

até vovó sorria, eu penso

até mesmo ela achava um pouco de graça na vida

e não importa o quanto estivemos distantes em cômodos opostos

como se estivéssemos em opostos hemisférios:

foi ela que me abraçou selando o fim da minha primeira infância

e me chamou de pássaro

até hoje sei que estou de passagem disfarçada nesse corpo humano

e embora macia seja esta pele

ela é o envelope das penas

de um beija flor azul. 

 

 

sob natural

 

você fez tua matéria de gotas do atlântico

cruzar as ruas foi sempre caminhar sobre águas

rastros turvos de sem nome emoção

 

tem por magia a língua portuguesa

onde linhagens se perderam nas memórias distorcidas nos cânticos

diluídas nas fagulhas de papéis ao fogo quando nomes já haviam virado números

 

não foi possível negar os rios

desaparecer os navios da costa

colorir mais claro a pele das vindouras gerações

 

ter os pés no chão é bem dizer pertencer ao país de corpo inteiro

até que não mais nasçam crianças

que podem soltar as pipas, mas não os passos livres.

 

Jennifer Trajano

Paraíba - NE

Jennifer Trajano (1996) é paraibana, natural de João Pessoa, professora de língua portuguesa, revisora textual e autora do livro de poemas Latíbulos (Editora Escaleras, 2019). Já publicou em algumas antologias poéticas, a exemplo de Um girassol nos teus cabelos: poemas para Marielle Franco (2018) e Cult Antologia Poética #3: poemas para fazer o luto desse tempo (2020). 

 

latitude: -7,114345 / longitude: -34,8825587

@jennitrajano

Jennifer Trajano.png

Poemas

infinito

 

eras

de areia

marítima

a tua

superfície

de sal e

ternura

 

os teus

olhos:

abismos

e os

meus

abismados

a olhar

 

a

cor de

açude

banhando

o

negro

cercado

 

senti

focinho

de peixe

nadando

no meio de

meu corpo:

um tubarão

 

atravessa

as pedras

das pernas

e faz ciclo

no ato

de tapar

as guelras

 

é

peixe

que se

afoga

e

afaga

soltando

lodo

 

na

textura

dura

fazendo

escorrer

leite

em leito

 

eras de

estrela a

tua boca

via láctea

refletida

pelos

satélites

 

e eu

vestida

pela

nudez

descobri

a pele do

universo

construção

nos olhos da minha mente
há um basculante quebra

-do.
: criei lua e nuvem
misteriando sua beleza. 


na beleza observo

a infinitude celeste. 
no meio posso ver mitologias
e (ré)toco com os (dós)pés toda arquitetura.
fora há vidro escurecido 
que impede meu horizonte. 
: nele esclareço utopias. 

nos pés da minha mente

há um arquiteto mal pago. 
: ele quebra enigmas vendados

[de concreto]. 
na cabeça do arquiteto existe

um céu
de cachos labirínticos.


sol da lua projetado em cada canto
solu   ça: o vidro quebrado 
passou a vidrar seu coração. 
dentro dele há espelhos anoitecidos.
o arquiteto, ah...

é o abrigo de meu peito.
o mar que ar aqui é revestido de pulmões. 


dentro dum

pulmão um

poeta. 
no peixe que o habita, uma espinha: 
a poesia

 

 

cicatriz

 

uma escrava chora no tronco:

chibatada utópica do regresso 

 

grosso, morto, oco, tão eco

como o grito em alvoroço

 

do tigre que não cessa

no fundo do poço

 

Lua Lacerda

Paraíba - NE

Lua Lacerda Nasceu em Cajazeiras (PB) e mora em João Pessoa (PB), onde faz graduação em Jornalismo pela UFPB. Seu primeiro livro de poesia “redemunho”, foi publicado em 2020 pela editora UFPB.

latitude: -6,7833332 / longitude: -38,5

@lua.lac

Lua Lacerda.png

Poemas

velhos trópicos de ceci

 

todas las canciones de amor

entre duas pessoas são pequenas

nelas não cabem o sonho

não cabe a floresta

amazônica

 

me apaixonei

por um homem e o escrevi

una cancion de amor

depois, me apaixonei

por sua esposa

e os cômodos da casa

aumentaram as melodias

                então era isso, pensei, a dança

                rio purus, xingu e iça

 

quando chegamos na fronteira

era escampado e acampamos

onde os rios se encontram

na alegria de peri

 

mi lengua bailando

na tua boca, tua língua

en la patria de mi cuerpo

 

de nossos beijos diluvianos

jorra uma nova canção

sin banderas ni miedos

nacionales

 

somos todos esposas todas maridos

rio tapajós, rio japurá

---

quando perguntei

onde os teus olhos acham

poesia

 

você respondeu

que os livros na estante

são suas passagens aéreas

para o paraíso

 

então pensei

como são frágeis os poemas

que as traças podem

cegar

para raios

 

como os relâmpagos caem

nas montanhas do sertão

assim tua voz desaba

em mim

 

energia que acende

as cidades grandes

incontrolável saber

da terra

singelo manifesto

de luz

 

estica-se imenso som

em estrondosa felicidade

gosto que fales, muito

gosto que rias tão alto

capaz de acordar

a estrela Rigel

no ponto mais

alto do céu

 

velejas nos segredos

que as nossas mães

antigas constelações

guardam

 

és expansiva

porque dentro de ti

cabem os outros

que adormecem

na tranquilidade

se suas águas

dia santo

 

quando toco o rosto

preguiçoso desta manhã

torno-me água ou pedra

imóvel na minha arrogante

beleza 

 

há tempos desejo

uma manhã assim

em que o silêncio limpa

o batom vermelho

da minha boca seca

e destrona a vaidade

de ontem à noite

sem lamentar

as nódoas que o amor

deixou em minha pele

 

uma manhã

em que o silêncio escala

a janela do meu quarto

me encontra nua

e me acha bela

 

tantas coisas boas podem

nascer desta manhã

preciso que dure

para gestá-las 

e pari-las

 

até me dar conta

que este sol parado

em plena órbita

vai custar me tomar

outra vez

e sorrateiro se esvai

do esconderijo dentro

de mim - onde não há

nenhum satélite

 

esta manhã

deitou-se comigo

cheia de promessas

de acordos mundiais

para alcançarmos

a paz de espírito

mas mal acordou

já pôs a roupa e partiu

deixando-me na cama

humana em pleno

século xxi

 

agora estou insone

no leito da morte

peço-lhes volte, amante

e faças a guerra 

que tornará a terra 

o teu signo

 

temperatura basal

 

às vezes minha amiga e eu

gostamos de tocar siririca

juntas. nós ficamos

lado a lado sem tocar uma

na outra, apenas gemendo alto

e nos olhando direto nos olhos

até o calor explodir e derreter

os nossos dedos. quando

terminamos, sempre levantamos

e preparamos café para juntas

assistirmos a água borbulhando

 — como nossas bucetas úmidas

por baixo dos vestidos —

fervendo como se tivesse

nos visto

 

Luísa Gadelha

Paraíba - NE

Luísa Gadelha é graduada em Letras, mestra em Linguística pela Universidade Federal da Paraíba e doutoranda em Estudos Literários e Feministas pela Universidade do Porto. Servidora da UFPB, também escreve sobre literatura e é editora do site de poesia Zona da palavra. Tem poemas publicados em revistas brasileiras e portuguesas. 

 

latitude: -6,964668 / longitude: -34,8367503

@luisagadelha

Luísa Gadelha.png

Poemas

as madrugadas insones servem para guardar as roupas secas penduradas no varal lavar a louça acumulada do dia limpar a caixinha do gato - eventualmente acarinhá-lo um pouco ouvir o silêncio mudo que ronda a vizinhança alheia e adormecida e um grilinho aqui, outro acolá enquanto pensamos em todas as (des)esperanças e desesperos e esperas da bolha do mundo

 

---


incômodo com as minhas pestanas a minha avó, natural de areia, foi tida por muitos por oriental é que ela tem olhos pequenos como as gotinhas d’água que desenhamos na infância ou aquelas bolinhas de gude que costumávamos atirar — nunca aprendi este jogo os meus olhos já nem são puxados à moda asiática apenas diminutos e, onde se deveriam contemplar os cílios, apenas uns poucos fios, salpicados, sem tamanho nem volume – o que impede e ridiculariza qualquer tentativa de maquiagem este detalhe, contudo, não é o que mais me incomoda afinal nunca fui grande entusiasta de fantasias (exceto os devaneios oníricos) o embaraçoso é: será o meu olhar capaz de transmitir todo o sentimento do mundo?

---

ansiedade é a gente surrupiar toda a sensatez sugar o ceticismo se sabatinar, auto-sabotar serpentear por futuros absurdos e quem sabe possíveis, mas improváveis. suportar sozinha as situações sonhadas de desalento é desesperar no abismo insegurar nas possibilidades se saciar na insanidade.

---

O período mais duro Mais trôpego, mais triste, mais traste Foi aquele inverno nos jardins De Sophia de Mello Breyner Andresen Em que esqueci os instantes que vivi – e os que não vivi – Junto ao mar. O Porto era então todo cinza Todo cinzas Gélido, úmido, sufocante Tinha mesmo sido Um lar? E mesmo nos jardins De Sophia de Mello Breyner Andresen A trégua era só para um suspiro Um soluço, um sussurro Uma contemplação das roseiras já murchas Que um dia pertenceram a Sophia – agora já éramos íntimas, separadas apenas pelo tempo – Sophia que um dia disse: “O Porto é o lugar onde para mim começam todas as maravilhas e todas as angústias.”

---

 

animula vagula blandula (nos versos do imperador adriano): essa alminha errante completa hoje trinta e três voltas ao redor do sol (me perdoem os geocêntricos) trinta e três: a idade de cristo (me perdoem os céticos)
quatro, quase cinco renovações totais
de todas as células do meu corpo
(me perdoem os criacionistas)
33 primaveras de mentira,
(aliás, 30, porque 3 passei fora do país)
(e porque em joão pessoa não há estações do ano)
e, no entanto,
me pergunto o que resta daquela menina
que brincava de barbies
neste corpo quase irreconhecível
naquela menina que
teve uma infância
ordinária
trivial
e vulgar
como quase todas as outras meninas
em todos os lugares
e todas as épocas
me pergunto o que resta
de mim
neste estrangeiro
corpo
que deixa de responder,
lentamente,
aos meus comandos
que esbranquiça as poucas madeixas
que não caíram
que escurece o entorno dos olhos
contra minhas ordens de repouso e trégua
que transforma alguns órgãos
em pequenos invólucros
de sentimentos
uma carcaça carregando
frágeis saquinhos de
amores, esperança, mágoas
um pouquinho de inveja,
algumas frustrações e
borboletas, balões, docinhos açucarados
o saquinho do entusiasmo
infla, seca e retoma
num eterno ciclo
em sintonia com a respiração,
elevando os seus juízos e inventos
o coração, esse órgão preferido dos apaixonados,
não sei que assombros carrega
sei apenas que, dentro deste saquinho em particular
carrego vários outros saquinhos
daquelas e daqueles que passaram dentro mim
citando cummings:
i carry your heart with me
(i carry it with my heart)

 

Marília Valengo

Paraíba - NE

Marília Valengo é de João Pessoa, capital da Paraíba, mas mora há 5 anos na cidade de New York, Estados Unidos. Costuma dizer que tem um pé no Cariri e outro no mar. É redatora, estrategista de conteúdo e ultimamente, nômade. Publicou poemas nas versões digital e impressa da Revista Subversa e lançou seu primeiro livro de poesia, Grito em praça vazia, pela Editora 7 Letras em Outubro de 2020.

 

latitude: -7,3911147 / longitude: -36,532597

@mariliavalengo  

Marília Valengo.png

Poemas

bilhete de despedida

 

queria que você visse
a minha coleção de frases 

queria que você visse
o exato momento que o sol
lança um feixe de luz
sobre a porta da cozinha
de manhã muito cedo 


que você parasse
alguns minutos 

para ver o brinco de moça
florido no quintal
a força do amarelo

os pequenos animais 

que aparecem por causa dele

planejei te mostrar
o caminho que leva 

para a árvore mais antiga da redondeza

e sonhei com o momento 

em que iríamos sentar para assistir 

aos bichos voltando para o curral 

perto do sol se pôr


quis te levar na casa abandonada

quis dividir com você todos os barulhos 

por trás do maior silêncio da terra


queria que você entendesse 

que não precisa mergulhar mil léguas submarinas
basta perceber que flutuar é mais fácil 

do que se imagina.

 

 

então?

 

não faz a menor diferença
já que estamos sob o mesmo

 

sol

 

não pode haver distinção

porque nossos suores são compostos  

 

damesmaquímica  

 

também não existe distância maior, 

 

a    m   o                                      r      

 

quando o que está

entre

os nossos corpos 

 

é o mesmo

 

independente do ponto de vista

 

é o mar quem está agitado, não eu.

 

como as mulheres que conheço

quero descanso

 

e saber

 

com quem deixaremos os nossos filhos?

heróis também jogam golf

 

fico imaginando que todos se convidam
por bilhetes deixados embaixo
de copos que serão recolhidos

por garçons asseados em um salão

esterilizado que é para ninguém perceber

as nuances do clubismo e também de
outras facetas mais vulgares

do despeito

 

que faz com que em outros lares

inventem novas maneiras

de esconder tais bilhetes

nos buracos de muros rajados de balas

que serão recolhidos por mensageiros-passos-firmes

que é para ninguém perceber as nuances vulgares

do oportunismo

 

e enquanto nos desesperamos
com periódicos e cartas que não chegam
mãos se apertam

documentos são assinados

votos são recolhidos

e um sentimento de paz e democracia invade a todos

quando na verdade só há dois buracos onde podemos enfiar nossa esperança

e que tanto faz se dentro do gramado

ou dentro da parede

é a sofreguidão da palavra

relevância que nos assombrará no final.

 

Natália Luna

Paraíba - NE

Natália Luna é poeta, mulher, nordestina e é bacharela em Filosofia.

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Poemas

Corte

 

Sobre os espaços reticentes da comunicação

Que não são preenchidos nos muros pelas cidades

Só lamento que – palavra silêncio –


Vou cortar

Vou cortar o corte que me corta

Vou matá-lo

Com a adaga do silêncio

 

Vou deixar ressoar

do lado de lá da experiência

 

Os ocos que já não mais dão

Nem pra pé de côco.


Preenchendo os espaços vazios

Que deixam sobras

E os lugares estéreis com sombras

Que mais nada evocam.

 

E no fio fino da corda

Quando bamba e me corta

o tempo que rompe

No tempo que me balança

 

No relevo do entredicto

A contra-resposta.

 

 

Gozo fóssil

 

Por um fio

tudo que me prende

o laço

 

Por um fio

elã vital é o instante que precede

o gozo:

 

fino fosso,

esboço do gosto

de antever o rosto, a fissura e o frenesi

antes de tudo e de qualquer coisa

 

Sem esforço, fazendo morada do corpo


no indizível

revelando couraça

com as camadas expostas

sob um sol escaldante

de março

de primeira e última instância

pele sobre pele

e que a crueza nos vele

no amor e na destreza

ao menos

um pouso breve.

No além mar

Ele me mina, ele Ele

me ultrapassa no seu lusco fusco, holofote

Aceso da poesia.

Acesso e quanto excesso! Excedo quando escrevo

Sobre o vagueio

Ele me excede o aceso no acesso.

 

Ele quem

Quem do outro lado ao avesso

Se importaria, eu ou ele

Por tanto fogo aceso, livro aberto e palavra

Na migalha dos dedos

Do verso ou o espelho?

 

Palavra no colo

Livro ainda não escrito

Histórias nunca antes vistas

Luz altaneira acesa

Na distância mais longínqua

Que desperta a curió

Na beira da madrugada

E de que adiantaria a brevidade de uma planta

Sem um pouso dos pés?

Dentes

 

Tudo se molha num passar de fios com a ponta no pente

E a água que é mais astuta que a gente:

inundando dos pés ao pescoço

como se sentir fosse um caso

de só ir sentindo.

 

Como a gente,

o sentir na água

quando põe os pés

é caso sem meia-volta

tampouco se mede o tempo na água com a cronometragem

do esquecimento pelo fio do fim.

Veraneio

 

Esse si sem mim

Não existe

Esse em mim existe

Não em si

Mas com tudo a minha volta

 

Um bocejo secular

De tudo que veio antes

E que não está por trás da porta

 

Mas chega até mim feito maresia e sargaço amontoado

De tudo que um dia fizeram de mim

abortando os anos de vida

E me dando de presente

uma figa e uma liga

de esperança

 

Filtro de ecos e enganos

Para energia vital alguma se esgotar

E para que tudo não passe

De um plano de fuga

sem roteiro para morte alguma me alcançar.

 

 

Sobre o sono secular

 

De herança ganhei esse peso antes de dormir

Errática na vigília

 

Na casa dos sonhos para me convencer do palpável

Antes que se debande ao inefável

 

Medo com o futuro, de desprender essas amarras

E depois florir, sem ti

O que ele queria ou pretendia

Se viu num instante de sono uma recusa final?

Derradeira

 

Mas ele não deveria se cumprir de alvenaria

Antes do sol do meio-dia, como um pássaro leve

Se levantando ainda

Com dez passos na des

mesura.

 

Nymeria Ronan

Paraíba - NE

Nascida em Campina Grande, tem 28 anos, é poeta, estudante de Letras Espanhol e escreve desde a infância. Mulher trans, lançou em 2020 seu primeiro livro, Alma Grávida (Editora Escaleras).

@nymronan

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Poemas

Hora de agora nos pensando na borboleta como parque aquático levitador

Tu levita como bem entende

Ver a figura do karma numa agulha prestes a ...

Enforca o namorado ate desmaiar

Toma leite devagarinho

Arruma pra próxima lua cheia uma dor para ir ate a lua

Convidar lilith pros embalos de sábado à noite

Hora do antes: prazer já existi

Me esqueça ou ou adore

Chegou o momento

Quando chega

Aperta

Sobe

Prende

Gargareja

É tua oh

É tua pra depois ser escrita como una

Toda dor é um origami do causador ne ou nao e eu sei sei la

Chega mais

É verão os chatos gostam dele

Outros muitos chatos não acariciam a pegadinha da mamá morte no outono

Se for pra namorar

Será o tempo inteiro nua

Marcas da cama

Marcas de estrias

Marcas do peso corporal

Marcas da transa

Marcas invocação

Marcas da divisa entre esta nas estrelas e entre ser rede no mar

Nua o tempo todinho

Marcas minhas numa depressão ainda não escrita

A poesia mente oh carai

 

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Presta bem atenção em

Tá lá bem na nossa frente

Nosso encontro imitando

Passou maquiagem

Decorou nossa competição pelo último pedaço de qualquer torta..

Foi lá no centro espírita receber o passe falaram que estava pesada

Igualzinho a ti

Atenta a memória infestada de imaginação

no momento da meditação uma flor de lótus apareceu

ela sangrava

ela desmontava uma borboleta acima da minha cabeça

é todo o perigo de ser

é toda aquela jaula de não ser e fingir ser uma boneca de carne ossos respirações na carne,língua,saliva,respiração,ossos,cérebro

arritmia cardíaca

doenças da velhice

energias densas

narcisismo intensificado

fotos na parede..todos estão mortos

obsessores longa da vista

presta atenção

lacrimei muito esses dias

você brinca; precisamos conversar

a conversa não acontece

você guarda essa conversa como um guardião na porta do labirinto

que só se mexe pra pedir a garotinha um pouco do seu sorvete

( por que essa garotinha nunca cresce ?)

meu anjo da guarda ..meu animal totem ontem miaram do telhado

perguntei e levei miados de volta

prestei atenção

assumi que se tivesse arco e flechas atiraria em mim mesma

andaria com elas presas a mim

tomo café..ele mais me seca do que sacia

prestamos bastante atenção

os caras não nos deixam em paz

assobios olhares de nojo

lacrimei muito esses dias

antes socorro na esperança

antes o agora podia ir pro enforcamento

nunca sonhei com ventos

Os sonhos de vocês tem ventania ?

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essa encarnação de solidão te bota aos pés de qualquer ser que cria nuvens de chuva envolta de si mesmo

oremos excitadas

aquela freira jovem te chamou atenção

no confessionário

atrás dos santos

no momento que se arrependem dos sexos

leite azedou toma assim mesmo

achou mosca na manteiga

passa no pão assim mesmo

come

quase vomita

o bicho que o estômago é quase sai para fora

alguém liga

é número de fraude

você estava esperando um espírito

entidade

até mesmo alguém fingindo ser qualquer coisa

decepcionada

tenta desligar-se vendo receitas de doces que nunca vai tentar fazer

mesmo que digam; nunca é uma palavra forte

você sabe o quão forte é para nunca exercer o nunca

essa encarnação de solidão tira as cartas de tarot

fala da sua dependência

que suas raízes nascem numa forma de abraço bem bem apertado

quase estrangulando o espaço vazio

alguém vai entrar nesse espaço

comer geleia

dá chutes

deixar pegadas

defecar

cuspir

montar altares pro passado

e por fim

sem ser fim

pois pode continuar

queimará tu

nasce o anticristo das chamas roçando a bunda te tendo estilhaços

essa encarnação de solidão afoga-se propositalmente numa piscina pública idem praia esperando o salva vidas vir em câmera lenta ao resgate

é nossas expectativas hollywoodianas nada nossas te acalma em

 

Raquel Medeiros

Paraíba - NE

Raquel Medeiros é mulher paraibana residente em Olinda. Talvez seja poeta. Em 2021 datilografou, costurou e lançou sua primeira publicação independente, máquina, entre rede, cachorras e jibóias.

 

latitude: -7,1182104 / longitude: -34,9735134

@quelmedeiros7

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Poemas

lavanda


eu sei, sei que foi-se. foda-se.
não posso consertar o vaso do tempo, te pagar
um tratamento naquele filme do gondry.
já tomou cachaça ouvindo uma daquelas músicas
bem cafonas, de filme dos anos 80?
vem um trator que passa por cima de frente e
não contente, também passa de ré.
a cachaça e a música cafona. o trator.
a pessoa canta se partindo


I wanna know what love is
I want you to show me


não tem sentido. nada tem.
outra noite sonhei a gente numa praia
tu passando uns galhos de lavanda nas minhas costas
minha nudez de um pouco mais de um metro e meio de altura
horrorizava as senhoras que cobriam os olhos
das crianças recém caídas de montes de vênus
mais preocupadas com as ondas e suas piscinas
de um pouco mais de um metro de diâmetro

 

planta lavanda no meu peito
eu te pedia
e acordei.

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maria flamba
na cachaça melhora
e piora
como em qualquer
substância que tente
remediar.

o poder de algumas palavras

 

toda vez que eles trazem a palavra

estupro

uma mulher se contorce de dor

uma mulher implora que parem

uma mulher sufoca em silêncio

uma mulher grita de pavor

uma mulher soluça de medo

uma mulher cai fraca sobre as próprias pernas

uma mulher se lava com tanta força que fere

uma mulher se fere com tanta força que sangra

uma mulher não dorme

uma mulher não acorda

uma mulher agoniza

uma mulher morre

 

toda vez que eles ofertam a palavra

paz

nada acontece pois

não praticam.

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os ancestrais na montanha
pela certeza do lugar que ocupam
nos pés, um aviso
as pedras pressionadas
em volta do fogo
se roçam se estranham
se partem
na água se bebe e mergulha
se afoga do alto
se abisma
no coração da terra
sopra a dança que se anuncia
movimento ascendente
em cada uma das folhas das minhas
costelas
será que o tronco aguenta
aquela ventania no olho
do cavalo que levanta as patas dianteiras
nas firmes raízes do ventre do mundo?
os ancestrais na lua cheia
uivam onde a alma escuta
o umbigo é um vale
todo bicho é um ímã.


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mas quem se importa com poesia
no preço que a gasolina está
pra que serve alguma rima ou remo
se maria mal consegue
se equilibrar
na terra instável do ônibus sacode
vai e volta e nem sabe como voltar e ir
no outro dia o mesmo café preto
no oco do peito cansado da cabeça cheia
quem realmente se importa, maria?
de que adianta a poesia?
acabou o gás.

 

Tassyla Queiroga

Paraíba - NE

Poeta criada no sertão. Viajante inquieta. Dividida entre Literatura e Direito, com poemas publicados nas Revistas Garupa, Gueto, Diversos Afins e Ruído Manifesto. O primeiro livro de poemas se chama Sargaço, e foi publicado em 2019 pela Edições Macondo.

latitude: -6,761838 / longitude: -38,2326799

@tassylaqueiroga

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Poemas

azul

 

toda solidão é um domingo de tarde
sem vontade de recomeço
uma xícara vazia
em noite de insônia
que dança madrugada adentro
a lama depois da chuva
ou a criança quieta
no quintal atrás de casa
onde a árvore tem galhos secos
e nenhum pássaro repousa.

 

Quem pode dizer o que um homem é?

 

no primeiro mês da guerra civil espanhola
mataram logo García Lorca
na Andaluzia


morrer feito poeta abrindo portas
pelo prazer de poder
abri-las


nesses dias de guerra - que são todos
é necessário morrer mesmo
de costas


ou esperar com desejo pelo exílio
que é morte ainda
mas pouca


guardar boca, ouvidos, olhos, cílios
pra melhores cenários
fingir o susto


morrer como o romanceiro cigano
numa estrada sem futuro
e sentir alívio

 


umbigo do mundo

tomar com os próprios punhos
as rédeas,
como fazem os deuses da natureza.


graças aos elementos de força,
os templos do império inca
destruídos pelos católicos
resistem em ruínas de pedras.


não entendo o idioma quéchua,
mas acredito em Viracocha
Inti, Mamaquilla, Pachamama


e sigo em silêncio subindo montanhas
pra ver o sol nascer pelas brechas.

ponte

 

a angústia que sinto no inverno
veio do africano com banzo
sozinho no engenho
do lado errado do Atlântico


a nostalgia invade a chuva


mal chego na ponte
em Vila Nova de Gaia
já quero voltar pro Porto


cruzar o rio Douro é mudar de cidade


Portugal colonizou no meu peito
essa herança de sentir saudade
vontade de ir embora
sem nem saber pra onde

 

fronteira

 

atravessei a nado o oceano
com sargaço enroscado nas pernas
uma rede de pesca enrolada nos braços
pra desenhar no teu espinhaço
com a ponta da minha língua
uma declaração de suor e sal


meu bem, tanta água no caminho
e nós com essa sede de sertão