Adriana Gama de Araújo

Maranhão - NE

Adriana Gama de Araújo nasceu em São Luís. Poeta, editora e historiadora. Mestre em História pela UFRN. Professora da Rede Pública Estadual e Municipal. Vencedora, em 2017, do III Festival Poeme-se de Poesia Falada. Publicou, em 2018, pela Editora Penalux, seu primeiro livro de poesia, Mural de nuvens para dias de chuva. Publicou TRaNSiTo em 2019, seu mais recente livro, pela Olho D'água Edições. Tem poemas publicados em plataformas digitais como a Revista Revestrés e a Revista Caliban.

 

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Poemas

Criação

 

dos múltiplos significados da palavra

abandono, não gosto das traças na parede

crescem no vazio branco de pedra e cal

e nada mais se atreve

deito os olhos e esqueço

 

gosto do abandono que é destruição

gosto da casa que esconde sua alma sob os escombros

quando se afoga no próprio vômito

 

quando ouvi Al Berto dizer

que a impaciência com a poesia é idiotice

tinha na boca o mar

um abandono de azul, de ondas

senti o gosto enferrujado do sangue

e do sal.

Coisas que aprendi nos livros

 

quando sinto amor

ou desconfio

rapidamente me ponho

a dar voltas no quarteirão

correndo

 

quando não, enfio uma ponta

de lápis debaixo da unha

dá no mesmo.

 

Partitura 

 

atentar aos sinais

na descoberta de outro caminho

- mapa de mergulhar os pés -

dançar em mar aberto

 

: alcançar o leste.

 

p.s. antes que a ferrugem devore o barco

e a última página nos tire a sorte

abra as janelas

adiante há de nascer a terra

a selva nos teus olhos

o céu claro.

 

Jorgeana Braga

Maranhão - NE

Jorgeana Braga, escritora, poeta, professora de filosofia, faz parte do povo de terreiro, tem textos e poemas em diversas coletâneas e os seguintes livros publicados: janelas que escondem espíritos, A casa do sentido vermelho (prêmio Aluísio Azevedo), Cemitério de espumas (poesia adaptada ao teatro). Ainda por publicar:  Cerca viva, Sangrimê, Abololô: poema para caixa de fungos, Alecrins e txai Uirá. Atualmente trabalha num romance chamado Banzeiro Grande.

 

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@jorgeanabraga

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Poemas

Baía do arraial

atlântica aberta

chega nas águas

Num canto

Onde junta pedrinhas, concha e pena

De guará

O som da terra estalando

Quando o mar recua

Parece a borra de café das pretas

Q chegaram vivas às Américas

Olho para longe

O GPS não marca a costa dos escravos

Mergulho e descubro aqui em São Luís

O mar é  marrom de tanta pele negra por baixo

Poderíamos apenas estender as mãos

E afogar navios no boqueirão

Podíamos ao menos

Estender as mãos na beira do mar

Ao sol

Refrescar nosso corpos na baía do arraial

Ver São José como se vê um porto possível para velhas lembranças.

---

A sombra do trem

Na parede clara do quarto

O apito a leva embora

Soa longe como uma

Primeira

(g)estação

---

Saudade ė presente

Que se ausenta

Espelho é imagem

Invertida

Se mergulho no espelho

Encontro o contrário da distância

Num abraço

 

Lindevania Martins

Maranhão - NE

Lindevania Martins nasceu em Pinheiro-MA. É graduada em Direito com Mestrado em Cultura e Sociedade. Ex-delegada de polícia e defensora pública no setor da Mulher e População LGBT. Possui contos e poemas publicados em antologias e sites. Autora dos livros Anônimos (Prefeitura de São Luís, 2003), Zona de desconforto (Editora Benfazeja, 2018), Longe de mim (Sangre Editorial, 2019) e Fora dos trilhos (Ed. Venas Abiertas, 2019). Escreve no blog Catálogo de indisciplinas. Integra o coletivo Mulherio das Letras.

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Poemas

inventário

 

nem megera nem vaca

nem vira-lata sem classe ou bruxa na tapera

nem víbora ou puta de saia curta

nem sovaco peludo ou útero dócil

nem fóssil de Lucy ou Luiza

nem buraco fedido nem cheiro de peixe

nem o olho da sogra num feixe de espinhos

nem encarnação de Lilith

nem feminazi em fase kamikase

mas a origem do mundo.

 

 

rapunzel contemporânea 

 

Um homem de longe veio

salvar a moça  na torre:

— Rapunzel, atira-me as tranças.

O príncipe que veio te salvar sou eu.

Não tenho medo, criança.

Já matei vampiro, bruxa e dragão

com a lança que tenho na mão.

 

Uma voz de mulher ouviu,

bem atrás de suas costas:

— Obrigada, há tempos desci.

Matei vampiro, bruxa e dragão.

E com minha mordida até um escorpião.

Cortei os cabelos de cima

Não combina com esse clima.

Mas se faz questão de tranças,

vê o que dá para fazer com os cabelos daqui.

 

E sem mostrar vergonha, cerimônia ou insegurança,

ela deitou na relva macia

e mostrou-lhe  a buceta mais linda

e a mais peluda que havia.

para ler no front

 

(a Marielle Franco)

 

vinda de uma linhagem sufocada

te queriam subalterna

mas nunca abaixaste a cabeça

 

 

habitando um sexo vulnerável a abusos

te queriam muda

mas agora falas por mil bocas

 

 

fracassou

o plano

 

de varrer tua raça da face da terra

de apagar teu nome da memória das mulheres

de minar o futuro que plantaste

 

 

houve balas e estilhaços

mas continuas inteira

na lição que aprendemos:

para ser livre

é preciso enfrentar

o medo

que temos deles

e o medo

que eles têm de nós.

quando eu tinha medo

  

quando eu tinha medo

e não sabia

que Deus também o tinha

pregava pesados rosários nas paredes

espalhava santinhos com auréolas nas estantes

e sob meu travesseiro azul sempre punha

bolsa com água benta

punhal, não

 

quando eu tinha medo

e não sabia

que meus noturnos algozes também o tinham

embrulhava-me feito múmia

em lençóis quase sempre brancos demais

dormia com um olho fechado

o outro muito aberto

e rezava baixinho

para que amanhecesse logo

 

quando eu tinha medo

e não sabia

que todos também o tinham

alimentava a esperança

de que um dia

os fantasmas cansariam

da escuridão do meu armário

das sombras das árvores do meu jardim

                          e do vão sob minha cama

 

já se vão trinta anos

e hoje sei

que eles só se escondem

dentro de  armários escuros

nas sombras dos jardins

nos vãos sob as camas

porque sentem um medo mais miserável e mais amarelo

que aquele que experimentei

sempre tecendo inúteis fantasias

de que um dia

nos cansemos

de segregá-los

de amedrontá-los

de matá-los

 

dos fantasmas que matei

não guardo remorsos

uma ou outra faca

e nada mais.

 

 

maquinaria

 

sem referência

estamos sempre replicando

e o motivo porque precisamos replicar se apagou

replicamos porque é isso que fazemos há mais de cem anos

replicamos porque nos aproximamos dos nossos ancestrais

através do mesmo trabalho inútil e sem motivo

replicamos porque precisamos de uma tarefa

que nos ultrapasse e nos seja incompreensível

replicamos para que nossos bisnetos e trinetos

o façam quando já tivermos ido

replicamos para que através desses gestos automáticos

que os mergulham no meticuloso e no absurdo

possamos deixar de viver

para nos perder

no labirinto impreciso

da memória

 

Lúcia Santos

Maranhão - NE

Lúcia Santos nasceu em Arari- MA, em novembro de 1964. Publicou 5 livros de poesia: Quase azul quanto blue, Batom vermelho, Uma gueixa pra Bashô, Nu frontal com tarja e Quinta sinfonia. Foi premiada em alguns concursos e publicada em várias coletâneas. Como atriz, atuou em performances poéticas. Como letrista, possui inúmeras parcerias, algumas gravadas. Morou 10 anos em SP e atualmente reside em São Luís. Trabalha com oficinas de poesia falada. 

 

@lucia.santos.1257

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Poemas

tua língua em meu ouvido 

babel 

onde tudo faz sentido 

 

---

 

Ave (não-Eva)

 

e o que sou de poeta 

hoje me basta 

pra emergir do barro que tramou Deus 

já não tremo ao seduzir serpentes

Pouco Caso

 

Na hora do gozo 

tirou o pau da reta 

jogou o amor fora 

sem dó 

como se fora porra e só 

mero affair que não dura 

um dia dentro

---

 

entre-me 

alma corpo e membro 

como primavera namora setembro 

 

Luiza Cantanhêde

Maranhão - NE

Luiza Cantanhêde nasceu em Santa Inês (MA), mas reside em Teresina (PI). É membro-fundadora da Academia Piauiense de Poesia. Publicou pela Editora Penalux os livros de poesia: Palafitas (2016), Amanhã, serei uma flor insana (2018) e Pequeno ensaio amoroso (2019). Recebeu menção honrosa nos prêmios Vicente de Carvalho (2018) e Álvares de Azevedo (2019). Recebeu o prêmio Destaque Nordeste (2019), na categoria poesia. Tem poemas traduzidos para o italiano e para o espanhol.

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@luiza_cantanhede

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Poemas

A cabaça

 

Sou essa terra de chão batido

Esse sertão da língua de cinza

 

A fome alada, o Carcará

 

Sou esse deserto de poeiras

longínquas

Sou água na cabaça, o arame

Farpado, cercando o latifúndio

De sol e estrada

 

Sou esse fruto no avesso da

Terra plantada.

 

 

Treinamento

 

Na barriga da minha mãe

Eu andava pelo babaçuais

Do Maranhão

 

Não conhecia ainda a função

Do machado

O coco aberto e ferido

O azeite

 

Depois conheci a fome

E a lâmina.

 

Amazônia

 

De tempos em tempos

O espinho reconhece

A ferida

 

Vez em quando

O amor arranha

E se vai.

Ajuda-me a encontrar teu grito

 

Ajuda- me a encontrar o teu grito

Tua luz apagada

A vertigem de tua língua

Inalcançável

Ajuda-me a regar tua flor silvestre

Nesta orla feita de sol e primavera

Para mim, basta saber que me acolhes

Em teu voo migratório.

Quantos caminhos

Até encontrar em teus olhos

Um vestígio de eternidade?

Meus pés (trôpegos no tempo)

Perdidos, para refazer o caminho.

É preciso apagar as pegadas

Decodificar a trilha com a luz apagada

Olho-me no espelho e minha cara é de deboche,

Mas algum rasgo é de ignorância

Alguma linha tem algo de Frida

E da natureza morta no calo da vida.

Não creio nos tons amenos

Quando sinto fome.

 

 

Um poema quase

 

Não fosse esse gosto

De chumbo derretido

Na boca

A mão estendida

Humilhada e com fome

 

Não fosse esse chão duro

Os ossos duros de roer

 

Não fosse o corpo das

Marieles, Camillas

Arethas, Emiles

Das Tânias, Dandaras

Marias

 

Não fosse a miséria

No mapa dos continentes

Não fosse esse grito preso

Essa indignação

Essa impotência

(O silêncio que asfixia)

 

Eu diria que isto é quase

Um poema.