Bianca Vieira

Amazonas - N

Estudante de Letras e literatura portuguesa, nortista, amazonense, lésbica, artista, pseudo-cineasta, candomblecista, pesquisadora de literatura de autoria feminina e movimentos culturais. Por ora, poeta.

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Poemas

       porta copos azul

blusa de crochê cor rosa claro

sem usar sutiã

ou soutien, se a língua enrolar

 

ritmo, ínfimo, infiel linho

rimado com rímel

nos olhos a cintura

a curva da íris

 

petúnias no balcão

são fúrias tímidas

tu tem coragem? ou é atuação?

 

desejo tem olho

cheiro frouxo

o orí tem saúde

mas as cartas que tu jogou me tiram do sonho.

 

atenção

(se) as minhas mãos fizerem caminho

(caso) o alcance for sim

tem carinho?

 

minha língua em peão

te ensino como falar

me dá um gole?

 

 

o corpo // dose impreterível de metalinguagem

 

falas sem compreensão

as ruas só são

nuas com buracos

rasgos de pneu e pés

daqueles que se vestem de paixão

 

que se explica, se come e se nutre

inalando nada que seja true

a boca me pergunta do pão

sem entender o que é fome.

 

germinar para gritar

consciente da ciência que preza você aqui

sem compreender o latim cuspido nas paredes

mas crente do que virá.

 

cama sem tatame e grão cor de castanha

costa de constelação

teimosia dos dentes de salame

o que realmente ficou? [agora sou estranha]

ascensão

costuro-me desenhando vestidos

em poemas sáficos nada enrustidos

sua pele brilha amarelo queimado

como lésbica, tenho o hábito de lamber o prato.

 

clicar nas suas mãos (risinho modernista) só pra perder as digitais

se digo mais?

a insipidez de perpassar seus cabelos soltos

ao córtex, dedico meus dedos solos.

 

aonde você está? saboreio a quebra do mar

tu me ri nas margens do rio

mergulho,

não podemos ressacar a raiz e o fruto.

 

enveredei pelo (seu) quadril da cidade

metropolitana, seus cadernos rubros

em verdade

luzes por cruzes e enfim.

 

de fome não vivi,

depois que soube que tu era gente

se eu dormi?

cílios seus nos meus como eu quis.

 

pássaros inhos na sua blusa

descompassei trôpega na linha

enganei na cor do vestido que você usa

 

mas beijá-la,

 

eu sei bem como costurar.

na beira da cama

 

I.

o telefone toca baixinho 

em claro e o teto de confidente

as paredes enxeridas 

investigando outra vez o que eu abafei

debaixo do dente.

 

no andar do apartamento

o fim do mundo se tornou balela

e eu permaneço inafiançável 

dentro da torre de babel.

 

os pés para cima e os olhos girando

a voz afinada, fora do ponto

teima dizendo 

elas estão se amando.

 

enumero a mistura de tintas

o chão brinca de ficar no escuro 

chá frio e biscoito borrachudo 

... finda com o vidro que tilinta. 

 

II.

 

recorro ofegante aos pedaços de rua

que cabem na garganta

para que eu caia no sono

e ocasione nosso reencontro.

 

o travesseiro imita teu colo e eu pinto a porta

deixar-te entrar

me livrou de estar morta

farta do fingimento que é mascarar.

 

o que os olhos não mentem

e as mãos insistem em voltar

                              eu preciso dizer que.

 

osgas e lagartixas trincam os canos

escapando de modo elegante

sutil e armado

fazendo a entrega do meu recado.

 

ouvidos cerrados e a boca meia lua

mais que nua

descoberta.

 

Danna Dantas

Amazonas - N

Amazonense, 26 anos, estuda Letras (UFAM), escritora independente, revisora, gestora de projetos, co-criadora do projeto artístico Urban Cookie: histórias incrivelmente comuns, autora selecionada para compor a edição Sentinela da revista Garupa, e editora e colunista mensal na revista Mormaço. Nascer no interior me levou a escrever sobre os lados de dentro.

@mundanna

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Poemas

pra ler ouvindo farewell love song mas não de um jeito triste

 

esses dias estive pensando

em que coisas os nomes são e com que nomes as coisas se chamam

e daí, em chamar as coisas pelo nome certo pra ter certeza de que não se está mentindo

foi assim que entendi que quando olho pra fora e o mundo parece um abismo imenso, com caminhos demais pra se perder

o que sinto não é medo, é desamparo.

o que você acha que impede as nossas lágrimas de escorrerem todas pra dentro dos olhos? a gente poderia chorar sem ninguém ver.

 

se eu conhecesse o idioma dos viajantes, teria entendido antes, que passar a vida toda se preparando pro momento em que as pessoas vão embora da gente

não nos protege de nada

se eu andasse menos distraída nos caminhos que passamos

não teria esquecido que você me contou que se despedir é exatamente igual aos seis e aos vinte e seis

 

eu não queria chorar na sua frente

por isso enterrei os pés na terra para tentar ter o equilíbrio de uma árvore

crescer como uma

resistir aos ventos como uma

conhecer os apelidos de todas as coisas que brilham no escuro, assim como as árvores conhecem

(incluindo os vaga-lumes e os teus olhos contando histórias)

 

então, volto a chamar as coisas pelo nome certo:

isso que me faz olhar pra fora e ver um amor imenso, eu chamo de você

longe é de onde a gente veio

reencontro é qualquer hora dessa

se eu não olhar pra baixo, o mundo não é abismo, é céu

e a gente tem muitos lugares pra se perder

e tentar e tentar e tentar

rindo do jeito que eu rio quando penso que o reencontro vai trazer o teu cabelo cheirando a mar.

você sabe, não sabe? aqui ninguém nunca precisou jurar que volta

não enquanto no peito couber tanto futuro

tanta incerteza

e a certeza

de que o rio onde a gente nasceu sempre nos chamou pelo nome completo, pra que nunca houvesse dúvida de que que ele falou sério

quando nos jurou

que sabe exatamente onde desaguar.


 

raso e fundo depende do quanto você cresceu

 

venham ver, uma criança aprendeu a nadar

seus braços em movimentos contínuos

pairando como fazem os filhotes de encantados

com suas pernas esguias

a pele queimada de luz

e o cabelo escorrendo como o nosso tempo aqui

 

vejam, os olhos da criança se abrem no fundo do rio

e os peixes dizem olá, como vão os corações despedaçados?

e as algas crescem corajosas

e as folhas caídas se permitem afetar

e amolecer

e se tornar o fundo do mundo

 

vejam com seus próprios olhos, uma criança se permitiu acreditar

ser atravessada pela correnteza de pedaços de alma

e pela pressa que revira os estômagos emotivos

se tornando antiga

como as mágoas que as águas não deixam ir

e os conselhos que as mães dão

 

venham ver, vejam todos

uma criança aprendeu a recomeçar

é assim que ela não afunda

descender

 

por que somos assim?

assim desventura

assim desapego

assim desordem

assim desaperto

 

nessa família as pessoas vão embora sempre que não sabem o que fazer

assim de repente

assim desacordo

assim de relance

assim desaforo

 

não fazem o que disseram que fariam, mas tudo bem

eles só prometeram coisas ruins

assim desmentidas

assim desistentes

assim desalmadas

assim decorrentes

 

é a primeira vez que somos adultos como eles já foram

assim desafio

assim desejo

assim desamor

assim desterro

 

nessa família o sangue quer morrer jovem mas só consegue algumas vezes

assim deslumbre

assim desencanto

assim desde sempre

assim desse tanto

dez fevereiros atrás

 

só percebi que o tempo passou quando notei que meu pai começou a contar histórias repetidas como os velhinhos conversadores gostam de fazer

faz dez anos que houve um fevereiro em que saí e nunca mais voltei pro lugar onde cresci e tudo seguiu como se eu nunca tivesse estado lá.

 

os lugares sempre seguem em frente.

 

minha irmã voltou

e me contou que tudo está exatamente igual, só que dez anos mais velho.

 

me deu muito medo de ser assim.

 

também contou que a cidade inteira tem a tinta descascando de cima a baixo e que a senhorinha que a gente chamava de bruxa deve ser bruxa mesmo porque depois de tanto tempo ela ainda não morreu

nas fotos que recebi, entendi que a casa onde morávamos na infância é muito maior na minha memória do que é na realidade. as janelas altas - que eu precisava pisar no sofá pra alcançar - estão pouco acima do meu umbigo, posicionadas de um jeito meio ridículo.

 

é pela mágica do mundo que é possível que as coisas sejam grandes e pequenas ao mesmo tempo.

 

lembro muito daquela casa e fiquei horas pensando porra irmã não acredito que a lua parou de seguir o carro do papai depois que a gente cresceu, aquele gol prata era mesmo especial

não merecia ter sido vendido como sucata depois de um acidente, foi um encanto interrompido cedo demais.

 

meu pai disse que até hoje não sabe o tamanho do que a gente merece.

ele não anda podendo dirigir.

 

essa semana recebi uma foto da outra casa, a casa dos treze aos dezesseis, onde os anos pareciam menos mau humorados.

encarei a foto e me senti distante, foi como estar dez anos mais velha também.

só por curiosidade gostaria de saber quem mora lá agora e se ainda deixam crescer o capim-santo no quintal

sequer lembro o nome da rua, mas por um instante fui capaz de voltar a morar nela pra reencontrar todos de quem não me despedi naquele fevereiro que eu não percebi ser o último.

 

fevereiro costumava fazer as coisas parecerem melhores, do mesmo jeito que a minha memória faz

 

é por ele que tento fazer com que meus dedos escrevam algo que console a mim mesma do sentimento de que viver é mais difícil do que consigo resolver e me lembre que as cidades que me aumentaram eram pequenas mas tinham nome de fé e de água brava, pura encantaria.

 

queria perguntar às senhorinhas que ainda acreditam em mágica se é errado acender uma vela pedindo pra não ter que ser forte.

quero viver até encontrar duas garotinhas que acreditem que eu sou bruxa também.

 

de histórias repetidas eu sempre gostei.


 

as palavras nascem no leste e se põem no oeste

 

o dia amanheceu tão bonito que me paralisou.

nunca vi um dia como este.

 

as pessoas costumam usar a expressão “não existem palavras” quando querem descrever acontecimentos extraordinários

acontece que, dizer que está sem palavras significa ignorar a maior iluminação de todas:

as palavras estão todas aí.

 

em alguma manhã tão fora do comum quanto esta, haverá uma campainha tocando e uma porta se abrindo em seguida

 

— bom dia, as palavras se encontram?

— oi! sim, as palavras estão em casa, elas nunca saíram daqui.

 

as palavras encontram-se.

 

as palavras existem!

fico a ponto de gritar isso na janela, comentar com as vizinhas, telefonar para minhas tias, enviar cartas que apenas por serem feitas, já comprovam a revelação.

as palavras existem.

 

em 1979, Cátia de França avisou que há vinte palavras girando ao redor do sol, nos mostrando que as manhãs só existem se falarmos sobre elas.

 

neste mesmo ano, neste mesmo disco que continha o aviso, houve uma canção com o nome da minha avó. não é assombroso que tenhamos uma palavra pela qual todos nos encontram?

tão assombroso quanto o invento de mecanismos bastante  revolucionários, como as portas e as campainhas.

 

as palavras existem para que as mais velhas contem sobre os dias mais ensolarados, para que possamos desejá-los muito. afinal, não queremos o que não sabemos que existe.

 

aqui, há uma manhã que clareou doendo na parte de trás dos meus olhos

há um corpo atravessado pela palavra calor.

 

em todas essas existências extraordinárias

o sol a pino.

 

Halaise Asaf

Amazonas - N

Halaise Asaf tem 22 anos, é cantora, compositora de rap, poeta e pioneira no projeto Slam, na cidade de Manaus. Estuda Letras na Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Organiza eventos e minicursos com temas de literatura marginal e poesia periférica. Luta por uma educação inclusiva e igualitária, para que crianças e adolescentes tenham um real acesso à leitura e à poesia.

@halaise_asaf

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Poemas

Racismo

 

O que minha mãe me contou parece ser brincadeira

tudo que sofreu por ter a sua pele negra.

Como se tivéssemos o poder de definir

e mesmo que tivesse, escolheria ser assim.

 

Essa sociedade que se diz intolerante

com as formas de preconceito

mas que leva sempre avante.

 

Eu não quero igualdade, eu quero justiça!

Quantas almas se escodem?

Será que dá para saber?

É homem destruindo homem

sem motivos para fazer.

 

A não ser a ganância e a exaltação

de acharem-se melhor,

mesmo sabendo que não são.

Veja o nosso futuro, veja a nova geração

inconscientes no mundo,

já nem pedem explicação.

 

Já desligou sua TV?

Muita coisa acontecendo que você tem que saber

Há dor, pobreza e destruição

e a população mais afetada,

sabe, são os meus irmãos!

 

Que legado deixaram

quando os escravizados foram libertos?

Lhes sugaram as forças, tiraram a paz

suas vidas foram presas por “direitos” desleais.

 

O que nos dão agora são uns sistemas de cotas

mas, me diz, paga metade das almas mortas?

Lembro-me daquela apresentadora

do Jornal Nacional

de nome Maria Júlia,

foi preconceito mortal!

 

Cretinos! Se escondem em fakes

não têm coragem de mostrar a cara

são fracos de argumentos,

não passam de pessoas frustradas!

 

As lágrimas derramadas dariam para encher o mar,

mais de trezentos anos para poder se libertar.

Se libertarem da escravidão propriamente dita

pois o preto ainda sofre

com essa humilhação maldita!

 

 

 

Mosaico

 

A vida já me roubou um bocado:

Sorriso nos lábios,

lágrimas quentes...

(Sim! E não frias!)

Frias são as noites que viro cá eu,

com meus pensamentos.

 

Desejos meus,

medos, ira.

Brota em minha alma,

às vezes,

uma certa ironia.

 

Uma vontade louca de sabe Deus o quê!

De me jogar?! Será?! Não. Não!

De reviver...

 

Como uma sombra me perseguindo,

me vem com um sorriso malicioso

a vaidade.

Eu já perdi a conta de quantas vezes sepultei a

humildade.

 

De uns tempos para cá me despi de umas virtudes,

e me tatuei com outras;

Mas se bem que não são muitas!

Pelo contrário! São bem poucas.

 

Um mosaico.

Hoje eu sou só fragmentos.

Não de cores, nem de dores,

mas de milhões de pensamentos.

Dores do Mundo

 

Várias pessoas com as mentes atormentadas,

poucas enxergam a vida em cores,

se alegram com as flores,

se divertem com quase nada.

 

Em uma fase difícil,

muitos aplaudem o consumismo,

se prostram submissos

e pecado é deixar a TV desligada.

 

Livros mofando nas estantes,

assim surgem mais ignorantes,

ordenando a todo instante:

"fiquem de boca fechada!"

 

E se Sócrates foi condenado a beber cicuta

por "corromper os jovens"

por favor me dê um gole,

morrerei cantando a vida.

 

Discursos de ódio bem elaborados

violação do amor,

algo que é mais sagrado;

Falsos, forçando alegria.

 

Seja sincero consigo

a vida é bem mais que uma selfie sorrindo,

a vida é guerra todo dia para se ter liberdade.

 

E se achas que estou mentido

saia das redes um instante,

nota naquele comerciante, vê?!

Repara naquele mendigo.

 

E se parar para ouvir os gritos do mundo

verás que choram por mais um de seus mudos

que morreu de fome, de frio, por indiferença

seguindo aquela velha sequência

é, a dor não escolhe seu rumo.

 

E Cândido já bem dizia:

"ler não corrompe nem edifica,

mas humaniza" e isso, eu juro!

Incerteza

 

Acordei triste,

Intrigado.

pensando no tempo,

que é limitado.

Que foge por entre os meus dedos.

Eu ainda nem o usei direito

e tudo vai-se acabando...

 

Gota a gota vai-se esgotando.

Vejo a vida indo embora e...

o que fiz até agora?!

(Só vejo o tempo passando...)

 

Acordei triste, sem motivo aparente.

talvez, pelo mundo,

que anda meio doente.

Pelos amores que morrem a cada lágrima

derramada.

 

Cansado, me lamentando,

enchi a xícara até borda.

A chuva caindo lá fora e,

dentro do quarto, eu me debatendo.

 

Pensei no sucesso, na glória,

nas coisas, que para mim,

são monótonas.

 

Queria esquecer-me no tempo.

Queria me drogar com Belchior até de madrugada!

(ando com a vida meio apertada e tudo me vale um

momento.)

 

Coloquei a caneta no bolso.

Quem sabe não me inspirava um pouco ver a noite

me cobrir?!

 

E nem andei apressado.

Mesmo com o rosto molhado já não me interessava

o fim.

 

Pensei em Sartre.

O que o levou a escrever “O Muro”?!

Vejo seres tão imundos!

Talvez, o mundo seja mesmo ruim.

 

Coloquei as mãos no bolso,

olhando para meus pés encharcados,

pensamentos agitados:

O que eu sou, enfim?!

 

Talvez não seja nada!

Talvez seja uma carta para alguém abrir.

Talvez eu seja os meus versos

incompletos,

meus medos tão incertos de nunca conseguir...

 

Talvez eu seja a incerteza.

Eu sou a incerteza!

Essa é minha única certeza:

A de que eu não sei nada de mim!

 

 

 

UMA CARTA PARA VOCÊ MACHISTA

 

“Poesia, era assim que deveríamos sermos descritas

Pois nascemos em meio a dor e em meio a dor damos vidas

Mas quase ninguém liga e eu não vim aqui passar pano para homem escroto

Vim dizer que por nós somos, somos uma só, uma só vida

E quando uma de nós morre... eu me sinto diminuída

 

E não é que não gostamos dos homens, mas estamos cansadas demais

Tendo que explicar o machismo, o assédio, o estupro...

Cansada de todos os dias termos que gritarmos por paz

Cansada de sermos diminuídas, espancadas e mortas

Cansada de sermos jogadas da sacada

Tratadas como nada, silenciadas, sem vida própria

 

Então por favor, pega sua opinião, seu machismo e homofobia

É aquele ditado: a porta é a serventia!

Estamos cansadas! E você aí do seu conforto sempre ganhando mais

Não julgado, não estuprado ou oprimido

Abre a boca imunda pra dizer que o que fazemos é vitimismo

Que na verdade não precisamos disso

Que no fundo somos todos iguais!

 

Mentira. Estamos cansadas...

A cada duas horas no brasil uma mulher é morta

Somos iguais mesmo? Que ideia torta!

Mais ações, mais atitudes. Suas flores no 8 de março

Hoje, não mais nos iludem

E digo com toda certeza que não dá mais!

E você vai dizer que era tarde e que a roupa dela era curta

Sempre arrumando um jeito de pôr na vítima a culpa

É muita humilhação, você não enxerga isso?

Você só sabe dizer que é feio e rude uma mulher lutar pelo feminismo

Vocês estão acostumados com a bela recatada do lar

Mas agora eu sou do ler e entendia que não sou obrigada

E não levante a mão para mim. Acha mesmo que eu vou ficar calada?

Pode me chamar de doida, pode me chamar de vaca

Entendi que você só sabe xingar por não saber debater

E por não ter argumentos válidos para defender sua causa

 

Sou do lar, sou da rua. Entenda querido sou minha

E não objeto ou pronome possessivo sua

Sou livre, o que sou ou deixo de ser não te diz respeito

É feio amamentar na rua e mostrar os seios

Mas é bonito tu espancar tua mina e lhe faltar com respeito

 

Ia dizer que é engraçado, mas o papo aqui é certo, de luta

Engraçado seria ver um assediador sendo espancado na rua

Mas tudo bem, você vai dizer que chega de violência

Mas não aciona a polícia quando teu irmão espanca a cunhada

Ou que a tua melhor amiga “caiu no banheiro”

Mas é só a gente organizar um movimento feminista que pronto

“indecente” “grosseiro”

 

Machista! Mude sua postura. Não queremos ser melhores que ninguém

Só queremos nossa liberdade e segurança nas ruas

Mas ser passiva não! Isso não mais!

E se vocês não derem o que estamos pedindo, nós iremos atrás

Como sempre fizemos. Mulheres de glória, mulheres de luta

E se você não aceita, nós não iremos pedir desculpas.

Por isso meninas, não baixem suas cabeças e não deixem que lhes subjuguem

Se está difícil eu entendo, mas estamos aqui para isso, segure minha mão, resista e lute!

 

Jamille Anahata

Amazonas - N

Jamille Anahata é manauara, bissexual, poeta e pesquisadora de relações raciais e branquitude. Acredita no poder radical da sensibilidade e dos afetos; conduz experimentações poéticas nas suas redes sociais. Faz parte do coletivo artístico-poético Terracota, do coletivo GT Indígena do Tribunal Popular e possui poemas nas antologias Poesia indígena hoje, Longe de Monte Carlo e Chão vermelho.

@jamille.anahata

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Poemas

cachimbo 

uma só estrela apareceu e conversou comigo essa noite 

me contou seus planos 

me perguntou pra onde eu ia 

como era queimar desse jeito 

no meio da cinza 

me perguntou dos planetas que visitei 

desenhei no ar meu itinerário 

com as pontas 

dos meus dedos 

de maneira que sabia 

que desapareceria 

tão logo o sol chegasse 

efêmero 

planos feitos de pó 

sem compromisso com eternidade 

(nós duas sabemos que isso não existe, rimos) 

ela quis ser mensageira dos meus sonhos 

disse que poderia chegar 

em qualquer janela interplanetária 

primeiro eu quis recusar 

dizer não precisa 

depois 

depois eu cedi à vontade de pedir 

deixa então na janela uma semente 

caso ela acorde querendo plantar

breu 

dentro da canoa só havia um remo. só havia um sonho. a noite salpicada de estrelas, o rio salpicado de espectadores, a escuridão preenchendo os espaços. só havia uma correnteza, e uma canoa deslizando. um morcego de guia. presenças na beira da estrada. assistindo. acenando boa viagem. o rio decidiu vamos. o estômago grunhiu. o vento nos cabelos e o balançar das águas. a canoa sabia. curvas, banzeiro, árvores laranjas. bateu suave no destino. 

um pé na água. outro cauteloso. deslizando no barro e esperando a reação dos pés da terra.

venha. já estávamos te esperando. 

trança 

 

quando via sua mãe e suas tias cortando buriti com terçado preparando palha 

juntando o quebra-cabeça com dedos calejados 

luzia não via a hora de ser grande 

os dedos das matriarcas 

cruzando 

em cima 

embaixo 

em cima 

embaixo 

em cima 

embaixo 

em cima 

embaixo 

luzia imitava nos cabelos 

à porta ela espreitava 

e num piscar de olhos 

dentro estava 

luzia dormia 

e luzia sonhava 

em ser um dia tecida

---

 

não sou só 

meus joelhos ralados 

ou a cicatriz na minha barriga 

sou também canga estendida em dias ensolarados, 

sorriso bordô, dança e cantiga


gotejar 

meia-luz de noite ardente 

lençóis amarelos emaranhados 

minha mão em nuca suada 

os cabelos pretos embaraçados tua língua quente no meu queixo dedos no meu colo exposto 

e mamilos eriçados 

o gemido rouco 

as pernas retorcidas 

tu sabes meu desejo 

e insistente me atiça 

e me beija devagar 

tu por baixo, eu por cima 

tua respiração acelerada 

quando unhas deixam caminhos brancos nas coxas suadas 

eu te provo ansiosa 

impaciente tu me apressa para dentro sou obediente 

minha hora favorita 

é quando teu pé se enterra no colchão a voz goteja 

uivando amena mais e mais e mais e mais nascente abundante 

mergulho despreocupada 

nadamos peladas 

submersas e sincronizadas 

te busco risonha 

em espirais líricas 

até emergirmos poéticas 

com nossos corpos rítmicos

 

Jussara Vasconcelos

Amazonas - N

Sou uma ideia utópica,

nasço e morro no papel.

Até que a teoria é boa,

mas não me coloque em prática que eu não dou pra ação. 

 

Uma nortista de 24 anos, que eventualmente diz ter 22, porque a maturidade não lhe cai bem. 

@jussaravas

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Poemas

ROXO ESCURO (QUASE AZUL)

 

2 da manhã, poema, estou acordada.

No útero uma dor seca, alargada e com data prévia.

O ventilador eu vou desligar pois ainda é inverno,

e mesmo em maio os torós de outubro se esparramam.

 

A minha avó com a sua lanterninha de olhar as horas,

a minha avó que agora é raro que eu admire,

sono incabado, longo e seco e detestável

Uma segunda-feira se insinuando num fim de vida.

 

PEIXES GÊMEOS

 

Se eu fosse,

se eu fosse agora um mar zangado;

Com ondas girando azuis e quebrando brancas,

com elas te engolindo inteira, e afogando um tico

me engoles e, com surpresa, sou toda sal.

 

Se eu fosse,

se eu fosse agora um peixe mansinho;

Quem em teu límpido aquário está mergulhada,

me perdendo, engalfiando em teus vazios,

na tua calma, afogando em águas paradas.


 

MANAUS TEM PORTO COM NOME INGLÊS

 

A Panair é uma miséria só.

eu sinto medo no porto e feira.

Aquela gente descarregando melancia,

jogando pro alto, jogando pra baixo,

em tempo de acertar um.

É uma aflição, me dá um aflito.

Os barquinhos brancos de frente,

rio negro com céu azul,

A Peta que sempre vai de recreio,

eu queria ir nele pra Lábrea.

Fazer parceria rede/banzeiro.

Eita beleza!

Mas a Panair, “Panéir”, Deus que me dibre.

eu sinto medo na feira e no porto.

homens me olham, e eu lembro também ser carne,

o cheiro de peixe,

as barracas com coisas repetitivas,

tédio. Eu sinto pena do tédio daquela gente.

Do suor,

Das meninas que ficam por lá a noite...

as meninas que assim como eu são carne

12:03 HRS

 

“Quando um não quer, dois não brigam”

Brigam.

 

Brigam porque a briga não exige fala;

Não exige falhas,

E se instala pela sala como cortina.

 

Judeus e egípicios lado a lado

Os dois se escutam,

Temem o combate,

Mas não se veêm.

 

Até que amanheça,

 

E de manhã sempre há um que afoga.

Um que sucumbe ao oceano do que não disse.

ESQUADRILHA ABUTRE ÀS 22 HRS

 

“Ela pediu que eu descrevesse,

Eu disse “tipo um pombo morando no peito”

“Ele bate as asas, são asas frenéticas”,

não era correio, não trazia mensagem.

 

E de noite fogos que cheiravam a droga,

Perguntei a ela se ela tinha ouvido,

Porque o dito pombo faz tudo irreal.

E ela só me disse “tá chegando coca”,

 

Ela só me disse, e eu não disse nada.

 

Eu me encolhia, me enquietava,

Era como um medo, só que sem perigo;

Era como um susto, só que sem motivo;

Era como um pombo, de asas inquetas.

 

E eu quero que prendam;

Quero que segurem;

Quero que agarrem;

Que o capturem;

Eu quero que peguem o maldito pombo, e que peguem agora!


 

OS JARAQUÍS TAMBÉM AMAM?

 

Florbela Espanca (em antologia) empoeirando na minha prateleira; E o rádio da

sala, tocando sentido um Fagner intenso que se quer ser peixe.

Cá comigo invejo essa inocência que é ter coragem de afundar no outro,

quando mesmo em mim, qualquer pingo d’água me embaça a vista num presente

turvo.

 

Myriam Scotti

Amazonas - N

Myriam Scotti nasceu em Manaus, em 1981. Venceu o Prêmio Literário de Manaus com o original Terra Úmida, em 2020. É cronista do jornal A Crítica e mestranda em literatura e crítica literária pela PUC-SP. Formou-se em direito pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Das vivências com seu filho, surgiram crônicas e histórias infantis, momento em que resolveu dedicar-se totalmente à escrita e publicar seus primeiros livros.

latitude: -3,1303048 / longitude: -60,0225347

@myriamscotti_

Myriam Scotti.png

Poemas

De onde nasce a poesia

 

Lanço-me no abismo das memórias

Por me construírem ao longo dos dias

ainda que muitas vezes fétidas

ainda que outras me causem agonia

 

A página em branco suplica

Para que eu cavouque mais fundo

Se quero que palavras nela brotem

É preciso não temer o mergulho

 

Ser poeta exige coragem

De impedir a dor passar

Ao coração, breves descansos

O tempo do fôlego se renovar

 

A beleza não está na dor do poeta

Mas em como ele a descreve

Burilando a palavra sem descanso

Até que desdiga para que serve

 

Ao desdizer o sentido

Palavra e poeta se fundem

Pois ambos nascem inconformados

Com tudo o que veem no mundo

 

Juntos, então, inventam criam distorcem

Ambos aguçando suas ruínas

Transformando as palavras

No acalento chamado de p o e s i a

 

  

Lado de dentro

 

Meu aconchego é do lado

de dentro, vestida do avesso

onde as lágrimas escorrem

dos olhos ao peito

onde o sangue jorra

para dentro da pele

onde o gozo se sufoca

com as palavras que escondi

                                 [de mim mesma]

das minhas estranhezas

faço então estância

sou minha própria arena

 

Durante as refeições

engulo colheradas de ruína

Mulheres chovem

 

Como a chuva que cai p’ra limpar

Nuvens carregadas que se espremem,

Tantas mulheres chovem p’ra vazar

O que um coração quebrado sente.

 

Pois que o choro nunca é fraqueza,

É natureza a cuidar do corpo,

Levando os rejeitos para longe,

Devolvendo o sorriso que se esconde.

 

Chuva que limpa céu torrencial,

Lágrimas que lavam a alma triste,

Aliviam dor exponencial,

Sem levar em conta dor que persiste.

 

Desafio se há mulher que chova

Sem transbordar angustia qu’insiste.

 

 

Amor incômodo

 

Eu te amo, amor incômodo!

A vida era fácil

quando não existias

Arrombaste a minha paz

Fizeste-me pranto

Fizeste-me agonia,

levando embora a alegria

da ignorância que não possuo mais

Ainda assim, desejo-te perto,

porque sem ti já não sei passar os dias

Fica claro então que é no caos

que encontro a harmonia

 

 

Rios que passam

 

Rios que aqui passam,

passam águas abundantes

angústias não passam

 

Priscila Lira

Amazonas - N

Priscila Lira é escritora, desenhista e professora. Publicou O barulho do mormaço (2016) e Manual de feitiçaria (2013), disponíveis em e-book, gratuitamente.

latitude: -3,0349675 / longitude: -59,9826391

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Poemas

Condução

 

ninguém se surpreende mais

da velocidade que as imagens

passam na nossa frente,

tipo o instagram

ou o correr do ônibus pela paisagem da cidade:

muros maquiados de grama

carros tubos caminhantes estudantes

pilhas e pilhas de casas escritórios consultórios laboratórios

plantas solitárias

janelas e janelas

 

eis que!

surge uma costa

e senta em uma delas

rebola o corpo todo

procurando a melhor posição

uma acrobacia no buraco sem grade

meu coração treme

grita pra dentro

NÃO CAIA DAÍ MOÇA

NÃO PULE DAÍ MOÇA

o braço esquerdo dela é posto para o lado de fora

se apoia na vidraça

vejo que a camisa

azul marinho

tem uma listra branca na manga

 

a mão acaricia com a flanela

em movimentos

delicados

e circulares

minhas costas transparentes

 

e o sinal abre.

 

 

Mundo

 

Acordo assustada na rede, tiro o cobertor do rosto e vejo pela grade do portão que o barulho de fora é o vizinho jogando caixas e caixas de entulho, latas de suplemento alimentar no jardim. Quando ele volta rumo à casa, cubro os olhos com o cobertor roxo e peludo.

 

Lá de dentro, a luz nublada entra violeta, joelhos flexionados e pernas abertas formam um barraquinho tomado pela nuvem de cheiros saindo da minha calcinha. Vez ou outra, emerjo olhos e nariz para espiar, coloco as mãos para fora, balanço as folhas da oliveira.

 

Mergulho novamente.

 

Esfrego as mãos no rosto ainda sonolento na tenda violeta e tudo se interrompe pelo perfume do sabonete de castanha. Passo a língua pela ferida nos meus lábios.

 

Respiro.

 

 

Bicha loca

 

Digo direi, de verdade: eu estava bêbado de meu.

Ah, esta vida, às não-vezes, é terrível bonita, horrorosamente,

esta vida é grande.

 

G. Rosa

 

Teve um dia

que eu encontrei, naquele bar que elogia o marido da Elza,

o ex-patrão que PUXOU O MEU CABELO

larguei os amigos na calçada

 

e caminhei

 

vagarosamente

enquanto seus olhos se agarravam nos meus

em brasa

 

EU GRITO

EU GRITO

EU GRITO

 

e o velho se esconde atrás do dono do bar

que ao sinal de comando

abana o rabo e vem atrás de mim

pedir o copo de volta.

 

Minhas mãos desobedecem

e ouço cacos na sarjeta,

desfilo,

sem olhar pra trás,

 

nem pra baixo.

 

O boy do tinder me oferece carona,

que eu recuso,

orgulhosa e bêbada

pra dar às mãos à lua cheia

que decide dar a minha mochila (umdoceumbegumcaderninho)

ao homem da rua

 

espiando,

camisa branca,

atrás da árvore.

 

Caio no chão,

mordo sua mão que me amordaça

com toda a força do meu ser

– como sempre sonhei fazer em pele viva –

Grito que sou o capeta e vou matá-lo,

ele soca meu olho, dou chutes desesperados

 

GRITO

 

ele corre com o prêmio nas costas

Eu ganho arranhões na bunda,

um olho roxo, a boca inchada.

Rebolo a raba no espelho,

tiro uma foto,

conto pra todo mundo

 

orgulhosa.

Notas sobre mergulho

 

Quero viver meu cercado de destroços feito fosse, sei lá, um playground. Unir, colar, empilhar essa tralha toda, depois chutar, forjando um desmoronamento enquanto meu corpo, forte, dá gargalhadas e dança, nu, buscando perfumes na vegetação, os dedos sujos e o cabelo enfeitado, roçando em texturas similares, diferentes, curiosas. E coisa em que mergulhar e levantar as mãos alegres cheias de líquidos. Água e brilho. Comer é importante. Acho, sou, pareço? cruel, muito mais que suicida. No centro de Manaus tem mendigos que brincam de tomar banho nas poças.

 

Tenho repensado as poças, veja como parece que funcionam: perto do mar e da grama, elas ficam lindas, no escuro, refletindo a luz, dos dias, dos postes, ainda mais se tiver chovendo, como o dia em que cheguei aqui em Florianópolis. Se demoram a evaporar, criam musgos que se desprendem e ficam boiando, parecendo pequenas rugas verdes. O meu desejo era que elas nascessem e evaporassem constantemente, mas e os musgos, né?

 

Mas e não é tudo isso mesmo que acontece?

 

Algumas poças nunca veem luz direta, parecem segredos compartilhados entre pedras, areia, barro. Abrigam as mais diversas formas de vida e morte.

 

Ainda não sei muito bem o que dizer das poças de asfalto. Brilham, né. Mas sigo acreditando que, pelo menos essa, não é amor. Ou, sim, né, uma estapafúrdia forma de amor.

 

Mas também tem o vento, o mar, o rio, as árvores…

O amor atravessa

Parece que tô dando voltas num igarapé delicioso. Ou serei um musguinho boiando?

 

Peguei uma mania engraçada de gostar do meu cecê. Não o de todo mundo, só o meu mesmo. Depois que comecei a tentar decifrar aquele cheiro misturado com óleos de frutas, madeiras, achei que parecia, assim, uma flor exótica. Às vezes, no ônibus, quando volto sentada, enfio a cara dentro da minha camisa e sorrio. Experimentos com o sovaco: outra lição da velhinha pornógrafa. Até quando olho meu sovaco agora lembro de Hilda Hilst, vê se pode? Mas bom também é aquele de quando eu passo o dia paradinha, pensando, esquecida dos perfumes.

 

Aqui do mirante do memorial, os sons do largo parecem se tornar uma coisa só, envolvida por uma bolha que os distancia de nós, os suspensos. As pessoas lá de baixo, pequenininhas, sem rosto, por causa da minha miopia, ao mesmo tempo em que não me dão a mínima, me causam cerrrto arrr de superioridade. Tem vezes que fico assim no chão, mas as coisas se invertem: olho as pessoas e sinto que não consigo alcançá-las, fico um nojo. Tem vezes que acho isso um talento. Porém meio irritante.

 

Aconteceu de eu ter pensamentos acabados sobre a natureza e ela fazer justo o contrário logo depois, exemplo: pensei “como os pássaros do centro são silenciosos e um bando passou GRRRRRR GRRRRRRR GRRRRRIS depois outro ou:

 

Três bolhas de sabão alcançam a minha altura e puffff...

Xexéu

 

Folheia livros de arte pendurada na rede.

Por suas pernas curtas,

a altura não precisa alcançar muita distância do chão

para os pés sacudirem o ar

em feições aquáticas de domingo.

 

Molhada de suor

não queria outra piscina hoje,

ou talvez..

 

O pés sacudindo felizes

é cena de grande importância,

e se repete

na história

ainda que só

no olhar de suas travessuras

 

aos ofendidos: po(r)(s)sua pele de ostra.

 

Goza pensando num mundo,

onde a vontade de rasgo não é imperdoável.

 

Para isso eu preciso:

garras, dentes, ostridade.

 

Susy Freitas

Amazonas - N

Susy Freitas nasceu em Manaus, Amazonas. Escreveu os livros de poesia Carrego meus furos comigo (Urutau), Alerta, Selvagem (Patuá), vencedor do Prêmio Literário Cidade de Manaus; e Véu sem voz (Bartlebee). Publicou em diversas revistas literárias, como 7Letras, Subversa, Ruído Manifesto, Mallarmargens e outras. É uma das editoras da Revista Torquato.

latitude: -3,13388 / longitude: -60,0283398

@susysemz

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Poemas

SELVA

 

Quando penso na selva

penso nos filhos mortos

no ventre do seringal.

Mortes contadas

que a vó paria ao falar.

Mortes vivas

na palavra e no sangue

que rasgou o mapa.

 

Quando penso na selva

penso nas lágrimas de

Werner Herzog

e o verde monstro

beijando em seus

lábios deliciosos

o grande Pesadelo.

 

Quando penso na selva

me explico o calor

do asfalto

a pele curtida

e o coração implacável.

 

Penso na selva

que não cabe

num outdoor

e ergo o punhal

em sua glória.

 

 

CADEIRA ELÉTRICA

 

O sol

senta o horizonte

na cadeira elétrica

e sentencia

a derme

à morte.

Por sorte

a megalomania

do calor

esquizofrênico

amazônico

despeja

pink lemonades

da tempestade

mais absurda.

Dionísio

Dança o shoegaze

no teu copo

de nescau

e cinge

corações

ao meio

na noite

periclitante

que ainda

engatinha

na sala de estar.

 

 

SELF SERVICE

 

Talheres rugem no self service

enquanto encaro teu

tédio oleoso

e a vontade de correr é

indiscutível —

deixar esse país pra trás.

 

Encampa o rito

a fome que não cabe

no prato feito —

a cruz de garfo e faca

arruína na louça

a carne que rasga o

meio-dia e meia.

 

Na falta de algo melhor

(economia aquecida

vagas de emprego

petit gâteau

ou um Lulu

da Pomerânia)

a paralisia da sesta

é meio um prêmio.

Brasil — ame-o ou deixe-o.

AMAZÔNIDA (I)

 

Não me pergunte

sobre o rio – eu

fui cozida

no pavimento – eu

nunca soube

nada do rio – além

dos meus sedimentos – do

abraço morno

do domingo

flutuante

 

e o cenário todo

sorve esse sentir.

 

Lá abraço o rio

que aperta tudo

num nado

devorado –

longe da margem

pra longe da tarde

 

não me confunda com esse lugar

nasci aqui – mas meu rosto mente

não toco o chão com propriedade

na negação – beijo – o rio sente

e o cenário todo

sorve esse sentir.

 

 

CONDOMÍNIO

 

Estranho essas manhãs

de janelas de televisão desligada.

 

As abelhas operárias

resfolegam sobre o pão e o leite

 

veladas por cortinas blackout

e um exército de yorkshires –

 

esculturas da classe média

no aguardo da próxima exposição.

 

No recorte das áreas comuns

etiquetas saltam das roupas

 

carros vertem desodorizante

e filhos obesos atestam soberania.

 

Isso – a hospitalidade como rito

no invólucro do elevador

 

a imutabilidade do gramado

caucionada pelos subalternos

 

a vida cem por cento regimentada

e o cárcere das crianças no play –

 

sobe numa náusea sem precedentes

na garganta do meu instinto voyeur.