Ãna dy Nanã
(Ana Pedrosa)

Bahia - NE

Artista visual, poeta e pesquisadora. doutoranda em literatura e cultura pelo Ppglitcult/Ufba, mestra em estudo de linguagens pelo Ppgel/Uneb y graduada em artes plásticas pela Escola Guignard/UEMG. Fundadora do grupo autônomo de estudos y ações artísticas dissonante – experiências entre arte e saúde mental. Atua em exposições individuais y coletivas, mostras y feiras desde 2008. Lançou dez publicações independentes de poesia em seu nome y do seu heterônimo manuel-lua-cheia. Tem experiência com mediação y curadoria em artes e saúde mental. Assina o selo candeia – objetos de arte.

@ana.pedrosa

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Poemas

Munguzá

milho branco de molho

1 dia

lavo

escorro

água

fogo

cozimento

coco quebrado

batido

leite

cravo

canela

doce

fervo

najé

suspendo

hálito

ofó

mãos abertas

olhos fechados

digo o seu nome

salubá

broto {como grão}

canto

reverencio

adubar

significo - 

alimento pra cabeça

é texto

---

Roda

o

silêncio

som

narra

um

ciclo

sem

pausa

dança

contra

horário

outro

tempo

entre

a

voz

y

a

pauta

os

pés

descalços

palavra

por

palavra

Tempo

 

Vou sozinha cavalo do tempo

Cavalgo sem medo

Cada marca é tudo que eu tenho

Y não é nada

Prossigo sem carne aberta

Olho pra terra

Promessa

Tenho um corpo que a pertence

Nada é meu

Que eu possa pegar

Só vou de posse ao infinito

Cavalgo

Espiral

Cavalgo

Fecho os olhos para abri-los

Filha mãe avó antepassada

Transe

percebo:

Só existe o que é eterno

 

---

 

Fundamento

 

era noite de um azul profundo

a lua clara parecia se mirar pela janela

chamando para si as vistas atenciosas

 

sentada sobre o descanso do dia

o toque ecoava

sagrado como a terra.

a voz de um outro tempo

se instaurava sutilmente

 

fluida como a água

nas entranhas do corpo que banha y limpa

fazendo vibrar um diferente estado de coisas

de alma a contornar o espaço

 

os pés tocávamos o chão

onde a conexão fazia

carne se sabendo substancialmente

matéria do espírito

 

um ronronar ecoa sobre os tijolos

cimentos

paredes

construção

penetrando a brutalidade daquilo que cerca

para cercear

se impondo sobre tudo

numa completude própria

de elemento essencial

 

da janela, brecha de breu,

um portal de luz aponta

impávida

grandiosa

certeira y serena

como a materialização da sabedoria

sua presença genuína

suspensa feito tótem

os olhos negros atentos

seguiam nossa mesma direção

mantinha sua figura, agora muda,

na continuidade eterna daquele instante

até que tomando alongado impulso no vento

bateu suas asas imensas y lentas de ave noturna

y sumiu na imensidão do teto infinito comum que nos ancora

 

nós, aqui embaixo, pés no firmamento

ligados à ela

através das palavras contidas

em tudo aquilo que,

nos mantendo de pé y presentificando sua existência

para devolver sentido às nossas,

chamamos de fundamento

 

Ana Luiza Martins

Bahia - NE

Sou Ana Luiza, tenho 27 anos, sou poeta, baiana e filha de piauienses. Escrevo prosa, poesia e alguma coisa no meio dos dois, desde criança. Também sou bacharel em direito. Nunca publiquei em papel, mas sempre mantive meios virtuais de divulgação da minha escrita. Moro em Salvador, na Bahia.

latitude: -5,0483868 / longitude: -42,8226052

@_signodeterra

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Poemas

black love

 

they told me to love no black male

cause loving black men is dangerous and

if I choose a black man

I will probably have to squat naked in front of a mirror to visit him soon

and my children will certainly born as black as we are too

 

they told me that black male are violent and

commit crimes

that they are never good parents

and always

betray

and lie

 

but then I listen to that song in the radio

where the singer says

 

True true love, love

Sweet sweet love, love

Holding me this way with love

Keeping me this way with love

 

and since then I know

that I’m in love with this young man I’ve met

and he is so sweet even

being black

 

black and sweet as brazilian grape

black and proud as James Brown once said

black and deep as the sky at midnight

 

and I know he deserves this love

and I know I deserve this love

and I know there is no danger in this black

black love

 

True true love, love

Sweet sweet love, love

 

Trad.: eles me disseram para não amar nenhum homem negro/porque amar homens negros é perigoso e/se eu escolher um homem negro/eu provavelmente terei que me agachar em em frente a um espelho para visitá-lo em breve/e meus filhos irão certamente nascer negros como nós também// eles me disseram que homens negros são violentos e cometem crimes/ que eles nunca são bons pais/e sempre/traem/e mentem//mas então eu ouvi aquela canção no rádio/na qual o cantor fala//verdadeiro verdadeiro amor, amor/doce doce amor, amor/me segurando assim com amor/me mantendo assim com amor//e desde então eu sei que estou apaixonada por esse jovem homem que conheci/e ele é tão doce mesmo/ sendo negro//negro e doce como jaboticaba/negro e orgulhoso como James Brown disse uma vez/negro e profundo como o céu à meia-noite// e eu sei que ele merece esse amor/e eu sei que eu mereço esse amor/e eu sei que não há nada de perigoso nesse negro/negro amor//verdadeiro verdadeiro amor, amor/doce doce amor, amor

---

Segundo os pescadores de Três Marias

o curimatã piau é o mais comido dentre os peixes do Velho Chico.

Ele próprio só se alimenta do lodo, da lama e da terra do fundo do rio e,

para isso, tem dentícios 

na mandíbula pequena de peixe:

é perfeito como a água do rio e 

tudo de aquático que há ao redor dele.

 

Apesar das muitas espinhas,

o bamba piau pode pouco contra seus predadores, e

as barragens e transposições aceleram sua derrota,

na batalha de vida e morte que enfrenta enquanto desbrava, 

minúsculo, 

o imenso São Francisco.

 

Seu Zé conta que, às vezes, quando um pescador pesca uma xira,

fica com tanta alegria que não repara qual pescou.

Só ao chegar em casa se dá conta e, então, chora 

sobre o corpo escamoso e solitário do curimatã pacu,

a morte de cada um dos curimatã piau.

 

São primos próximos, os peixes, 

mas seu Zé sabe do rio, 

sabe do mar,

toda a vida foi pescador.

Ele conhece de longe o turro do curimbá que antecede a desova e

cuja frequência de gozo e vida

os homens da cidade só conseguem sintonizar se

munidos de aparelhos digitais e hidrofones.

 

As cadeias alimentares dos bichos do Velho Chico,

o ciclo reprodutório dos bamba piau e 

as condições térmicas e hidrodinâmicas de que ele depende,

tudo isso é redondo,

como a Terra.

 

Deus habita o interstício de cada ciclo,

tem escama ao invés de pêlos, e portanto

não padece do ciúme mamífero que 

atormenta os cães e homens

---

pq mesmo morando longe da minha família no dia do meu nascimento estavam tia avó avô tio; pq tiveram de me dar duas madrinhas para q coubessem todas; pq não aguentavam + ficar em casa por causa do bebê mas então fizeram uma fotografia bonita y esse dia virou para sempre o dia q eu conheci o mar; pq sempre me senti + profundamente eu qdo no meio das dez ou + me apontavam y diziam -essa é a da deusinha-; pq dormíamos todos os 10 ou quase numa cama só; pq tive amizades tão profundas q seriam capazes de estraçalhar o mito do amor romântico d uma vez; pq por causa de e* de l* de p* não me senti só naquele lugar naquele estado naquele prédio ou naquele país não perdi a cabeça d vez; por causa de i* de b* de m* acreditei na minha escrita; pq as vi costurarem à mão os livros umas das outras;  pq meu melhor amigo no meu primeiro emprego era um homem d cinquenta y oito anos q me dizia sempre p nunca parar d estudar; pq apesar das tristezas y pequenas raivas meus ex amores (d verdade) foram sempre amáveis; pq apesar d todo o ódio todo o ódio que sinto diariamente y d todo o medo y do amargor eu sei do projeto colonial em curso q quer nos ver infelizes; pq apesar da escravidão do genocídio do projeto racial d miséria apesar disso tdo eu cresci em lares abundantes em matéria y amor - ainda q o amor não fizesse parte do vocabulário; y qro aprender a ser gentil sem deixar d ser forte

Negra

Para Noémia de Souza

 

Para espoliar meus encantos foi que me criaram

animalesca

selvagem

cruel

sedutora

exótica

bruxa

perigosa

indomável:

fêmea

 

E me chamaram África

E me pariram mãe

 

O povo estranho

com seus olhos cheios de outros mundos

levou de mim

quase tudo

Doeu mais ver esse estranho nos olhos de

meus próprios frutos

 

Sangrei:

e assim se fez o Atlântico

derecho a la consulta previa

 

el território cuerpo és el más afectado en el sistema hegemónico

eso me enseñaron dos hermanas wayuu

desde entonces

he abolido el uso de verbos cartográficos

para hablar de nuestro encuentro

no quiero explorar tus curvas

descubrir tus marcas

radiografar tus trazos o

penetrar tus orifícios

no quiero investigar

sondar 

describir

catalogar

colonizar tu cuerpo

 

para lo que deseo creo que

todavia no hay nombre

en esas lenguas europeas

que son las únicas que tengo

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀Trad.: o território corpo é o mais afetado no sistema hegemônico/ isso me ensinaram duas irmãs wayuu/desde então/aboli o uso de verbos cartográficos para falar de nosso encontro/ não quero explorar tuas curvas/ descobrir tuas marcas/ radiografar os teus traços ou/penetrar teus orifícios/não quero investigar/ sondar/ descrever/ catalogar/ colonizar teu corpo/ para o que desejo acredito que/ ainda não há nome/ nessas línguas europeias/ que são as únicas que tenho

 

Clarissa Macedo

Bahia - NE

Clarissa Macedo é doutora em Literatura e Cultura, escritora, revisora, pesquisadora e professora. Apresenta-se em eventos pelo Brasil e exterior. Integra coletâneas, revistas, blogs e sites. Publicou O trem vermelho que partiu das cinzas, Na pata do cavalo há sete abismos (Prêmio Nacional Braskem da ALB) e O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição. Está traduzida para o espanhol e o inglês. Já integrou o Arte da Palavra (SESC). É a idealizadora do Encontro de Autoras Baianas – Marcas Contemporâneas.

@clarissammacedo

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Poemas

Pescaria

 

Na fila de emprego

me deram uma vara de pescar.

 

Contrariando as profecias,

não conquistei o universo.

 

Não havia isca

não havia lago

não havia nada.

 

Os peixes sumiram (!)

sugados por quem já sabia pescar,

por aqueles que pescam de família em família

com o mar à mão

e dedos ensinados;

 

será que têm varinha mágica?

Será por isso que não pesco?

 

Há tempos desato o ofício da pescaria

e nunca dá certo.

 

Faz anos também

que o cheiro do peixe invade as paredes, o catre,
os sonhos, a minha oração.

 

Eu continuo: persisto,

de anzol gasto,

no exercício de dar de comer

à mãe, às filhas, às irmãs;

mas todas minguam

na tarefa diáfana

de enganar a fome

de soletrar a morte.

 

Por isso, no auge daquele dia,

convencida de que pescar

sem isca, peixe ou lago

não enganaria a dor, a miséria,

amarrei a linha no tronco mais rijo;

e lá, de corpo pendurado,

olhei pra sempre o açude vazio da minha casa.

 

--- 

 

Noturno n. 4

 

À noite,

No descanso das injustiças e das fraquezas,

Eles decretam no palácio a tua próxima fome.

 

Quando amanhece, o sol não nos fala

Nele, uma cortina de 100 dólares ponta de estoque

 

Em nós, o medo e o mito do silêncio.

Bronze o dia as aflições pelo trabalho e pelo sono

 

E quando enfim madruga e a jornada de tantas horas parece que chega ao fim

Eles dizem que haverá mais

Que haverá mais porque é preciso cansaço para os nossos olhos

É preciso sangue

Para que não se possa meditar

 

Para que sigamos

Máquina aos moinhos

A moer tudo aquilo que somos, tudo aquilo que não podemos ser.

                                                            lampejo

 

quando navego nos itens do supermercado

no afago de suas prateleiras

sinto como se a guerra fosse aqui

aquela grande guerra esperada pelos povos

onde cada um monta sua torre e arma aos inocentes

onde deus salvará os bons da escória

onde o bom sou eu e o mau, o outro –

esse monstro que deveríamos amar mas não podemos

; e não o fazemos em nome do pó das armas que nos protegem da mão do filho –

do filho do outro a nos pedir comida com os olhos

                                                                        de água.

meu deus, por que não me abandonaste no ventre à míngua da mãe

que morreu de parto na última ceia?

(mulher que abortou 20 eus abençoados pelo livramento do existido

e que não teve pai, mas um falo numerado)

deus salve a américa

deus me salve de mim olhando o preço da azeitona

meu último luxo interior que não poderei levar desta vez

me prometendo levar da próxima se o açúcar baixar

mas ele não baixa, não é? ele não morre, ele é duro.

preciso mesmo reduzir o peso, diz a revista, a publicidade...

 

eu e minha voz interior nos dirigimos à fila

nos despedimos do sonho de comer

aquelas coisas que a última classe não deixa

e pagamos com 200 reais os cinco itens necessários à manutenção da existência na fábrica.

 

...meu sonho acaba...

como se não tivesse nascido

como se jamais eu houvesse pisado os pés no éden e na terra.

Desconhecida

 

As utopias acabaram

em nome da televisão,

um erro feito

pelo preço do petróleo

 

Eu te amo, tu me amas

e o verbo já não pode mar

 

Em nome de Cristo

muitas guerras foram dadas

em nome da dívida

uma tristeza no tronco do país.

 

Todos os mestres morreram

e na tua carne se desenha

traços que inauguram um título

baralho aberto no avesso da palavra,

asa feita de corpo e de coragem

 

O mundo agora

cruza um lago sem memória

e em alguns anos

estaremos mais pobres

mais burros

mais tristes

na alma

e no prato  (    )

 

Cresce um rasgo

em massa e sem história

na palavra-passe chamada pátria –

essa nódoa, essa traça

esse vazio imenso do nome

no mito de um tempo chamado aflição.

 

--- 

 

o evangelho segundo a cotação do dólar

 

para Nílson Galvão

 

o padre-pastor, que levanta a calça do menino com o novo testamento em punho, chora feito criança quando vê a cara do dízimo na bolsa de valores em ações da santa amada igreja que veta a prole do terceiro sexo, que treme o cajado na escola dominical e aperta o cinto que bateu na mulher em casa porque ela fez o café errado. ⎯ deus, esse homem! me dá sua camisa de sangue, por favor, mediante boleto bancário, e ficarei curada da doença, da chaga, da dor do que ainda resta de mim, esse punhado de fantasia e fé que só teve da vida a rima da ilusão.

 

Hosanna Almeida

Bahia - NE

Hosanna Almeida é soteropolitana e graduanda do Bacharelado Interdisciplinar em Artes pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Integra projeto autoral intitulado música do mundo. A anatomia dos parênteses (2020) é seu primeiro livro de poesias pela Editora Urutau.

latitude: -12,9527438 / longitude: -38,4866028

@hosannaalmeida

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Poemas

bichos bilhões

 

todo o dinheiro do mundo

não passa dos duzentos mil

 

pense um pouco

bilhões é um par

— de milhões

e milhões já são grandes

      demais

para caber em carteiras

     eletrônicas

 

não dispomos dessa tecnologia

 

por isso precisamos da ajuda dos suíços

eles inventaram

os bons queijos

os bons chocolates

e

as grandes carteiras

de bilhões

 

mas desses

só os bilhões

não são verdade

quem precisa de bilhões?

(dá medo)

 

eu poderia

brincar de bicho papão

com minha filha catarina

e ela apelidaria o monstro

de                        

      bilhões

nós correríamos pela casa

que não é de         bilhões

fugindo dele

 

“e como ele é?”

 

o grande            bilhões

tem muitos olhos

como bolas de bilhar

escorrem gosmas

viscosas

da sua boca

ele nem grita

só resmunga

ghaaaarrrrrggghhhgggg

 

ininteligível

assim como

bilionários

 

bilionários

são amigos

dos monstros

de olhos de bilhar

eu disse à catarina

fique longe deles

 

melhor

 

não se torne um deles

(ela não vai

até parece que seria cabível

catarina me deu sua palavra

 

bilionários são

em geral

homens

grandes

e brancos — eu deveria avisar catarina

 

ela é mais uma criança pretinha

e crianças pretinhas não

pegam amizade com

bichos papões)

merarias

ensina

da terra, a voz

suplica aos galhos 

    [em nós

que ainda rugem

celebra

à terra, semente!

em tua morte ligeira

    [ladeia

A canção da árvore antiga:

 

“e ainda que caia de si a folha

 

resta o tronco

resta o tempo

resta o corpo,

resta a raiz.”

nestes versos o sentido da vida

 

água viva não é água em cerca

água em cerca não é água viva

água em cerca até mata a sede

mas o gosto é férrico e febril

 

água viva morreu dez vezes

se embolou umas vinte

se perdeu e se achou

antes de sair correndo

 

o fim da água viva é parar um pouco

pra descansar

e depois, corpo adentro

recomeçar o circuito

 

o fim de toda água em cerca é virar água viva quando jogada na pia

 

morrer dez vezes

se embolar umas vinte

se perder e se achar

e depois

 

sair correndo

historie de la folie

mugindo lá vai a louca desvairada 

rasgando dinheiro comendo cocô

perdeu-se tão feio tinha candura

foi o mesmo com Alice da rua 6

era menina mulher exemplar

mas desde que ela se deu ao 

        desfrute 

urra corre muge sem parar

vai às ruas ensandecida

a lua lhe afeta anda

perdida largada

e sozinha como 

uma qualquer

“contemporânea”
 

tiro o pijama às 4 da tarde

depois disso continuo dormindo.

vivo o normal intranquilo

desperto quando dá

deixa 

O tempo matura 

esta tortura 

que de bom grado 

te voluntariaste

 

que rompe a aura

que cutuca a alma

que enferma o peito

e, suplicante 

o ensejo

num sussurro consente: deixa

 

desnuda-te, desejo febril

imerge na calidez da urgência

contempla no desespero da ausência

a iminência de um instante

 

deixa, só deixa

eis na faisca, centelha

queimar a efêmera certeza

que vai

 

Juliana Pithon

Bahia - NE

Juliana Pithon nasceu em Vitória da Conquista, na Bahia, em 1995 e mora em São Paulo desde 2014. É poeta e jornalista pós-graduada em Gestão de Projetos Culturais pelo Centro de Estudos Latino Americanos sobre Cultura e Comunicação (USP). Tem poemas publicados na Revista Torquato e nas antologias Prêmio Poesia Agora (Editora Trevo, 2020), Só a poesia Salva (Editora Primata, 2020) e Tomar Corpo (Editora Jandaíra, 2021). Seu livro de estreia, Banana Feijão, selecionado pela Editora Urutau, será lançado em breve.

@ulianapithon

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Poemas

I

rezar pelas vozes e sombras

incorporar as correntezas

escalar as pedras e pular

da beira do corpo

até sumir na água

enquanto troco

no fundo do rio

os velhos olhos

pelo que dança na língua

 

--- 

 

II

ao encontro do rio com o mar dá-se o nome pororoca

e nele

[enquanto eu contava as suas costelas

deitada na sua coxa]

encontrei um coração-baiacu

---

 

III

uma voz sai do
vazio feito grunhido

de barriga com fome

 

eu como pra sua chegada

e faço oferenda em gamela de barro
pra você ficar

 

essa menina ainda vem fazer visita

chora, faz birra
é faminta

 

e vai lá em Dona Nana
pra Joana abençoar

 

- tá encapetada

a vó gritava

 

ainda não é setembro, mas hoje é dia de gira

se você vem, tem caruru

dos sete, o primeiro é seu lugar

 

senta na roda,

come com a mão

e canta o ponto das camisas

 

pelos erês que fomos

mesmo você sendo

santa do pau oco

 

eu agradeço

a força desse congá

aqui dentro

IV

os passantes cheios de saudades

quebram as pontes

para nadar com os peixes
sujos

que vivem entorpecidos de São Paulo

cidade feita pra não olhar pra cima

 

---

V

aqui nesta nova Terra

quando uma coisa é muito inesquecível

costumam compará-la a andar de bicicleta

 

eu nunca aprendi

e lembro-me quando minha mãe foi tentar aprender
já mais velha

e desistiu

 

talvez por isso

esquecer sempre foi nosso forte

 
 

Larissa Rodrigues

Bahia - NE

Larissa Rodrigues, natural do município de Feira de Santana-BA, é preta, poeta, professora, pesquisadora, mestra em estudos literários pela Universidade Estadual de Feira de Santana, milita junto ao Coletivo de Empoderamento de Mulheres – FSA. É co-mediadora do Leia Mulheres e co-produtora do Ciclo de Oficinas em Escrita Criativa em Feira de Santana.  Já publicou seus versos em antologias, especialmente as da Diabo A4 e, vez em quando, venta em http://larigerbera.blogspot.com

@larigerberapoesia

Larissa-Rodrigues.png

Poemas

Regresso

Minha pele cria memórias
das estradas que vivi

porque danço macia
nas águas

 

meu coração cria memórias

que meu corpo não percorreu

ou o ainda pulsa firme

nos dias que desconheço

 

minhas mãos criam memórias

de constelações não calculadas

até que eu,

enfim possa,

me perceber (ou receber)

inteira.

 

---

 

Cicatrizes 

 

Às vezes

As chagas de meus ancestrais 

me assaltam a noite.

 

Desejo como pesadelo aquilo 

Que soa lembrança na minha carne

Preta, vermelha...

Palavras e coisas em trégua por instantes

Para que outros e outros e outros 

Universos sejam criados

E eu, enfim possa esquecer tudo novamente

Mesmo que me venha à boca o gosto da perversa pergunta:

 

Até quando?

 

---

Onde coloco meu corpo?

Nas ruas estreitas da culpa
Nas vielas do vazio 

No oco mais profundo
Onde coloco meu corpo?

Na palavra que rasga
A pele da verdade 
E a voz que pulsa 
É das sombras de si
Onde coloco meu corpo?

Ele percorre caminhos 

Que despedaçam certezas

Que desterram canções 

Que despetalam cruezas

Onde coloco meu corpo?

Na janela das ausências
No fôlego das nascentes
No instante-contínuo 
Da porta de entrada 

De um corpo-casa.

Bem vinda.


 

Eu sou uma mulher negra?

Procuro no espelho
na história
nas raízes
traços 
trajetórias
nos tons
nos meus silêncios
silêncios alheios
e aprendo 
[quase sempre] 
a ouvir.

E calar junto.
E gritar junto.

Persigo a resposta 
espero a cicatriz

lembro
[quase sempre]
Que o que me rasga
É a pergunta.

 

---

 

Ninguém perdoa as mulheres negras

 

Não há como nascer palavra

Onde é plantado silêncio 

Nem nascer afeto, abraço 

Onde é plantada violência 

Falta pele areia fina 

De onde se apagam todos os erros

Em eternas ondas coloniais 

O riso, a pólvora, o medo, o chicote
Cantam em coro canto de morte 

Canção de ninar capital 

nada que te lembre humana caberá no poema
A mãe do menó amanhecerá amena 
no lombo o vazio peso

Dessa coisa-vida.

Não há perdão. 

Ninguém perdoa mulheres negras.

Letícia Simões

Bahia - NE

Letícia Simões nasceu em Salvador, em 1988. Formou-se em Comunicação na PUC-Rio e estudou Roteiro e Documentário na London Academy of Film, Media and TV e Artes Plásticas na London Art Academy. É mestra em Cine-Ensaio pela Escuela de Cine y Televisión de San Antonio de Los Baños, em Cuba, e mestra em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

latitude: -12,9289312 / longitude: -38,5195626

@lettsimoes

Letícia Simões.PNG

Poemas

Aaron

 

ainda creio em sinais

ainda que esteja difícil

encontrá-los

nos tempos de hoje

 

ainda creio nas sombras do universo

aquelas que dançam entre dez da manhã e uma da tarde na parede do quarto

projetam uma cidade desconhecida,

um pavão em um giro mortal

 

(quem diria, pavões também executam à perfeição

saltos de ginástica olímpica:

são sinais)

 

o historiador americano aaron saachs

escreveu que a maior qualidade dos primeiros exploradores

era dominar a arte de se perder:

no fim das contas,

conhecer seus instrumentos e

ter algum otimismo em relação

ao caminho por encontrar

 

ainda acredito em deixar a porta aberta

quando invisíveis nadadores transpassam

o meu corpo

atravessam com a luz

trazem a sede de amor e água

que somente pode existir no verão

 

são sinais

 

ainda que esteja difícil,

nos tempos de hoje,

crer em suas

aquosas e milagrosas

existências

 

ainda acredito nos diamantes inventados pelos homens

não os encontrados,

reluzentes, perigosos

mas aqueles feitos pela língua

(cuidado, o perigo é ainda maior):

tropical,

navio,

cumbuca,

nefasto.

 

um amálgama de inesperados sons

que requer nada menos

do que a nossa vida

 

dois cavalos

depois de uma larga e estupefata corrida

quando cansados

se reconhecem em suas derrotas de cascos

e coices

e erguem as patas

dançam em uma língua eqüina

o exercício de buscar justamente

aquilo que lhes é desconhecido:

 

não há derrota para os cavalos,

somente a corrida.

 

uma vez tentei acreditar nos sinais de cortejo

de uma alma diante da outra

em tempos de guerra de calendário

mas fui obrigada a reconhecer

os muitos mais cortejos das almas infelizes,

versadas em vestidos costurados de manhãs frustradas

 

esses não são sinais.

 

como reconhecê-los, então?

 

pensemos nas gaivotas

que em suas barrigas guardam o segredo do futuro

 

pois bem

 

agora, quando estiver sozinho ao mar

e avistar uma gaivota

observe bem seu branco dorso

 

nele estão todos os sinais

 

num tropeçar,

ela abre vôo

 

voa

voa

voa

 

traçando um arco infindo de perder-se

mesmo estando em casa

(o maior sinal).

Agora, os cavalos

 

poderia segurar a sua mão mas tenho medo que ela desmonte

de súbito

pelo toque fraudulento da minha

 

não há mais espaços para dançarmos; ainda assim

vão-se lá pernas e tecidos e membros ocultos

 

com algum álcool no sangue,

tentamos, com muito fervor, repetir frase a frase o discurso tão revelador

da madrugada de quinta-feira

 

agora sequer lembramos do que falava mesmo

 

talvez fosse

aquele panfleto ordinário que um hippie qualquer

nos entregou - com raiva nos dentes, quando lhe negamos moedas na mesa da rodoviária

 

lições retiradas de um manual para aprender a comunicação com cavalos: (o curso completo pode ser entregue na sua casa a doze parcelas mensais)

 

- não olhe para baixo mas sempre para onde se quer ir;

- não retenha a respiração, para ficar mais descontraído;

- ao segurar as rédeas pense que leva um passarinho nas mãos;

- agarre-o para que não fuja mas não o aperte para não o magoar;

- ao galopar tente captar o movimento com a cintura;

- um bom cavaleiro, apesar de parecer que está quieto, sempre acompanha o movimento.

Dentes

 

assim como conheço uma cidade

pelo peso do meu corpo

quando sou levada pelas minhas coxas

por uma esquina que deságua em um supermercado

onde certa vez roubei um sanduíche

- eu que nem gosto de pequenas porções amontoadas com pequenas porções

gosto do inteiro, mesmo que doa a boca -

pelo mero prazer de me saber capaz

de esconder insignificantes segredos,

quando os grandes caem todos pelos dentes.

 

(adoro dentes.

acho-os fascinantes.

pessoas de caninos prontificados gozam de palavras fortes.

pessoas sorrateiras costumam fazer clareamento.

as sedutoras também,

mas elas vão em dentistas mais baratos.

gosto de quem tem dentes tortos,

geralmente são alcoólatras.

também gosto de quem usa aparelho tardiamente,

parece uma brincadeira com o tempo:

caber onde não pode.

ou poder onde não deveria.)

 

assim como conheço uma cidade

pelo peso do meu corpo

conheço o peso do seu corpo

carrego o peso do seu corpo

como o aprendiz de joalheiro que esteve um ano com uma safira agarrada ao punho

para sentir o exato vazio de quando se ela foi.

conheço o encaixe dos seus braços,

um abaixo da axila, o outro acima do ombro

a sua perna esquerda buscando a minha cintura.

quando você está em dúvida, seu olhos mudam de cor

e quando você me disse para não confiar em alguém com olhos furta-cor

somente lembrei do rio onde consigo chegar sem mapas

mesmo anos depois de ter deixado a cidade,

mesmo de olhos fechados,

porque até os rios pensam que podem equilibrar o inferno,

- os corpos, não.

 

Lorena Grisi

Bahia - NE

Lorena Grisi nasceu em Salvador. Publicou Exercícios físicos em 2021, pela Editora Paralelo13S. Em 2020, foi uma das selecionadas em concursos literários e no edital Arte como respiro, do Itaú Cultural, na categoria poesia escrita, tendo o poema publicado no caderno digital onde caber. Tem poemas publicados nas coletâneas Hilstianas vol. 1, Antologia Ruínas, Mulherio das Letras Portugal, entre outras.

latitude: -12,8754716 / longitude: -38,5016508

@instagrisi

Lorena Grisi.png

Poemas

Exercícios físicos

 

Faz atividade física? Faço, longe de mim ser sedentária. Não fumo, bebo pouco e carrego comigo este carma de gerações, estes genes, o peso dos dias, esta cabeça que não vem sobre os ombros, vem sobre o pescoço, porque os ombros, é o mundo o que eles suportam e por isso tenho hipercifose. Não sou preguiçosa, ando a pé por essas ruas levando tudo o que é desnecessário em minhas costas, só para ter certeza de que não vou utilizar, mas está tudo ali, são coisas minhas, é tudo o que tenho, pode-se dizer que configura um patrimônio. Juntei cada uma dessas peças como quem guarda pedaços de quebra-cabeças distintos na esperança criativa de montar paisagem própria, forçando encaixes e aceitando que buracos são também composição de destinos. Portando sempre meus objetos, sou meu meio de transporte, meu caminhão de mudança para cada apartamento semimobiliado alugado e, no percurso, perco bibelôs e memórias, o que deixa mais leves as caixas de papelão e é por essa razão, ademais, que eu sempre fui bem magra, embora nunca, nunca mesmo, tivesse sentido medo de que uma ventania me levasse consigo. Tudo ótimo enquanto estiver perdendo bibelôs, o que não dá é para perder as chaves, a cabeça ou o prumo. Eu sou muito ativa, me exercito, escrevo, apago, escrevo, reviso; no ano seguinte, eu abro o mesmo texto e reviso, apago, escrevo, guardo, esqueço. Esse exercício fortalece a mente e os ossos, explico, ele recomenda musculação três vezes por semana, no mínimo. Pergunto se ele já experimentou um teto desabando sobre si e tendo de levantá-lo com as mãos, no sentido oposto à gravidade, e isso na hipótese boa, que é a de ter um teto; ele me diz academia, corrida, pilates, eu digo meu querido, você não faz a menor ideia do que é ser uma mulher.

 

 

cardiorrespiratório
(com influências da reflexologia)

 

três mentiras:

alamedas

tese, antítese, síntese

uma artéria longa e livre

começando no coração

e se ramificando

num complexo de túneis

espelhados nas linhas da palma da mão,

que dizem: viverás tantos anos

quanto estiverem desimpedidos esses túneis

subterrâneos

subcutâneos

e o tráfego for ordeiro, polido,

quase um tráfego oriental,

em velocidade média de um quilômetro e meio por hora,

às vezes menos, não há motivo de pressa,

é tudo uma questão de transporte de cargas,

mais que isso é acidente, previsto

na palma da mão, nas fibras da íris,

em pontos da sola do pé que,

novamente, só os orientais

atravessam a existência conhecendo, apertando e

rindo da desgraça alheia

convertida em tráfego engarrafado a todo o tempo

esse não chega nem aos cinquenta

com tão pouco combustível e essas bobinas

desconectadas

os orientais leem o grande livro

escrito no calcanhar de um analfabeto

especialista em geradores de energia elétrica

de edifícios de cem andares

que não abrigariam nem a ele,

nem aos seus filhos, se sua casa desmoronasse,

se a cidade inundasse ou se toda a sorte de líquidos

se misturasse e desalinhasse a arquitetura dos túneis

e dos pequenos canais, denunciando as imperfeições,

as obstruções, os nódulos, os coágulos, os excessos

cometidos em 2014, as marcas, os registros,

as mentiras, que estão todas lá, bombeadas por um músculo,

setenta vezes por minuto elas circulam do pé

à cabeça, os orientais sabem,

eles estão lendo no centro do calcanhar e na divisa

da planta do pé com o dedo mindinho,

eles estão gargalhando da crença em bosques e álamos

no meio de uma cidade da América do Sul,

da crença em corridas, maratonas,

basta um quilômetro e meio, não há motivo de pressa,

e pode-se respirar aliviado, pois não há nada de novo nas artérias,

nem nos próprios orientais, eles até se envergonham,

é que as mentiras já foram todas inventadas.

Cartografia

 

No canto da tela com o mapa,

há uma escala de grandeza que diz

1:300.

 

Cada trezentos metros do meu caminho estão reduzidos a um centímetro, nessa escala de grandeza cartográfica.

 

Acho engraçado dizer escala de grandeza.

Eu poderia falar: Numa escala de grandeza, eu parti o pão e te deixei o pedaço maior.

 

Se diz também está para, na leitura das escalas: "um está para trezentos".

Esses trezentos metros foram reduzidos

para que, no caminho,

eu não desvie o olhar,

para que eu esteja para,

ou o objetivo de chegar

não se cumpre.

 

Na física quântica,

o lugar existe enquanto eu olho para ele.

Ele está para mim,

reduzido à escala de minha retina,

que é de 1:10 metros de visão frontal e periférica.

Para mais que isso, o mapa

e a grandeza de encerrar o que não existe,

porque não estou olhando.

A queda

 

E se o sentido for o invisível,

o intangível, no ritmo irrefreável

da queda no abismo

místico?

 

E se o motivo for incompreensível,

antes mesmo do vivível,

sem cor, sem corpo, sem cordas de segurança máxima ou, ao menos, mínima?

 

E se deus for maníaco-depressivo, bipolar, histérico, esquizofrênico, obsessivo-compulsivo,

quem protegerá deus e lhe lembrará de tomar

o ansiolítico?

 

E se um outro cometa chegar e a Terra atingir, e explodir,

e eu sumir com todos os meus vestígios e

meus ossos, antes rígidos, agora pífios?

 

E se as ideias desaparecerem,

e os sonhos, e os encontros,

e os poemas, perdidos no cosmos inatingível

como aquela sonda espacial nunca recuperada e

com uma imagem eternamente indizível?

 

E o ilegível, e o inefável,

e o inimaginável?

Quem vai tocar a canção

de compositores mortos de amor e de ódio e

de tédio no andamento certo, pianíssimo, fortíssimo, sforzando, se esforçando,

com quais forças, e de onde, com que braços

sem abraços e com o olhar baço

de quem quer o invisível, o intangível,

a clareza do precipício?

 

 

Por acaso, acidente, por destino

 

Quando, ao sair à rua, se encontra o carteiro

em frente ao edifício, em horário diverso daquele

em que ele vem, todos os dias, e ele carrega consigo, além de suor e sorriso,

entrega não encomendada, materializada numa caixa

envolta em mistério e carimbos,

muitos dizem por acaso, coincidência,

por destino.

 

Mas se à uma da manhã de um dia de férias tranquilo,

em que se dormiu com os anjos, sem conhecer desconforto,

barulho de vizinhos, má notícia, frustrações ou a presença do perigo,

uma árvore despenca e desperta do sono os justos e os injustos,

porque esses últimos também dormem, ao contrário

do que esperam os que creem em narrativas de culpa,

remorso, consciência, paz de espírito, e se a queda dessa árvore acontece

em cima de um automóvel no qual se vê, no banco de trás,

uma cadeira de criança, e essa árvore atinge justa

e precisamente a cadeira ocupada pela criança, que também dormia,

muitos dizem por destino, linhas tortas, fatalidade, desígnio.

 

Quando a cabeça lateja, quando o corpo não responde

aos seus comandos, quando a necessidade é encolher-se num canto

escuro e fazer uso de comprimidos esteticamente perfeitos em suas formas,

como se esculpidos, circulares em cada uma de suas miligramas,

e ingere-se um, e mais um, e mais um, e mais um porque

não se está acostumado com isso de raciocinar em miligramas,

multiplicar as miligramas, não se está habituado à matemática

dos compostos químicos, no dia seguinte, é previsível,

tocarão a campainha e, não sendo atendidos,

eles dirão acidente, descuido, imprudência,

desatino.

 

Numa fábrica qualquer, pouco importa em que país,

posto que fábricas são territórios indistintos como aeroportos,

igrejas, desertos, submarinos,

nessa fábrica qualquer, próximo ao fim do expediente,

num dia de alta produção e de funcionários felizes

como só são aqueles úteis à sua tribo,

um vazamento de gás asfixia homens e mulheres que vestiam

uniformes iguais e morriam iguais e as explosões que se seguiram

foram exatamente iguais ao bombardeio da Líbia

em 1911 e muitos disseram, incluindo a igreja,

o dono da fábrica, os marinheiros e os beduínos,

do descaso, coincidência, acidente, negligência.

 

Ao dizer acaso, recorrentemente, se referem ao pássaro

que fez ninho na calha do telhado e cujos ovos serão chocados

no dia do aniversário do velho senhor dono do imóvel,

ao que também chamarão de coincidência, sincronismo, entretanto,

se o velho senhor odeia pássaros, preferia morar num apartamento

no centro, é exímio caçador e é por aves faminto,

chamarão de acidente, cadeia alimentar, fatalidade, fortuna,

que é o que se diz, recorrentemente, de quem elegeu seu alvo

e dele decide a ventura.

 

Lorena Kalid

Bahia - NE

Lorena Kalid nasceu em Itabuna, na Bahia, e chegou em Brasília há 7 anos. É servidora pública, mestre em Literatura e escritora de Voal, seu primeiro livro de poesias. Também é sócia e fundadora da Taipa, editora independente voltada ao incentivo da escrita e do debate sobre criação literária.

@editorataipa

Lorena-Kalid.png

Poemas

Duas mulheres se olham

como adivinhassem quase

que raro grave rugoso

se frouxo ou em mora basta

contraírem nos lábios

etéreos risos trincados

na seriedade rota

 

Mal amoldadas no alto

de suas bambas trípodes

estalam duas mulheres

na brasa, sinteco, o beijo

articulação de escolhas

para tantos quantos dirão

de que vale o alvoroço

 

---

em termos

sua voz sabe tantas

coisas que só

ouço

 

sou só

ouvidos

 

ouço, ouço

o espinho do silêncio acaso

 

aguda murmuro em dias

de desleixo

esvazio

 

viro ouriço

 

agulhas alinhavam a boca

em letras caligrafadas

nos lábios, bem caprichosas

 

pelo reflexo enxergo enfim

bordado oco

o recado óbvio

 

ou segue calada

ou muda

Drummond e este barulho

todos sabem que o mundo

não passa de empresa anônima

reciclando caixas e vidros de azeitona

merthiolate o som das duas unhas

que se enfrentam todas as imagens

vulcões os rapazes tão confusos

com seus sedans suas babás seus bebês

um pouco de suas queixas nas queixas

de suas filhas vociferantes o pó

trazido das ruas nas botas de viagem

e os fios claros e finos do cabelo

de minha vó todos sabem muito

este queise clássico de saber

tão inefável quanto inútil

 

Maria Luiza Machado

Bahia - NE

Maria Luiza Machado é escritora, poeta e editora baiana. São três livros publicados: Algumas Histórias sobre a Falta (Edição da autora, 2018); Todos os Nós (Penalux, 2019) e Tantas que Aqui Passaram (Mormaço Editorial, 2021). É editora da Mormaço Editorial, pequena editora independente lançada em 2020. Organizou a antologia Corpo que Queima (2019), que reuniu 41 poetas baianas.

@marialuizamchd

Maria-Luiza-Machado.png

Poemas

Jenifer

não sabia que seria preciso 

explicar para o mundo 

que naquele momento 

só queria definhar em seu silêncio 

sem ouvir teorias a respeito 

do que ainda nem se sabe como 

mas aconteceu 

só quero morrer em seu próprio silêncio 

dizia 

 

e não se importava mais em saber o

motivo  para toda essa gente achar 

que a falta de palavras ou ruídos

era algo tão ruim 

silêncio é silêncio 

é o que é pedido em templos 

igrejas 

bibliotecas 

laboratórios 

em todos os lugares em que são necessários 

alguns minutos 

no mínimo 

de contemplação 

só queria contemplar a si mesma 

diante do que tinha se aberto em sua frente 

e ainda não sabia como trancar de volta

 

---

 

Não me ensinaram

quantas vezes

quantas vezes mais

os gânglios da garganta

precisarão acordar

inchados

junto com o corpo quente

apesar do mais sofisticado dos termômetros

apontar a temperatura ideal

pergunto,

a quem estiver ouvindo

 

enquanto me olho no espelho

para me acostumar

com os movimentos dos meus lábios e o som

que entrará em meus ouvidos repito até o dia

em que conseguir pronunciar sem maiores

esforços ou culpas

muito menos melancolias posteriores

um simples e sonoro

não

não

não

não

não

repetir mais 3 séries de 15

 

--- 

 

Rafaela 

 

as fibras que compunham 

o tecido de sua roupa 

de repente pareciam 

tão 

tão frágeis e transparentes 

ali, naquele meio de noite 

naquele meio de rua 

já tão conhecida 

— sabia até dos buracos da calçada 

e da posição dos paralelepípedos

soltos da pista 

 

cadê a luz dos postes 

dos carros 

da lua 

de deus? 

desconhecia de repente o ar que respirava 

entre correr e chorar 

ficou com o segundo 

— cair por causa dos saltos altos 

estava fora de cogitação 

preciso fingir que sou invisível 

preciso fingir que são invisíveis

pela volta das lâmpadas incandescentes

já é escuro e esqueci

que no fim do corredor tem uma mesa

 

com a quina toda virada pra onde é

passagem; ainda não achei melhor lugar

pra colocar esse pedaço de madeira velha.

 

mas que bom

que nas últimas vezes

as crises têm acontecido nesses

horários, já sem luz.

 

sair do quarto num dia quente

e me deparar com as cortinas

que ainda não existem penduradas nas

janelas seria como ser engolida

por lâmpadas fluorescentes.

 

eu já fui engolida por algumas,

que me mastigaram e cuspiram de volta.

 

não foi uma boa experiência

- acredito que nem para elas.

devo ter um gosto muito ruim.

 

nem me importo mais com a dor

do pé da barriga por causa da quina.

o bom é que ela é aguda,

que nem me disseram que é uma

apendicite, e faz com que eu me distraia até

chegar ao armário de remédios.

 

de todas as decisões que tomei

para a mudança dessa casa,

a mais inteligente

 

foi projetar o tal armário

do tamanho que eu tenho direito.

          eu preferia estar tendo uma crise de

                               apendicite.

 

ainda não decorei o formato

de todos os comprimidos,

só mesmo o do Sumax.

a vontade é de engolir logo uns três,

mas tem tanto comprimido aqui

dentro que é impossível de achar.

 

não quero acender as luzes.

não sei quem inventou

de tirar do mercado

as lâmpadas incandescentes.

elas pareciam me engolir

com mais gentileza,

às vezes nem chegavam tão perto

se eu ficasse quieta

com os olhos bem fechados.

 

deslizando a mão pela parede,

era um alívio que fosse fria

e o interruptor ainda estivesse

 

longe. achei.

 

a lâmpada

acendeu.

 

fui engolida.

---

siamesas

 

I.

uma linha

curva

pequena

fina

na palma da mão direita

às vezes perguntam

que foi isso?

é de nascença,

respondo

pra disfarçar o formato exato de tua unha

[sempre achei teus dedos

curiosamente

longilíneos demais]

marca

que ainda cicatriza

demoradamente

por vezes cutuco até a carne

por vezes esqueço.

II.

da época em que tua mão

nunca soltava a minha

um apego

uma corrente

um freio

sempre um não

muitos nãos

olhadas de canto de olho

ou de cima à baixo

começou há tanto tempo

que nem me sinto mentindo

ao dizer:

é de nascença.

III.

até que

cirurgicamente

puxei minha mão de volta

pro meu corpo

quando enxerguei

finalmente

que ela pertencia a mim

[apesar de por toda a vida

você me fazer acreditar que não]

jorrou tanto sangue dali

fiz um rio

vermelho claro

ralo

já que as lágrimas também quiseram

virar nascente.

 

Mariana Paim

Bahia - NE

Mariana Paim é doutoranda no programa de Literatura e Cultura da Universidade Federal da Bahia (UFBA), integra a linha de pesquisa Lesbianidades, Interseccionalidades e Feminismos (LIF), vinculada ao NuCuS. Além de se dedicar à pesquisa, ao magistério e à escrita, milita  no Coletivo de Empoderamento de Mulheres – FSA, é co-mediadora do Leia Mulheres e co-produtora do Ciclo de Oficinas em Escrita Criativa, em Feira de Santana. Publicou serei_as: ou ensaio de um mergulho no âncora (2019) e está trabalhando em seu segundo livro, Ausência.

latitude: -11,9684057 / longitude: -39,1036681

@marianaspaim

Mariana Paim.png

Poemas

(d) o mar

 

o mar dançando em

nossos pés

teu cheiro roçando

em minha pele

um mergulho em

você que

também trans

borde em

mim

em nós um

corpo inteiro

de palavra fazendo

festa e abr

                     indo caminhos

 

 

pela primeira vez

 

a primeira vez que vejo o peso

da fotografia sobre a mesa

é também a primeira vez que calculo

e penso que o tempo nunca

é a medida exata da saudade

mas desse espaço

cheio de lacunas

que ficaram entre nós

pela primeira vez penso

em dizer e

as palavras

lacrimejam

travessia

 

palavra

                como

                             desejo

                                            é

                                                   travessia

o não é a palavra mais selvagem

 

reaprendo a ler todos

os dias e hoje

só sinto

pelo tempo

que foi de mim tirado

troquei os móveis

por espaço

não cozinho, lavo ou passo

e não divido contigo

nem a cama, só

durmo comigo, com

a Florbela Espanca e a Emily Dickinson

moro e acordo nas palavras

e sigo amolando-as feito faca

sendo o não a mais

afiada

 

 

the lovers

 

hoje eu vi uma

fotografia branca,

                            [como essa página

nela um deserto de sal

preenchia todo o campo

não havia ninguém no horizonte

à vista

sem caminhos

apenas o branco do chão

refletido por todo o céu

talvez seja isso o que reste

o solo estéril 

das perdas

em meio as travessias

os planos

os danos

comuns

a paisagem

um imenso vazio

todo branco

algumas vezes é preciso

cruzar a muralha da china

em outras talvez

o silêncio só

já diz

algo como um adeus

 

Pollyana Sousa

Bahia - NE

Pollyana é baiana de Feira de Santana, se debruça na investigação de suas dores e dos seus, não lembra desde quando usa a linguagem poética, mas o olhar sempre foi minucioso. Curiosidade e memória dão fluxo à escrita e a poesia surge a partir dessas experimentações, o que também se tornou um alívio mental em tempos difíceis. Vencedora do Prêmio Maraã de Poesia 2020, em breve terá o primeiro livro lançado.

latitude: -12,2549307 / longitude: -38,9661469

@pollyanadsousa

Pollyana Sousa.png

Poemas

A-vóz


fruto de desarvoramento

não conheceu seus pais

não conheceu seus filhos

não se conheceu


feitio de ama, herdado sem papel

de pouco seio, tornou-se úbere
azada a sorte de ser mãe, tal como se espera
doou um pedaço de si para cada cria

 

repartida em quinze

reunida em caixa

dor ancestral
culpa cristã.

Tapeçaria


algumas cores de tricô

apara a pisa do pé d'água

recusa a brecha da peçonha
tapeia o cisco do chão batido
arruma a tábua pr'uma madeira pura.

In cômodo

 

sou incômoda ao seu espaço

chega pra lá, tá me apertando

meu tamanho de gente

medido em massa
torna presença
de elefante branco


eu saio do plano
te dou mais conforto

 

você sem-te falta

do aperto banido

castelo é mansão
por mãos a palmadas

 

de volta

re(cinto)

teu nojo

polido

Eu ancestral

marital

esquema

solo

ouvidores
de um tempo eu

marca dores

genéticas
e curas

congênitas

Herança


novelo de mãe
passa de filha para filha

filas

 

mãos pequenas
recebem a ponta da linha

emaranhada, frágil

 

sem instrução

reage ao nó
faz o que o mundo diz

xinga, sopra, puxa

 

enfurecida

descarrega cólera

 

cansada, lamenta

pede por Deus

lembra que é de mãe

procura nas gavetas

 

desiste
pega a lâmina afiada

 

desiste

descarta

 

emaranha um novo novelo.