Bartira Dias

Ceará - NE

Bartira Dias é mãe de Inaiê e Dandara, nascida no Crato, região do Cariri. Artista caminhante, pedalante, performer, artivista e poeta. Vive em trânsito, dos interiores sertanejos às praias. Anarquista dançante e nômade. É doutora e mestra em Educação brasileira pela UFC. É também graduada em Ciências Sociais pela UECE, onde iniciou uma pesquisa sobre arte e loucura, culminando no livro Noor em Nós (2010). Faz parte dos coletivos artivistas feminista @xanasrecitamxanas e PARE (Provocação Artística Ritual Experimental). 

latitude: -3,7178227 / longitude: -38,5168111

@flor_da_arvore

@bartira_dias_performance

Bartira Dias.png

Poemas

Corvidecura


corpo vide bula. o uso desse medicamento pode causar excremento a quem procura. o excesso de ar em contato com a água enferruja. e no cio a máscara impede que gotículas atravessem tuas curvas. protege tuas palavras enquanto enfurna tuas asas

Vida empoeirada


não tem eira ou ense que me pertence
não há modo de vida que me insta
e não há família que me prenda ou sinta
aquilo que me esquenta em minha ode preferida
Perdi-me em cantos que não me assentam
em falas e mantras que exasperam
e se há algo que entope meus tímpanos
são vibrações de asas que chegam aos meus ouvidos
o que não faz tremer ou engelhar os dedos
segue baldio vira estacionamento.
atrevo-me ainda ao risco que me asas
mesmo em confinamento.

Funx trá

Traquitana
Traque traque
Traquina
Traque Ana
Tra tra
Trabalho
Trava
Ana
Traça
Trapo
Troca
Trevo
Tropa
Treino
Traça
Truque
Traque traque
Trouxe trouxa
Traquinou
Traquina Ana.

Entrededos


Pedaço
Pé d aço
Pedrada
Pé d radar
Percalços
Pé descalços
Pedido
Pé de ir
Percurso
Pé em curso
Pedalar
Pé d lar
Pra quem tem pé de aço, de pedrada desvia e mesmo descalço pode ir onde quer que o pé é d

lar…
 

Alguma conversa de bar em algum interior


Chifres
eis a dor de um comum
machista
e uma mulher vilipendiada
que segura uma relação
baseada
em cornos
como se vida fosse
um boi
pra cada vaca
e a briga que se faça
é só dar valor ax outrx
dentro da farsa.
Chifre
é só raiva de si
num pescoço não seu
porque aquelx que não é tu
sustenta o vazio do teu cu
é uma vaga cadastrada
a uma mão que é dada
a quem não se confia
o problema gira em torno
da lei do eterno retorno
beija o que tá morto
faz muito
por muito pouco
enquanto guerras se cruzam
naquilo que limita tempo e
vida pessoas se acusam
numa pífia e opressiva
boemia
carregando nas costas o
patriarcado abrindo mão do kula*
numa energia fecunda
que há entre o dar e o
receber. mas os cornos não se
dão
entre iguais...
e a quem cega para o lado
se sentindo mal amadx
só te digo uma coisa
vem que te tiro a roupa
e lambo tuas genitais
te deixando a voz já rouca
de tanto gozar pra ficar em
paz me empenho suavemente
para que fiques loucx
fora do ter
pra não ceder
ao que se dá
no interesse de...
só sirvo livre
para que te possas enxergar...

* Kula é uma espécie de troca que ocorre de forma intertribal praticada por comunidades no conjunto de ilhas que vão do norte ao leste e extremo oriental da Nova Guiné, onde estão incluídas as ilhas Trobiandes, estudadas por Malinowski (1884-1942) em Argonautas do Pacífico Ocidental: um relato do empreendimento e da aventura dos nativos nos arquipélagos de Nova Guiné e Melanésia (1978).

 

Érica Zíngano

Ceará - NE

Érica Zíngano (1980) nasceu em Fortaleza. É poeta e também trabalha com artes visuais e performance. Morou quase 8 anos na Europa e em 2019 decidiu voltar ao Brasil. Atualmente, faz doutorado em Letras da UFC, pesquisando Literatura Brasileira Contemporânea. Publicou alguns livros de poesia, como fio, fenda, falésia (2010), em colaboração com Renata Huber e Roberta Ferraz. Durante a pandemia se mudou para Aquiraz, primeira capital do Ceará. 

latitude: -3,7282447 / longitude: -38,5274399

@pagodepagu

érica zíngano.png

Poemas

nɐ badɛrnɐ ʒɛraw brazilêjrɐ 

 

“si  vc  viɛɾ  mi  pɛɦgũtá  pōɾ  õdʒi  ãdêj  

nu  tẽpu  ẽjŋ  q  vc  sõñavɐ

d  ɔλus  abɛɦtus  λi  dʒirêj

migi  êw  mi  dʒizispɛravɐ

sêj  q  assĩŋ       phalãdu      pẽsɐ

q  êssi  dʒizispêru  eh  mɔdɐ

dêsdʒi  sɛssẽtɐ  i  taw

mɐs  ãdu  mêzmu  dʒiskõtẽtchi

dʒizispêradamẽtchi

êw  gritu  ẽjŋ  pōɦtugêjs…”

 

êw   nũkɐ   vi     vc      assĩŋ           dêssi     ʒêjtu

vc    ɛrɐ      ŌWtrɐ      pêssōɐ    q    êw    kõñêçu

mɐs  êw  kõñêçu   vc   d   ŌWtrus   kaɦnavɐjs…

ɛrɐ  vc     êw   tẽñu  cêɦtêzɐ    êw  vi  vc  nakɛlɐ

Ãtchilôʒiɐ  du  Vinêgru   1ª  ed.  pʒ  33   rɛplɛtɐ

d   pōɛtɐs   du   nɛõbaratu   du   balaju   d   libɛɾ

Bacchus   batchizadus  pêlɐ  bẽçaum  du  grãdʒi

rêj du bar̄aku   Amiri  Barakɐ   Saravá   Ʒɔɦnaw

Tōskɐ d Saumpawlu  —17  d  ʒũñu  d  2013  vc

sakêō    ɛlɛgãtchimẽtchi    u   Awguxtu   dê  lōs

Kãpōs     bẽjŋ     nɐ   pɛgadɐ      ōλu    pōɾ    ōλu

ʒẽtchi  pōɾ  ʒẽtchi    i  dêpōjs   saiw   nɐ  mɔraw

mãdãdu      bê.s.Ō.s.     si  ligɐ     prɐ   galɛrɐ dɐ

ʒɛraw     kõ1mɐ   gar̄aphĩñɐ   d  pláxtchiku   dʒi-

bashō   du   braçu    plãtãdu   bãnãnêrɐ  ɔgũñêêê

êpar̄êjjj    ōkwê    arōōō   baxō   u   Bashō  kõɐs

mãdĩgêrɐ  q  dah  ɔrɐ  mãnu   eh  nójz  nɐ  phitɐ

i  Xãgō  nu  agōgō   PT   sawdaçõjs    #lulalivre

#elenaum   #elenunca   #elejamais    KOZMUS

u  vinêgrɐ    ʒah   dʒiriɐ   u  nɔssu   migi   Phabi-

Ʒânus  Sɔlaɾ  Kalyxtu  Rah   eh   rêsuwtadu  d 1

lõgíííssimu  prɔcɛssu  d  phɛɦmẽtaçaum  d subx-

tãcjaçõjs  vivɐs     êw  ãmu  vc    tudu  mtu  pês-

sōaw / mtu  trãzi  trãscẽdẽTAO    —18  d  ʒũñu

d  2013        ateh   u    prɛssẽtchimẽtu    mɛmẽtu

mɔri   tãmu  ʒagwaɦdãdu  majɔris  ĩphɔɦmaçõjs

kõpaɦtchiλɐ   karaλu   kõpaɦtchiλɐ    ɐ   pōlí$jɐ

du   Riu   ʒōgō    $  p  r  a  y    d    p  i  m  ẽ  t  ɐ

nɐ   karɐ   dɐ   Liv    ɐ   L i v   L a g  e  r  b l ɐ d

akɛlɐ  pōɛtɐ  kariɔkɐ  akabō  d  saiɾ  tah nɐ kapɐ

du  Niw$  Yɔrk  Taimi$  brêziw  pɛppɛɾ  pōli$ə

ĩphêjmus  phōtō  karaaaλλλuuuu  q  pōr̄ɐ  eh  ɛs-

sɐ  bixu   tah   tẽsu   tãmu   sẽjŋ   prɛgá   u   ōλu

há + d 1mɐ  sêmãnɐ  aki  u  phuzu  õnōrárju tah

phɔdɐ  nɐ étɛɦnau  ɔphiciaw  kapitaw du Lusku-

Phusku   Ĩpɛrium   Kɔlõniaw    Lisbõ  Rêvizitəd

eh kōmu si issu   i nadɐ   phōssi ɐ mêɦmɐ kōjzɐ

q eh q êw tō phazẽdu  aki  meɦmaum?  pōɾ diós

mê  siẽtō   muy   dêzubikadɐ   nĩgwéjŋ  pêɦdêw

nẽñ1  ōλu   aki   si   naum  phōssi  pêlɐs  mẽs@-

ʒêjŋs   q  phaziãw̃  u  mũdu  parêsêɾ   1   pōku  +

RɛAW      nẽjŋ sêj       p/  us  q  taum  aléjŋ-maɾ

tãmu  ʒũtu  ɐ  cidadʒi  d  Phuxtalêzɐ  phōj  1mɐ

dɐs +  radikɐjs   manyphɛxtaçõjs   tẽñu 1 karĩñu

imẽsu  pêlɐs  tɛr̄ɐs du  Siará  u  mêw  avō  eh  d

Tawá  tah ligadɐ  n1ma pōɛtɐ  xãmadɐ  Phrãcis-

kɐ Klōtchiwdʒi?  ɛlɐ  eh  d  lah  1mɐ  primɐ  dɐ

mĩñɐ  mãjŋ  eh   biógraphɐ  dɛssɐ  pōɛtɐ  dɐ  pɛ-

zadʒíssimɐ  lutavɐ   pêlus   dʒirêjtus   dɐ  muλɛɾ

i  dus  êskravus    abɛɦtamẽtchi     nu  sék.  XIX

VIV@!    —20  d  ʒũñu  d  2013   êw   nũkɐ   vi

vc   assĩŋ      dêssi   ʒêjtu        d  kaɦni  i  ōssu  i

pêlus    u  mêw  pẽsamẽtu  tẽjŋ   ɐ   kɔɾ  d  sêws

kabêlus     i   sêws   ɔλus   mtu   vivus   u   mêlō

dus  kõpãñêrus   “vō  vuá  prá  pawlix-tá-tá   kõ

1mɐ  bɔlɐ  d  bêxi-gá-gá   nɐ   mĩñɐ   bar̄i-gá-gá

grrrrrrÁVIDU   d   L u i z    K a ɦ l ɔ s    P r ɛ x-

t c h i s”   nɔssus   kɔɦpus    kõnɛktêtadus    24h

pōɾ  dʒiɐ   tɛlɐ  sẽsívêw   tɔkãdu    us   sẽtchidus

tɔkãdu  d   phɔrɐ   p/   dẽtru    dẽtru   atualizãdu

phɔrɐ  manyphɛxtaçõjs mêmiphɛxtaçõjs money-

fɛxtaçõj$      êw  sẽpri  ãmêj  vc     vc   ɛrɐ   mtɐ

ʒẽtchi  ʒũtu   vc  i  sêws  pōêmɐs  dakɛlɐ  épōkɐ

êw  mi  lẽbru  du  sêw  ‘stchylu   pixu   viɦtuaw

ɐ  ʒẽtchi ‘scrêviɐ ʒũtu  nu  Phéikbuknew$  ɐ  ʒẽ-

tchi   ɛrɐ   bẽjŋ   +   xɔvẽjŋ   du   q  us  nɔssus  i-

dêɐjs    ɐ  ʒẽtchi   aĩdɐ   tchĩñɐ   awg1mɐ   krẽçɐ

soh  q  d   ŌWtru    ʒêjtu   ɐ    ʒẽtchi   tavɐ  cêlê-

brãdu   ɐ   “Я”êvōLUçaum   pêlɐ  1ª  vêjz   nójz

tōdxs   phazẽmus   paɦtchi   dʒissu   pōɾ   várjus

mêjus      i   açõjs       i   pẽsamẽtus        i   vibra-

çõjs    i   ẽmãnaçõjs    kōjzɐ  +  lĩdɐ   q   ʒah   vi

vivi  nɐ  mĩñɐ  vi dɐ   ɐ   ʒẽtchi   axavɐ  q  ɛrɐ  ɐ

“Я”êVŌluçaum     Laivi    Strimĩŋ    nu   Phéici-

bullỹĩŋ   idʒiɔtɐs   neh    issu   sẽjŋ   nẽjŋ   phalá

dɐ  ĩvazaum  dɐs  pãnɛladɐ    durãtchi  i  dêpōjs

pōɾ   mtu   tẽpu    q   mɛɦdɐ    eh  klaru  q  nój$

phōmu$   ẽjŋgãnadu$     20   $ẽtavu$   eh  u  ka-

raλu  ōw  vc  Rɛawmẽtchi  axɐ  q  1 dʒiɐ  naum

vãmu   +   têɾ   q   pagá   pêlu   Públikum   Trãs-

pɔɦtchi?    kɛru   tōdu   mêw   dʒĩñêru  d  vɔwtɐ

$ĩ$ɛramẽtchi  eh  mɛλɔɾ   Riɾ   prá   naum  Xɔrá

us kaxōr̄us tẽjŋ ŌWtrus sêxtus  sẽtchidus mêws

amigus  dêvíãmus kõphiá + nus nɔssus  ãnimɐjs

nōtuɦnus  ɐ  ótchimɐ  vêjz  q  bẽjŋ tchi vi  Witz-

raɛw  vc  tavɐ  vêxtchĩdu  ɐ karɐphuçɐ d Dêjvid

Tʰurōw    i   êw     kōmu  Abutri   Kɔɾ   d   Rɔzɐ

krujz  alucinóʒênɐ  nɐ  ẽtruziλadɐ  d  Ãtchígone

d  Sóphɔklis   Ãti-   Ãti-   Ãti-   Phaxisti   êziʒiɐ

u dʒirêjtu d ẽjŋtɛr̄á  mêws  phãmilliaris  mɔɦtus

mêw  sõñu  ɛrɐ  sōbri  issu  tãbéjŋ  à  prɔkurɐ  d

1  pōɛtɐ  q   dizaparêcêw   1  livru   mêw    bẽjŋ

ãtchigu   êw  viɐ  ɐ  kapɐ   ɛrɐ  ‘strãñu  êw  nẽjŋ

sabiɐ  q  êw  tchĩñɐ  ‘skritu  1  livru  q  si  xãma-

vɐ  ar̄ōjz   vc  ōλō  prá  mĩŋ  i  dʒissi   ã-rɐ̃  nójz

2   mêw  ẽtaum   dizaparêcêw  u  pōɛtɐ   dizapa-

rêcêw  ɐ  pōêziɐ?   mi  pɛrgũtu  êw   prá   kwẽjŋ

jah  dissi  q  u  pōɛtɐ  ẽjŋ  tɛzi  maw êzistchi  tu-

du   ɛrɐ   kuwpɐ   dɐ   pōêziɐ   êw  gɔxtariɐ  mtu

d  têɾ  u  pōdêɾ  d  lêɾ  tōdɐs  ɐs  suɐs  vidɐs  pas-

sadɐs   sẽjŋ  passá  u  pãnu   nɐs  suɐs  pōssívêjs

trêtɐs   tẽtá  saká  u  sêw  rōlê  zẽjŋ  kõa  pōêziɐ

nɔssɐ  d  tōdu dʒiɐ  kõtãdu  ɐ  paɦtchiɾ  d  agɔrɐ

ẽkwãtu   êw   ẽjŋgōmu  ɐ   kalçɐ   du  sêw  ladu

ẽkwãtu   vc  kãmĩñɐ   pōɾ   aih  +  pɛɦtu  d  mĩŋ

+  vivu du  q  nũkɐ

"hoje de manhã
saí pra comprar pão..."

 

03 poemas da série (ainda inacabada) "o buraco é mais embaixo" a partir da camiseta "Buceta !" da artista pernambucana marie carangi a.k.a. teta lírica

 

hoje de manhã

saí pra comprar pão

a padaria turca

embaixo da minha casa

tava fechada

a segunda opção

mais perto da minha casa

é o supermercado bio

bio company

vende pão francês

fresquinho

todos os dias

menos domingos

e feriados

mas é meio caro

é caro mas é bom

é bom mas é caro

fazer o quê?

não devia estar na bíblia

deveria estar na declaração

universal dos direitos

humanos

nem só de pão vive o homem

mas todo ser humano tem

deveria ter por direito

o direito de comer pão

todos os dias

pelo menos

uma vez por dia

tenho dito e dou fé

 

--- 

 

hoje de manhã

saí pra comprar pão

saí com a minha camiseta

nova

que comprei da marie

a carangi

a teta lírica

eu dormi com ela

eu acordei com ela

não com a teta

ou sua buceta

só com a camiseta

mesmo

é uma camiseta branca

normal basicona

a única coisa de especial

que ela tem

se é que podemos falar

assim

é a palavra Buceta !

escrita em vermelho vivo

técnica silk screen

com letra maiúscula no começo

e ponto de exclamação

no final

 

--- 

 

hoje de manhã

saí pra comprar pão

qualquer coincidência

é uma mera coincidência

mas não existe coincidência

todxs nós sabemos

pode existir conspiração

armação muita falação

climão ou até a grávida

de taubaté grávida

do ET de varginha

mozaum plissss #elenaum neh

só que coincidência

mesmo

daquelas que deixam a gente

assim

de cara

de cabelo em pé

eu duvido muito

assim sendo

conjecturemos

como a Buceta ! é vermelha

quer dizer

como a Buceta ! tá escrita

em letras bemmm vermelhas

quer dizer que

ela é uma buceta comunista?

ou é uma buceta gayzista?

é uma buceta trabalhadora?

do partido dos trabalhadores?

ou é daquela seita demoníaca?

o MTST? o MST?

ela é uma buceta cubana?

ou venezuelana?

é uma buceta americana?

ou é uma buceta marciana?

é mesmo uma buceta?

uma buceta de verdade?

ou é daquelas que a gente

só vê na tv?

tem pra vender na 25?

posso pagar no cartão?

porque ela é vermelha

quer dizer que

ela tá menstruada?

ou é uma buceta coaptada?

é uma buceta do bradesco?

ou paga mó pau pro santander?

ainda é uma buceta pública?

ou já foi privatizada?

é uma buceta comprometida?

ou é uma buceta vendida?

ela já se deu por vencida?

ou é super engajada?

ela tá na luta armada?

ou pertençe às forças armadas?

ela é uma buceta fascista?

ou é daquelas fashionista?

encapuzada? ou militarizada?

ela é do tipo neo-liberal total?

libera geral libera geral

então libera...

ou é uma buceta pudica?

ela é uma buceta falsiane?

ou fica só fazendo charme

te cozinhando no banho-maria?

ela tá te dando mole?

ou fica só se fingindo de diíficl

fazendo jogo duro

do tipo prova de atletismo

salto com vara corrida

de obstáculos arremesso

de peso o caralho a quatro?

o que é mesmo uma buceta?

pra que que serve então?

você pode me explicar melhor?

tá com medo de quê?

é pra vê ou pra comê?

 

Ma Njanu

Ceará - NE

Ma Njanu é poeta, artista visual e educadora cearense. Faz parte da Pretarau - Sarau das pretas, coletiva de artistas negras de Fortaleza e região metropolitana; e da Rede de Mulheres Negras do Ceará. Sua criação artística é desenvolvida através de narrativas que envolvam memória subjetiva-individual coletiva, trauma e cura, celebração de saberes tradicionais do terreiro do candomblé. Publicou a zine na boca do dragão da américa latina e olho de tigre com fome: considerações sobre a literatura perversa (2020).

latitude: -3,8003322 / longitude: -38,5938517

@ma_njanu

Ma Njanu.png

Poemas

“em momentos isolados lembro de você e como me encarava de forma provocante e sedutora, parece que saía um fogo daqueles olhos”

e já me deixava quente.

 

---

 

nos seus zoi um mói de lava

                          arde arde arde     cava

um pouco mais

ni mim
 

tem mais daqui

de onde essa onça vem

é só deixar o mar cair

                     cai cai cai     ai assim

sem pressa devagar

eu digo     pode vim

 

balanço balança espada

te mato bem rápido

tu canta    descansa

depois do dengo

           de novo de novo de novo

um pouco mais

ni mim


---

 

tuas mãos são para o vulcão como eu sou uma aula de dança. minha zanga,

noutro planeta não te chamaria assim todavia você foge

na beira do penhasco pomo que não alcanço

se precipício some, fantasma da pedra da mala

cada fio branco adianta próxima etapa. mas

num verso sei alucinar o tempo, cariño

me tome

cada espaço se desliza você e minhas costas têm história há tantos anos

dançados nossos pés cantam pedra esse velho reggae

nossa juventude como uma gana

um terremoto

entendo que te assusta, mas eu gosto de cair.

esse jeito de comer como eu te deixo quente

é meu avesso refletido em ti

se viçosa fosse mais perto não haveria demora

enlouqueceria menos

porque sinto falta do teu jeito de arder

quando chegava perto

do meu queixo

e todo dorso deste corpo castanho.

---

 

agora tudo que eu queria mesmo era gemer.

alto como a sirene na avenida

alto como a música da vizinha

gemer forte tipo um urro desembestado

feito grito like a barraco

não um urro só.

dois ou três seguidos

 

mas era tão mais fácil a noite!

quando me deitava com alguém qualquer que eu não soubesse o nome

nem me importasse cheiro número de telefone

se fazia gostoso ou tinha malícia

em toda cena. ali gemer era fichinha

porque estava permitido.     afinal meu corpo

foi feito pra isso:

 

a analquia do amor.      consciente e

deliberada

 

mas na minha própria cama ou num cômodo homoerótico da casa

de dor eu não consigo.    tá oco    não sai

cada pontada e peso eu vivo em silêncio

 

aprendi amor muito cedo nos bares

nos carnavais

de dor eu não entendo

sou forte.        aguento

 

sei fingir bem.

 

---

para ana

 

ela me disse     'eles te querem calada para definir quem você é
imediato pensei no real    esse algo após o terrível trauma
diante do qual cessam todas as palavras e não é possível reagir

porque o corpo fracassa se
curva

essa inércia
   e silêncio

quando ana diz.    tudo doi    se vejo seus olhos esbugalhados e a imagem fixada
na memória do tio bêbado por cima de nós
choro.

como se não tivesse mais ninguém
mas ela se afasta não me quer

                é perigosa esta solidão, querida
um rompimento assim tão forte
nos marca    para sempre e
não há medida

volto a querê-la ainda mais.

 

Mika Andrade

Ceará - NE

É poeta. Publicou poemas obsessivos (2017) de forma independente. Organizou a antologia erótica de poetas cearenses O Olho de Lilith (Selo Ferina, 2019). Tem seus textos publicados em sites, zines e antologias. Integra a coletiva de artistas negras Pretarau - Sarau das Pretas. colabora pros sites LiteraturaBr e Bora Cronicar.

 

@mikaandrade__

Mika Andrade.png

Poemas

Somos colecionáveis

 

somos comestíveis

mulheres-comestíveis

eles comem

 

somos bonecas

bonecas infláveis

eles metem

 

somos propriedades

mulheres-bibelô

eles exibem

 

somos objetos

mulheres objetos

eles quebram

 

somos humanas

mulheres-gente

eles matam

 

 

A madrugada devora a mulher

 

i.

 

ter os olhos ardentes

                     de sono

                     de cansaço

                     de fracasso

e precisar persistir e

precisar mantê-los

                     abertos

 

ii.

 

a boca da madrugada devora

rasga a carne

estraçalha os sonhos

 

iii.

 

a lua 

cai

inclinada

sobre

a minha

escrita

e

põe-se no papel a brilhar 

 

iv.

 

no meu desvario

uma voz tende a me questionar:

 

quem prendeu Ismália na torre?

por que ela enlouqueceu?

 

sou poeta? sou poeta? sou poeta?

Busca

 

mergulho num mar

de memórias 

submersas

 

em busca de

origens afogadas

 

desse naufrágio 

que parece irreversível 

 

não encontro minhas pares

a nadar para a praia

 

vejo minha face perdida

e mais nada

 

Resquício 

 

fuligem do dia

diminutas partículas

o assombro do vestígio 

oriundo das perdas

que queima aqui dentro

 

Soltar um poema

 

como soltar um poema

que está preso no peito?

 

como revelar um poema

que é a imagem de uma lembrança

amarrada na memória?

 

como escrever um poema depois do agora?

 

Nádia Camuça

Ceará - NE

É atriz, arte-educadora, escritora e produtora cultural. É natural de Fortaleza e licenciada em Teatro pelo IFCE. Atua no cenário artístico da cidade desde 2013, tendo participado de curtas-metragens e espetáculos teatrais. Atualmente pesquisa a relação entre teatro e literatura e mantém o projeto As Vírgulas em plataformas digitais, em que se debruça sobre diversas linguagens artísticas.

 

latitude: -3,7443675 / longitude: -38,5360525

@nadia.camuca

Nádia Camuça.png

Poemas

Hilda foi vista pela última vez levando no peito

1705 poemas

sem ninguém saber o peso

arranjando um transporte para atravessar os dias

entrando em escritórios e salas de aula

os poemas zumbindo na cabeça

eles nunca se calavam

não saiam de seu corpo.

Hilda, às vezes,

deixava os poemas na cabeceira

com recomendações para que descansassem

até a sua volta.

Um dia Hilda disse

“estou entregando o cargo/ onde é que assino”

pegou o trem

e começou a fazer malabares no sinal.

Hilda andava equilibrando nos ombros poemas

que escorriam por suas costas como lavas de vulcão.

Hilda suspendia as nuvens pelos dedos

busquei-a em desertos mexicanos.

Como pista,

ela deixou apenas dois poemas em minhas mãos,

como balas que me protegiam

de qualquer perigo.

 

o que você quis dizer com eu não deveria gritar?

uma mulher com convicções

pode ser uma pedra enorme no seu sapato ou um muro,

e você vai bater de frente com ela e vai quebrar a cara.

há muito tempo parei de me importar com o choro dos hipócritas

e não peço mais desculpas pelo meu útero sangrar todo mês

ou ter uma vagina peluda falante

ambulantemente falante

absurdamente falante

dizendo coisas cabeludas

para os seus ouvidos entupidos de cera

quente

tenho pelos encravados

e quando eu grito eles soltam dos poros

por isso preciso gritar com frequência

pelo encravado causa tumor.

um olho azul dourado no sol brilha

um olho azul nas sombras derrete

um olho azul trôpego e morto destila seu ódio

como olhar no rosto

como bater com a cabeça

no muro e não estourar o crânio

faço tudo para continuar viva

me firo

dou um tiro

corto a garganta

escrevo esse poema

 

Van Gogh em minha frente

são suas mãos famintas que me conduzem por

campos azulados

vi seus olhos santos abrindo em mim destinos

esquecidos

dançamos juntos naquele céu

e nosso riso gravado em tintas

a mais bela das paisagens

 

quando leres as linhas do meu destino

dançar uma valsa comigo;

escorrer entre minhas pernas

teu corpo líquido

e uma luz rouca tocar meus olhos

quando incendiar minha pele com este fogo

abandonado

 

Nina Rizzi

Ceará - NE

Nina Rizzi é escritora, tradutora, pesquisadora, professora e editora; promove o Escreva como uma mulher: laboratório de escrita criativa com mulheres. Autora de Tambores pra n’zingaA duração do desertoGeografia dos ossosQuando vieres ver um banzo cor de fogo Sereia no copo d’água. Vive em Fortaleza, no Ceará, onde integra as coletivas Pretarau - Sarau Das Pretas e Sarau da B1. 

 

@ninaarizzi

Nina Rizzi.png

Poemas

Das vezes que me tornei branca

 

da primeira vez

não dei por isto ou aquilo

uma pá de cal

tão branquinha

atirada pelas criancinhas

como flecha

cabelo de repolho bozo

esquisita suja fedida

 

e a vez de querer muito muito forte

esfregar o tijolo na cara até a carne se saber a sangue

sangue azul sangue branco

 

cresce cresce cresce

 

nove aninhos

ai ai ai

que peitinhos mais lindinhos

ai ai ai

que bunda tão grande como pode sem celulite

ai ai ai

já pode aprender usar a boca

ai ai ai

que virgindade mais apertada

ai ai ai

que mulatinha tão gostosa

ai ai ai

você é tão inteligente pra sua idade

ai ai ai

 

pode pode pode

você quer leitinho?

olha que branquinho

 

cresce cresce cresce

 

as vielas na periferia

o campinho de futebol

a goela seca

 

não cotas não

sim samba sim

sim chapinha sim

não raiva não

 

cresce cresce cresce

 

oi amiga

não hoje não

oi joana

sim hoje sim

 

uma luta maior que a outra

uma lata mais vã que a outra

bares caçambas papel picado absorvente

 

cresce cresce cresce

 

NOTÍCIA DE JORNAL

hoje na jornada de arte negra

a poeta x

a novíssima literatura negra

pra ser lida nas escolas

 

SOU NEGRA

SOU NEGRA?

SOU NEGRA!

 

cresce cresce cresce

 

os beiços imensos roxos

os bicos dos peitos pretos

o pixaim armado

a vulva roxa

os bisavós escravizados

o avô fugido da servidão

uma avó tão branca

 

neta de quem?

 

se me querem por fêmea

NEGRA

se me querem por intelectual

MULHER?

se me querem por profissional

HETEROCISGÊNERA

se me querem por escritora

BRANCA

se me querem

COSPEM OS LÁBIOS LIVRES

 

cresce cresce cresce

 

o homenzinho violenta a mulher

digo porque sim ela é mulher

ele diz ninguém estava dentro do quarto

sou negro sou negro você é racista

poetisazinha de versos de merda

 

e ainda uma índia a voar

paloma negra

 

PELOS ARES COM SEUS SANGUE PODRE

 

cresce cresce cresce

 

da múltipla vez

não dei por mim

estava a gaguejar um verso que me martela

TERESA TERESA TERESA

uma avó esquecida de tão negra

um poema tão macho um poema tão arraigadinho

que qualquer poema só sabe dar bandeira

 

a filhinha chora

meus beiços meus pelos meus cabelos meus peitinhos minha história

e essa maldita pele tão branca

 

a poeta x negra é invisível pra todos os machos

a poeta lésbica branca é alvejada por todos os machos

a poeta gorda trans é batida por todos os machos

as mulheres gordas são odiadas por todas as instâncias

as mulheres trans são odiadas por todas as gentes

ó por todas as feministas

 

da última vez

disse sim

 

mulher

mulher negra coberta das poemas mais ternas das poemas mais raivosas das poemas mais poemas porque sim eu quis assim

a poeta negra

A IMENSA POETA NEGRÍSSIMA

e danço um tango com você

 

eu li nas tls do mundo que mazombos e mazombas

acham bem normal um estupro, que as mina tão se entregando

assim facim facim

e eu lembro que os afegãos estupram mulheres de burca

porque elas exageram no kajal e rímel

eu ouço que uma menina de 8 dá rindo o que eu não dou chorando.

 

tenho vontade de vomitar enquanto olho o vão do metrô que nunca vai chegar.

não sai nos jornais, inúmeras gentes - essas mulherzinhas também -

se jogam ali todos os dias.

eu não vomito. hoje é aniversário da maria e quero enfeitar seu corpo

de flores, de cheiros e uivos.

 

toda vez que penso na maria tenho vontade de chorar.

eu perdoo o mito da superioridade de kipling. perdoo o esquerdismo do ggm.

eu perdoo o oportunismo dos poetas do meu tempo.

você, peço licença ao seu pai exú, te perdoo não.

não engulo a sua arte e te mataria por isso,

sr. polanski, sr. brando, sr. aleijadinho.

 

penso nas normalidades desses senhores

 

ela se insinua

é pelo cinema, é por amor

por deus, deixe - viver a vida

 

ora, uma maria assim tão dada

uma maria assim tão nua

uma maria assim com virgindade tão apertada

 

uma maria como todas as outras, pronta pra violação.

 

maria, seus olhos imensos duas amêndoas me comovem.

sei que não sei dar amor a quem me estende a mão

eu amo o feio e a deformação

mas olha, você me olha

e eu só quero encher seu corpo das flores mais lindas

 

eu te amo maria

seu território também é meu

seu silêncio também é meu

amo você todos olhos moles, todas as marias violadas,

anônimas.

---

 

estou numa lã-rause;

andei procurando cartão de telefone

e não encontrei nenhuma banca (no centro)

vou ficar por aqui cerca de 40-45 minutos.

 

passei um final de semana péssimo;

bateu-me uma tristeza (melancolia, pra você)

tão braba que nem passei na locadora

pra devolver "o passado". braba mesmo

não só por sua ausência. por tudo.

o muro e a comida cada vez mais cara.

 

não encontrar a banca e não ler os jornais

é um prémio de consolação, divide comigo.

 

como vc está (acabo de descobrir que

a tecla da "interrogação" não está funcionando).

como foi em canindé [int.].

como foi o seu dia ontem [int.].

como está o sexo [int.].

tanta vontade ainda de te abrir a flor

te cheirar e te lamber inteira

como um país por conhecer e descobrir sozinha

vc ainda quer morar num sítio comigo [int.].

 

não dá mais pra esperar

o sistema vai me derrubar em minutos

não tenho nem mais um real.

 

o sistema nos derruba a todas

vc já viu quantas as gentes mortas [int.]

 

gostava que passasse em casa mais tarde

há tanto o que não deixar se perder

a alegria mais pequena, se agarrar em nós

mas me contento com uma cartinha

mesmo que em branco, tipo caiofa.

tchau. beijo. te amo.

---

 

crepúsculo sobre a iracema

 

sobre meus olhos, umidez.

sobre meu sexo, uma flor.

acredite, nos labirintos, umidez e uma flor.

[ancestral. negra, negra.

---

‘quem já viu um coração de perto sabe que se parece com um punho ensanguentado.

 

e um estômago. e um útero.

 

[toda mulher é uma poema]

 

Sara Síntique

Ceará - NE

É escritora, revisora, professora e atriz. Autora dos livros ÁGUA ou testamento lírico a dias escassos (Ellenismos, 2019) e Corpo Nulo (Substânsia, 2015). Tem textos publicados na antologia O olho de Lilith (Ferina, 2019), na CULT Antologia Poética n.2 (REVISTA CULT, 2019), Fissura (Editora Nadifúndio, 2020), Uma pausa na luta (Mórula Editorial, 2020) e em diversas revistas. É mestra em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC), onde também se graduou em Letras Português – Francês.

 

@sarasintique

Sara-Sintique.png

Poemas

oração (esboço)

 

quando julia raiz escreveu abre aspas

é preciso me convencer todos os dias

que escrever vale estar acordada fecha aspas fiz dessa fala um mantra e acresci rabiscando no caderno ler poemas julia também me vale o acordar foi quintana quem me fez crer na poesia como oração possível um aproximar-se de deus mesmo quando o poema se distancia dele e eu tenho isso de crer em deus esse mistério e desde então também no poema de um jeito muito particular sobre deus não me estendo coisa de se falar um outro dia em desobediência já que pensar em deus é desobedecer a deus como disse caeiro aqui vim mesmo foi dizer da oração ou seja quando barbara costa ribeiro escreve que é possível ser feliz na ocupação é possível dançar ao fazer resistência é possível antes que tudo que é de nosso direito direito do povo antes que tudo seja sucateado ser feliz é possível dançar a revolução dançar o amor e danço danço quando galeano fala numa entrevista da menina conversando com as graminhas isso de toda criança muito ninha ser poeta e ele estava de luto pelo seu cão tão íntimo e foi andar na rua a dor a esmo e a menina surge ali falando com as graminhas e preciso desespero qualquer coisa na intenção de um riso teu que nem crê em deus mas crê na poesia digo no meio desse caos estamos de luto e tudo nos pesa mas digo por causa disso de galeano de alguma menina que deve estar a buen-díar as graminhas até que por fim você esboça um sorriso que é amarelo eu sei e por isso mesmo esse riso é a flor no asfalto de drummond quando pucheu escreve abre aspas é preciso aprender a ficar submerso é preciso aprender a aguentar é preciso aguentar fecha aspas outro mantra se nos revela aprendo outro fôlego quando domeneck desassossega com miscasting até nos trazer as nuvens de hilda machado eu que sinto tanto essa raiva abre aspas estou entregando o cargo onde é que assino fecha aspas porra onde é que assino mas ela não se entrega mesmo puta não se entrega quando nina rizzi realiza os im/possíveis da tradução de pizarnik um presente assim quando nos é dado a obra desse monstro mulher a obra inteira com as reflexões os processos do trabalho um presente assim esse barco que partiu de mim levando-me levando-me levando-me até quando mika andrade escancara o olho de lilith bem de quatro na cara dos caretas quando szymborska avisa do fim e do início abre aspas depois de toda guerra alguém tem que fazer a faxina as coisas não vão se ajeitar sozinhas fecha aspas não vão está avisado não vão quando lubi prates grita você nunca esteve diante do horror pergunto quem ainda consegue fechar os olhos desse jeito quem quem quando waly diz minha alegria abre aspas um diamante gerado pela combustão como rescaldo final de incêndio fecha aspas eu te acolho minha alegria e te sinto e quase até te compreendo quando adelaide ivánova fala de fred e de eva e dela mesma e indaga o que os une para além do endereço talvez aposentadorias chochas ou seria o medo do despejo tantas coisas own mlr own bisha eu também quando estou triste bebo sozinha em casa e nesses dias intermináveis de um silêncio operante de um silêncio ruído quando huidobro para quem a poesia é um atentado celeste diz abre aspas há que guardar silêncio esperar em silêncio fecha aspas deixo ecoar ecoar o silêncio esse silêncio puro cheio em soco até que devenha outra coisa tudo isso que a palavra gera por gesto e então fechar os olhos como quando tércia montenegro nos faz saber outra verdade que o silêncio não existe e que os sons vibram nas células se eu deixar então eu deixo tércia deixo e me entrego à experiência são tantas as vozes e tão remotas são perdoai os vazios talvez nem possa dizer amém e que assim seja mas talvez devesse confessar ainda que só assim poesia vivo o milagre

Os pombinhos

 

Te amei como um cão.
E gostei.
Não disse nada.
Inventei rosnados e latidos.
Você não me entendeu além de patas garras lambidas mordidas certa lealdade.
Não um cão domesticado.
Nunca uma coleira.
Também não tão raivoso.
Evitei prejuízos.
Que cão fui eu ora isso.
Você não me entendeu além.
Amei como um cão talvez tenha sido.
Te entender como bicho entende bicho.
Com o mistério de um bicho. De um cão.
Com o interesse de um cão no lixo.
Tenha sido bom talvez.
Cruzar o cio no meio-fio.
Deixar o rastro pela calçada.
Você não me entendeu cão.
Eu mesma duvidei.
Pensei antes gato. Lebre. Gráis.
E a solidão de um cão no feminino.
Mas fui o cão. Os rosnados os latidos.
O ganir afoita as madrugadas.
Soube também pelo faro. Pelo farejado.
Você só concorda pelos olhos.
Pelo susto.
Você não me entendeu. Te amei.
Renunciei outros modos.
Gato. Lebre. Gráis.

cozinha

 

Há que guardar silêncio. Esperar em silêncio.

Vicente Huidobro.

 

afiar a faca

precisar o corte

tatear texturas

carnes

pães

cebolas

maçãs

o leite

entanto 

é coisa que

se corta

por si

a mãe diz

quando não há

fervura

(a quem o saiba

doce a devir)

o leite cortado

alerta

perigos

os de caixa

de supermercado

duram meses

e mais

afiar a faca

é coisa que se treine

é método

exercício

é possível até

fechar os olhos

precisar os ruídos

o corte do leite

entanto

(a quem saiba

alquimia delicada)

é coisa que

se adentra

em espera

---

enxurrada

uma fissura se inscreve na barragem
uma fissura: o suficiente.

---

porosidade

cato um búzio sempre que te vejo
quase não há mais lugar

e nem sei tua morada
longes longes

mas cato um búzio
sempre que te vejo

onírica
adorno a boca
o ventre

quase não há mais lugar

transbordo.

retenho.