Ana Luiza Martins

Bahia - NE

Sou Ana Luiza, tenho 27 anos, sou poeta, baiana e filha de piauienses. Escrevo prosa, poesia e alguma coisa no meio dos dois, desde criança. Também sou bacharel em direito. Nunca publiquei em papel, mas sempre mantive meios virtuais de divulgação da minha escrita. Moro em Salvador, na Bahia.

latitude: -5,0483868 / longitude: -42,8226052

@_signodeterra

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Poemas

black love

 

they told me to love no black male

cause loving black men is dangerous and

if I choose a black man

I will probably have to squat naked in front of a mirror to visit him soon

and my children will certainly born as black as we are too

 

they told me that black male are violent and

commit crimes

that they are never good parents

and always

betray

and lie

 

but then I listen to that song in the radio

where the singer says

 

True true love, love

Sweet sweet love, love

Holding me this way with love

Keeping me this way with love

 

and since then I know

that I’m in love with this young man I’ve met

and he is so sweet even

being black

 

black and sweet as brazilian grape

black and proud as James Brown once said

black and deep as the sky at midnight

 

and I know he deserves this love

and I know I deserve this love

and I know there is no danger in this black

black love

 

True true love, love

Sweet sweet love, love

 

Trad.: eles me disseram para não amar nenhum homem negro/porque amar homens negros é perigoso e/se eu escolher um homem negro/eu provavelmente terei que me agachar em em frente a um espelho para visitá-lo em breve/e meus filhos irão certamente nascer negros como nós também// eles me disseram que homens negros são violentos e cometem crimes/ que eles nunca são bons pais/e sempre/traem/e mentem//mas então eu ouvi aquela canção no rádio/na qual o cantor fala//verdadeiro verdadeiro amor, amor/doce doce amor, amor/me segurando assim com amor/me mantendo assim com amor//e desde então eu sei que estou apaixonada por esse jovem homem que conheci/e ele é tão doce mesmo/ sendo negro//negro e doce como jaboticaba/negro e orgulhoso como James Brown disse uma vez/negro e profundo como o céu à meia-noite// e eu sei que ele merece esse amor/e eu sei que eu mereço esse amor/e eu sei que não há nada de perigoso nesse negro/negro amor//verdadeiro verdadeiro amor, amor/doce doce amor, amor

---

Segundo os pescadores de Três Marias

o curimatã piau é o mais comido dentre os peixes do Velho Chico.

Ele próprio só se alimenta do lodo, da lama e da terra do fundo do rio e,

para isso, tem dentícios 

na mandíbula pequena de peixe:

é perfeito como a água do rio e 

tudo de aquático que há ao redor dele.

 

Apesar das muitas espinhas,

o bamba piau pode pouco contra seus predadores, e

as barragens e transposições aceleram sua derrota,

na batalha de vida e morte que enfrenta enquanto desbrava, 

minúsculo, 

o imenso São Francisco.

 

Seu Zé conta que, às vezes, quando um pescador pesca uma xira,

fica com tanta alegria que não repara qual pescou.

Só ao chegar em casa se dá conta e, então, chora 

sobre o corpo escamoso e solitário do curimatã pacu,

a morte de cada um dos curimatã piau.

 

São primos próximos, os peixes, 

mas seu Zé sabe do rio, 

sabe do mar,

toda a vida foi pescador.

Ele conhece de longe o turro do curimbá que antecede a desova e

cuja frequência de gozo e vida

os homens da cidade só conseguem sintonizar se

munidos de aparelhos digitais e hidrofones.

 

As cadeias alimentares dos bichos do Velho Chico,

o ciclo reprodutório dos bamba piau e 

as condições térmicas e hidrodinâmicas de que ele depende,

tudo isso é redondo,

como a Terra.

 

Deus habita o interstício de cada ciclo,

tem escama ao invés de pêlos, e portanto

não padece do ciúme mamífero que 

atormenta os cães e homens

---

pq mesmo morando longe da minha família no dia do meu nascimento estavam tia avó avô tio; pq tiveram de me dar duas madrinhas para q coubessem todas; pq não aguentavam + ficar em casa por causa do bebê mas então fizeram uma fotografia bonita y esse dia virou para sempre o dia q eu conheci o mar; pq sempre me senti + profundamente eu qdo no meio das dez ou + me apontavam y diziam -essa é a da deusinha-; pq dormíamos todos os 10 ou quase numa cama só; pq tive amizades tão profundas q seriam capazes de estraçalhar o mito do amor romântico d uma vez; pq por causa de e* de l* de p* não me senti só naquele lugar naquele estado naquele prédio ou naquele país não perdi a cabeça d vez; por causa de i* de b* de m* acreditei na minha escrita; pq as vi costurarem à mão os livros umas das outras;  pq meu melhor amigo no meu primeiro emprego era um homem d cinquenta y oito anos q me dizia sempre p nunca parar d estudar; pq apesar das tristezas y pequenas raivas meus ex amores (d verdade) foram sempre amáveis; pq apesar d todo o ódio todo o ódio que sinto diariamente y d todo o medo y do amargor eu sei do projeto colonial em curso q quer nos ver infelizes; pq apesar da escravidão do genocídio do projeto racial d miséria apesar disso tdo eu cresci em lares abundantes em matéria y amor - ainda q o amor não fizesse parte do vocabulário; y qro aprender a ser gentil sem deixar d ser forte

Negra

Para Noémia de Souza

 

Para espoliar meus encantos foi que me criaram

animalesca

selvagem

cruel

sedutora

exótica

bruxa

perigosa

indomável:

fêmea

 

E me chamaram África

E me pariram mãe

 

O povo estranho

com seus olhos cheios de outros mundos

levou de mim

quase tudo

Doeu mais ver esse estranho nos olhos de

meus próprios frutos

 

Sangrei:

e assim se fez o Atlântico

derecho a la consulta previa

 

el território cuerpo és el más afectado en el sistema hegemónico

eso me enseñaron dos hermanas wayuu

desde entonces

he abolido el uso de verbos cartográficos

para hablar de nuestro encuentro

no quiero explorar tus curvas

descubrir tus marcas

radiografar tus trazos o

penetrar tus orifícios

no quiero investigar

sondar 

describir

catalogar

colonizar tu cuerpo

 

para lo que deseo creo que

todavia no hay nombre

en esas lenguas europeas

que son las únicas que tengo

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀Trad.: o território corpo é o mais afetado no sistema hegemônico/ isso me ensinaram duas irmãs wayuu/desde então/aboli o uso de verbos cartográficos para falar de nosso encontro/ não quero explorar tuas curvas/ descobrir tuas marcas/ radiografar os teus traços ou/penetrar teus orifícios/não quero investigar/ sondar/ descrever/ catalogar/ colonizar teu corpo/ para o que desejo acredito que/ ainda não há nome/ nessas línguas europeias/ que são as únicas que tenho

 

Hosanna Almeida

Bahia - NE

Hosanna Almeida é soteropolitana e graduanda do Bacharelado Interdisciplinar em Artes pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Integra projeto autoral intitulado música do mundo. A anatomia dos parênteses (2020) é seu primeiro livro de poesias pela Editora Urutau.

latitude: -12,9527438 / longitude: -38,4866028

@hosannaalmeida

Hosanna Almeida.png

Poemas

bichos bilhões

 

todo o dinheiro do mundo

não passa dos duzentos mil

 

pense um pouco

bilhões é um par

— de milhões

e milhões já são grandes

      demais

para caber em carteiras

     eletrônicas

 

não dispomos dessa tecnologia

 

por isso precisamos da ajuda dos suíços

eles inventaram

os bons queijos

os bons chocolates

e

as grandes carteiras

de bilhões

 

mas desses

só os bilhões

não são verdade

quem precisa de bilhões?

(dá medo)

 

eu poderia

brincar de bicho papão

com minha filha catarina

e ela apelidaria o monstro

de                        

      bilhões

nós correríamos pela casa

que não é de         bilhões

fugindo dele

 

“e como ele é?”

 

o grande            bilhões

tem muitos olhos

como bolas de bilhar

escorrem gosmas

viscosas

da sua boca

ele nem grita

só resmunga

ghaaaarrrrrggghhhgggg

 

ininteligível

assim como

bilionários

 

bilionários

são amigos

dos monstros

de olhos de bilhar

eu disse à catarina

fique longe deles

 

melhor

 

não se torne um deles

(ela não vai

até parece que seria cabível

catarina me deu sua palavra

 

bilionários são

em geral

homens

grandes

e brancos — eu deveria avisar catarina

 

ela é mais uma criança pretinha

e crianças pretinhas não

pegam amizade com

bichos papões)

merarias

ensina

da terra, a voz

suplica aos galhos 

    [em nós

que ainda rugem

celebra

à terra, semente!

em tua morte ligeira

    [ladeia

A canção da árvore antiga:

 

“e ainda que caia de si a folha

 

resta o tronco

resta o tempo

resta o corpo,

resta a raiz.”

nestes versos o sentido da vida

 

água viva não é água em cerca

água em cerca não é água viva

água em cerca até mata a sede

mas o gosto é férrico e febril

 

água viva morreu dez vezes

se embolou umas vinte

se perdeu e se achou

antes de sair correndo

 

o fim da água viva é parar um pouco

pra descansar

e depois, corpo adentro

recomeçar o circuito

 

o fim de toda água em cerca é virar água viva quando jogada na pia

 

morrer dez vezes

se embolar umas vinte

se perder e se achar

e depois

 

sair correndo

historie de la folie

mugindo lá vai a louca desvairada 

rasgando dinheiro comendo cocô

perdeu-se tão feio tinha candura

foi o mesmo com Alice da rua 6

era menina mulher exemplar

mas desde que ela se deu ao 

        desfrute 

urra corre muge sem parar

vai às ruas ensandecida

a lua lhe afeta anda

perdida largada

e sozinha como 

uma qualquer

“contemporânea”
 

tiro o pijama às 4 da tarde

depois disso continuo dormindo.

vivo o normal intranquilo

desperto quando dá

deixa 

O tempo matura 

esta tortura 

que de bom grado 

te voluntariaste

 

que rompe a aura

que cutuca a alma

que enferma o peito

e, suplicante 

o ensejo

num sussurro consente: deixa

 

desnuda-te, desejo febril

imerge na calidez da urgência

contempla no desespero da ausência

a iminência de um instante

 

deixa, só deixa

eis na faisca, centelha

queimar a efêmera certeza

que vai

 

Letícia Simões

Bahia - NE

Letícia Simões nasceu em Salvador, em 1988. Formou-se em Comunicação na PUC-Rio e estudou Roteiro e Documentário na London Academy of Film, Media and TV e Artes Plásticas na London Art Academy. É mestra em Cine-Ensaio pela Escuela de Cine y Televisión de San Antonio de Los Baños, em Cuba, e mestra em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

latitude: -12,9289312 / longitude: -38,5195626

@lettsimoes

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Poemas

Aaron

 

ainda creio em sinais

ainda que esteja difícil

encontrá-los

nos tempos de hoje

 

ainda creio nas sombras do universo

aquelas que dançam entre dez da manhã e uma da tarde na parede do quarto

projetam uma cidade desconhecida,

um pavão em um giro mortal

 

(quem diria, pavões também executam à perfeição

saltos de ginástica olímpica:

são sinais)

 

o historiador americano aaron saachs

escreveu que a maior qualidade dos primeiros exploradores

era dominar a arte de se perder:

no fim das contas,

conhecer seus instrumentos e

ter algum otimismo em relação

ao caminho por encontrar

 

ainda acredito em deixar a porta aberta

quando invisíveis nadadores transpassam

o meu corpo

atravessam com a luz

trazem a sede de amor e água

que somente pode existir no verão

 

são sinais

 

ainda que esteja difícil,

nos tempos de hoje,

crer em suas

aquosas e milagrosas

existências

 

ainda acredito nos diamantes inventados pelos homens

não os encontrados,

reluzentes, perigosos

mas aqueles feitos pela língua

(cuidado, o perigo é ainda maior):

tropical,

navio,

cumbuca,

nefasto.

 

um amálgama de inesperados sons

que requer nada menos

do que a nossa vida

 

dois cavalos

depois de uma larga e estupefata corrida

quando cansados

se reconhecem em suas derrotas de cascos

e coices

e erguem as patas

dançam em uma língua eqüina

o exercício de buscar justamente

aquilo que lhes é desconhecido:

 

não há derrota para os cavalos,

somente a corrida.

 

uma vez tentei acreditar nos sinais de cortejo

de uma alma diante da outra

em tempos de guerra de calendário

mas fui obrigada a reconhecer

os muitos mais cortejos das almas infelizes,

versadas em vestidos costurados de manhãs frustradas

 

esses não são sinais.

 

como reconhecê-los, então?

 

pensemos nas gaivotas

que em suas barrigas guardam o segredo do futuro

 

pois bem

 

agora, quando estiver sozinho ao mar

e avistar uma gaivota

observe bem seu branco dorso

 

nele estão todos os sinais

 

num tropeçar,

ela abre vôo

 

voa

voa

voa

 

traçando um arco infindo de perder-se

mesmo estando em casa

(o maior sinal).

Agora, os cavalos

 

poderia segurar a sua mão mas tenho medo que ela desmonte

de súbito

pelo toque fraudulento da minha

 

não há mais espaços para dançarmos; ainda assim

vão-se lá pernas e tecidos e membros ocultos

 

com algum álcool no sangue,

tentamos, com muito fervor, repetir frase a frase o discurso tão revelador

da madrugada de quinta-feira

 

agora sequer lembramos do que falava mesmo

 

talvez fosse

aquele panfleto ordinário que um hippie qualquer

nos entregou - com raiva nos dentes, quando lhe negamos moedas na mesa da rodoviária

 

lições retiradas de um manual para aprender a comunicação com cavalos: (o curso completo pode ser entregue na sua casa a doze parcelas mensais)

 

- não olhe para baixo mas sempre para onde se quer ir;

- não retenha a respiração, para ficar mais descontraído;

- ao segurar as rédeas pense que leva um passarinho nas mãos;

- agarre-o para que não fuja mas não o aperte para não o magoar;

- ao galopar tente captar o movimento com a cintura;

- um bom cavaleiro, apesar de parecer que está quieto, sempre acompanha o movimento.

Dentes

 

assim como conheço uma cidade

pelo peso do meu corpo

quando sou levada pelas minhas coxas

por uma esquina que deságua em um supermercado

onde certa vez roubei um sanduíche

- eu que nem gosto de pequenas porções amontoadas com pequenas porções

gosto do inteiro, mesmo que doa a boca -

pelo mero prazer de me saber capaz

de esconder insignificantes segredos,

quando os grandes caem todos pelos dentes.

 

(adoro dentes.

acho-os fascinantes.

pessoas de caninos prontificados gozam de palavras fortes.

pessoas sorrateiras costumam fazer clareamento.

as sedutoras também,

mas elas vão em dentistas mais baratos.

gosto de quem tem dentes tortos,

geralmente são alcoólatras.

também gosto de quem usa aparelho tardiamente,

parece uma brincadeira com o tempo:

caber onde não pode.

ou poder onde não deveria.)

 

assim como conheço uma cidade

pelo peso do meu corpo

conheço o peso do seu corpo

carrego o peso do seu corpo

como o aprendiz de joalheiro que esteve um ano com uma safira agarrada ao punho

para sentir o exato vazio de quando se ela foi.

conheço o encaixe dos seus braços,

um abaixo da axila, o outro acima do ombro

a sua perna esquerda buscando a minha cintura.

quando você está em dúvida, seu olhos mudam de cor

e quando você me disse para não confiar em alguém com olhos furta-cor

somente lembrei do rio onde consigo chegar sem mapas

mesmo anos depois de ter deixado a cidade,

mesmo de olhos fechados,

porque até os rios pensam que podem equilibrar o inferno,

- os corpos, não.

 

Lorena Grisi

Bahia - NE

Lorena Grisi nasceu em Salvador. Publicou Exercícios físicos em 2021, pela Editora Paralelo13S. Em 2020, foi uma das selecionadas em concursos literários e no edital Arte como respiro, do Itaú Cultural, na categoria poesia escrita, tendo o poema publicado no caderno digital onde caber. Tem poemas publicados nas coletâneas Hilstianas vol. 1, Antologia Ruínas, Mulherio das Letras Portugal, entre outras.

latitude: -12,8754716 / longitude: -38,5016508

@instagrisi

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Poemas

Exercícios físicos

 

Faz atividade física? Faço, longe de mim ser sedentária. Não fumo, bebo pouco e carrego comigo este carma de gerações, estes genes, o peso dos dias, esta cabeça que não vem sobre os ombros, vem sobre o pescoço, porque os ombros, é o mundo o que eles suportam e por isso tenho hipercifose. Não sou preguiçosa, ando a pé por essas ruas levando tudo o que é desnecessário em minhas costas, só para ter certeza de que não vou utilizar, mas está tudo ali, são coisas minhas, é tudo o que tenho, pode-se dizer que configura um patrimônio. Juntei cada uma dessas peças como quem guarda pedaços de quebra-cabeças distintos na esperança criativa de montar paisagem própria, forçando encaixes e aceitando que buracos são também composição de destinos. Portando sempre meus objetos, sou meu meio de transporte, meu caminhão de mudança para cada apartamento semimobiliado alugado e, no percurso, perco bibelôs e memórias, o que deixa mais leves as caixas de papelão e é por essa razão, ademais, que eu sempre fui bem magra, embora nunca, nunca mesmo, tivesse sentido medo de que uma ventania me levasse consigo. Tudo ótimo enquanto estiver perdendo bibelôs, o que não dá é para perder as chaves, a cabeça ou o prumo. Eu sou muito ativa, me exercito, escrevo, apago, escrevo, reviso; no ano seguinte, eu abro o mesmo texto e reviso, apago, escrevo, guardo, esqueço. Esse exercício fortalece a mente e os ossos, explico, ele recomenda musculação três vezes por semana, no mínimo. Pergunto se ele já experimentou um teto desabando sobre si e tendo de levantá-lo com as mãos, no sentido oposto à gravidade, e isso na hipótese boa, que é a de ter um teto; ele me diz academia, corrida, pilates, eu digo meu querido, você não faz a menor ideia do que é ser uma mulher.

 

 

cardiorrespiratório
(com influências da reflexologia)

 

três mentiras:

alamedas

tese, antítese, síntese

uma artéria longa e livre

começando no coração

e se ramificando

num complexo de túneis

espelhados nas linhas da palma da mão,

que dizem: viverás tantos anos

quanto estiverem desimpedidos esses túneis

subterrâneos

subcutâneos

e o tráfego for ordeiro, polido,

quase um tráfego oriental,

em velocidade média de um quilômetro e meio por hora,

às vezes menos, não há motivo de pressa,

é tudo uma questão de transporte de cargas,

mais que isso é acidente, previsto

na palma da mão, nas fibras da íris,

em pontos da sola do pé que,

novamente, só os orientais

atravessam a existência conhecendo, apertando e

rindo da desgraça alheia

convertida em tráfego engarrafado a todo o tempo

esse não chega nem aos cinquenta

com tão pouco combustível e essas bobinas

desconectadas

os orientais leem o grande livro

escrito no calcanhar de um analfabeto

especialista em geradores de energia elétrica

de edifícios de cem andares

que não abrigariam nem a ele,

nem aos seus filhos, se sua casa desmoronasse,

se a cidade inundasse ou se toda a sorte de líquidos

se misturasse e desalinhasse a arquitetura dos túneis

e dos pequenos canais, denunciando as imperfeições,

as obstruções, os nódulos, os coágulos, os excessos

cometidos em 2014, as marcas, os registros,

as mentiras, que estão todas lá, bombeadas por um músculo,

setenta vezes por minuto elas circulam do pé

à cabeça, os orientais sabem,

eles estão lendo no centro do calcanhar e na divisa

da planta do pé com o dedo mindinho,

eles estão gargalhando da crença em bosques e álamos

no meio de uma cidade da América do Sul,

da crença em corridas, maratonas,

basta um quilômetro e meio, não há motivo de pressa,

e pode-se respirar aliviado, pois não há nada de novo nas artérias,

nem nos próprios orientais, eles até se envergonham,

é que as mentiras já foram todas inventadas.

Cartografia

 

No canto da tela com o mapa,

há uma escala de grandeza que diz

1:300.

 

Cada trezentos metros do meu caminho estão reduzidos a um centímetro, nessa escala de grandeza cartográfica.

 

Acho engraçado dizer escala de grandeza.

Eu poderia falar: Numa escala de grandeza, eu parti o pão e te deixei o pedaço maior.

 

Se diz também está para, na leitura das escalas: "um está para trezentos".

Esses trezentos metros foram reduzidos

para que, no caminho,

eu não desvie o olhar,

para que eu esteja para,

ou o objetivo de chegar

não se cumpre.

 

Na física quântica,

o lugar existe enquanto eu olho para ele.

Ele está para mim,

reduzido à escala de minha retina,

que é de 1:10 metros de visão frontal e periférica.

Para mais que isso, o mapa

e a grandeza de encerrar o que não existe,

porque não estou olhando.

A queda

 

E se o sentido for o invisível,

o intangível, no ritmo irrefreável

da queda no abismo

místico?

 

E se o motivo for incompreensível,

antes mesmo do vivível,

sem cor, sem corpo, sem cordas de segurança máxima ou, ao menos, mínima?

 

E se deus for maníaco-depressivo, bipolar, histérico, esquizofrênico, obsessivo-compulsivo,

quem protegerá deus e lhe lembrará de tomar

o ansiolítico?

 

E se um outro cometa chegar e a Terra atingir, e explodir,

e eu sumir com todos os meus vestígios e

meus ossos, antes rígidos, agora pífios?

 

E se as ideias desaparecerem,

e os sonhos, e os encontros,

e os poemas, perdidos no cosmos inatingível

como aquela sonda espacial nunca recuperada e

com uma imagem eternamente indizível?

 

E o ilegível, e o inefável,

e o inimaginável?

Quem vai tocar a canção

de compositores mortos de amor e de ódio e

de tédio no andamento certo, pianíssimo, fortíssimo, sforzando, se esforçando,

com quais forças, e de onde, com que braços

sem abraços e com o olhar baço

de quem quer o invisível, o intangível,

a clareza do precipício?

 

 

Por acaso, acidente, por destino

 

Quando, ao sair à rua, se encontra o carteiro

em frente ao edifício, em horário diverso daquele

em que ele vem, todos os dias, e ele carrega consigo, além de suor e sorriso,

entrega não encomendada, materializada numa caixa

envolta em mistério e carimbos,

muitos dizem por acaso, coincidência,

por destino.

 

Mas se à uma da manhã de um dia de férias tranquilo,

em que se dormiu com os anjos, sem conhecer desconforto,

barulho de vizinhos, má notícia, frustrações ou a presença do perigo,

uma árvore despenca e desperta do sono os justos e os injustos,

porque esses últimos também dormem, ao contrário

do que esperam os que creem em narrativas de culpa,

remorso, consciência, paz de espírito, e se a queda dessa árvore acontece

em cima de um automóvel no qual se vê, no banco de trás,

uma cadeira de criança, e essa árvore atinge justa

e precisamente a cadeira ocupada pela criança, que também dormia,

muitos dizem por destino, linhas tortas, fatalidade, desígnio.

 

Quando a cabeça lateja, quando o corpo não responde

aos seus comandos, quando a necessidade é encolher-se num canto

escuro e fazer uso de comprimidos esteticamente perfeitos em suas formas,

como se esculpidos, circulares em cada uma de suas miligramas,

e ingere-se um, e mais um, e mais um, e mais um porque

não se está acostumado com isso de raciocinar em miligramas,

multiplicar as miligramas, não se está habituado à matemática

dos compostos químicos, no dia seguinte, é previsível,

tocarão a campainha e, não sendo atendidos,

eles dirão acidente, descuido, imprudência,

desatino.

 

Numa fábrica qualquer, pouco importa em que país,

posto que fábricas são territórios indistintos como aeroportos,

igrejas, desertos, submarinos,

nessa fábrica qualquer, próximo ao fim do expediente,

num dia de alta produção e de funcionários felizes

como só são aqueles úteis à sua tribo,

um vazamento de gás asfixia homens e mulheres que vestiam

uniformes iguais e morriam iguais e as explosões que se seguiram

foram exatamente iguais ao bombardeio da Líbia

em 1911 e muitos disseram, incluindo a igreja,

o dono da fábrica, os marinheiros e os beduínos,

do descaso, coincidência, acidente, negligência.

 

Ao dizer acaso, recorrentemente, se referem ao pássaro

que fez ninho na calha do telhado e cujos ovos serão chocados

no dia do aniversário do velho senhor dono do imóvel,

ao que também chamarão de coincidência, sincronismo, entretanto,

se o velho senhor odeia pássaros, preferia morar num apartamento

no centro, é exímio caçador e é por aves faminto,

chamarão de acidente, cadeia alimentar, fatalidade, fortuna,

que é o que se diz, recorrentemente, de quem elegeu seu alvo

e dele decide a ventura.

 

Mariana Paim

Bahia - NE

Mariana Paim é doutoranda no programa de Literatura e Cultura da Universidade Federal da Bahia (UFBA), integra a linha de pesquisa Lesbianidades, Interseccionalidades e Feminismos (LIF), vinculada ao NuCuS. Além de se dedicar à pesquisa, ao magistério e à escrita, milita  no Coletivo de Empoderamento de Mulheres – FSA, é co-mediadora do Leia Mulheres e co-produtora do Ciclo de Oficinas em Escrita Criativa, em Feira de Santana. Publicou serei_as: ou ensaio de um mergulho no âncora (2019) e está trabalhando em seu segundo livro, Ausência.

latitude: -11,9684057 / longitude: -39,1036681

@marianaspaim

Mariana Paim.png

Poemas

(d) o mar

 

o mar dançando em

nossos pés

teu cheiro roçando

em minha pele

um mergulho em

você que

também trans

borde em

mim

em nós um

corpo inteiro

de palavra fazendo

festa e abr

                     indo caminhos

 

 

pela primeira vez

 

a primeira vez que vejo o peso

da fotografia sobre a mesa

é também a primeira vez que calculo

e penso que o tempo nunca

é a medida exata da saudade

mas desse espaço

cheio de lacunas

que ficaram entre nós

pela primeira vez penso

em dizer e

as palavras

lacrimejam

travessia

 

palavra

                como

                             desejo

                                            é

                                                   travessia

o não é a palavra mais selvagem

 

reaprendo a ler todos

os dias e hoje

só sinto

pelo tempo

que foi de mim tirado

troquei os móveis

por espaço

não cozinho, lavo ou passo

e não divido contigo

nem a cama, só

durmo comigo, com

a Florbela Espanca e a Emily Dickinson

moro e acordo nas palavras

e sigo amolando-as feito faca

sendo o não a mais

afiada

 

 

the lovers

 

hoje eu vi uma

fotografia branca,

                            [como essa página

nela um deserto de sal

preenchia todo o campo

não havia ninguém no horizonte

à vista

sem caminhos

apenas o branco do chão

refletido por todo o céu

talvez seja isso o que reste

o solo estéril 

das perdas

em meio as travessias

os planos

os danos

comuns

a paisagem

um imenso vazio

todo branco

algumas vezes é preciso

cruzar a muralha da china

em outras talvez

o silêncio só

já diz

algo como um adeus

 

Pollyana Sousa

Bahia - NE

Pollyana é baiana de Feira de Santana, se debruça na investigação de suas dores e dos seus, não lembra desde quando usa a linguagem poética, mas o olhar sempre foi minucioso. Curiosidade e memória dão fluxo à escrita e a poesia surge a partir dessas experimentações, o que também se tornou um alívio mental em tempos difíceis. Vencedora do Prêmio Maraã de Poesia 2020, em breve terá o primeiro livro lançado.

latitude: -12,2549307 / longitude: -38,9661469

@pollyanadsousa

Pollyana Sousa.png

Poemas

A-vóz


fruto de desarvoramento

não conheceu seus pais

não conheceu seus filhos

não se conheceu


feitio de ama, herdado sem papel

de pouco seio, tornou-se úbere
azada a sorte de ser mãe, tal como se espera
doou um pedaço de si para cada cria

 

repartida em quinze

reunida em caixa

dor ancestral
culpa cristã.

Tapeçaria


algumas cores de tricô

apara a pisa do pé d'água

recusa a brecha da peçonha
tapeia o cisco do chão batido
arruma a tábua pr'uma madeira pura.

In cômodo

 

sou incômoda ao seu espaço

chega pra lá, tá me apertando

meu tamanho de gente

medido em massa
torna presença
de elefante branco


eu saio do plano
te dou mais conforto

 

você sem-te falta

do aperto banido

castelo é mansão
por mãos a palmadas

 

de volta

re(cinto)

teu nojo

polido

Eu ancestral

marital

esquema

solo

ouvidores
de um tempo eu

marca dores

genéticas
e curas

congênitas

Herança


novelo de mãe
passa de filha para filha

filas

 

mãos pequenas
recebem a ponta da linha

emaranhada, frágil

 

sem instrução

reage ao nó
faz o que o mundo diz

xinga, sopra, puxa

 

enfurecida

descarrega cólera

 

cansada, lamenta

pede por Deus

lembra que é de mãe

procura nas gavetas

 

desiste
pega a lâmina afiada

 

desiste

descarta

 

emaranha um novo novelo.